Tenho acompanhado, no ambiente social que frequento, diversas manifestações de indignação diante das promessas e dos posicionamentos de campanha apresentados tanto pela esquerda quanto pela direita.
Entre essas manifestações, uma em particular chamou minha atenção. Um professor universitário, que se apresenta publicamente como católico, religioso e bastante próximo do meio eclesiástico, afirmou em suas redes sociais que “católico não vota na direita”.
A frase, aparentemente simples, merece uma reflexão mais cuidadosa. Não porque seja necessário defender a direita — assim como não cabe aqui defender a esquerda —, mas porque uma afirmação dessa natureza ultrapassa o terreno da preferência política pessoal. Ao associar diretamente a identidade católica a uma determinada posição no espectro político, ela suscita uma questão essencial: pode a fé católica ser identificada com uma corrente ideológica a ponto de determinar, de antemão, em qual campo político um católico pode ou não votar?
Afirmar categoricamente que “católico não vota na direita” não encontra fundamento na Doutrina Social da Igreja. A Igreja não canoniza a direita, mas também não canoniza a esquerda. O Evangelho não cabe integralmente em nenhuma ideologia ou partido político.
A Doutrina Social da Igreja oferece princípios para que o cristão julgue a política — e não para que a política julgue o cristianismo. Entre esses princípios estão a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a defesa da vida, a justiça social, a proteção dos pobres e vulneráveis, a liberdade religiosa, a paz e a responsabilidade diante da criação.
O próprio Compêndio da Doutrina Social da Igreja ensina que a fé cristã não pode ser reduzida a uma ideologia política e reconhece a legítima pluralidade de opções temporais entre os católicos. Em matérias políticas prudenciais, dois católicos podem, de boa-fé, chegar a soluções diferentes sem que um deles deixe de ser católico por isso.
No último dia 04 de outubro, enquanto no Brasil realizávamos eleições, reli o discurso de Georgia Meloni feito na Loggia do Sacro Convento, em Assis, na Basílica São Francisco no ano de 2025.
Giorgia Meloni ocupante do cargo de Primeiro-Ministro da Itália é uma governante situada à direita, mas invoca princípios profundamente cristãos: a paz, o diálogo até mesmo com o adversário, a responsabilidade moral dos governantes, o cuidado com os pobres, o desapego dos bens, a dignidade humana e a responsabilidade pela criação. Isso não significa que todas as políticas de seu governo estejam automaticamente de acordo com a Igreja. Elas devem ser julgadas uma a uma, precisamente à luz desses princípios.
Meloni apresenta Francisco como alguém que obriga o governante a ultrapassar a busca da popularidade, recorda a destinação não absoluta dos bens, condena a violência, valoriza o diálogo com o inimigo e insiste na responsabilidade diante dos pobres e da criação. Esses princípios podem funcionar não apenas como legitimação de sua política, mas também como critérios para julgá-la.
Esse é talvez o ponto crítico mais produtivo: em vez de perguntar se: “Meloni é de direita, logo um católico pode ou não pode apoiá-la”, a pergunta propriamente católica seria:
Até que ponto as políticas concretas de Meloni correspondem aos princípios cristãos que ela própria invoca em seu discurso sobre São Francisco?
E exatamente a mesma pergunta deveria ser dirigida a um político de esquerda.
E o mesmo exame deve ser aplicado à esquerda. Uma proposta não se torna cristã simplesmente porque se apresenta como defesa dos pobres ou da justiça social, assim como outra não se torna cristã apenas porque defende a família, a ordem ou determinados valores morais.
A própria CNBB insiste que a Igreja não possui partido nem candidato oficial e que nenhum projeto político realiza plenamente o Evangelho. O discernimento cristão, portanto, não pode ser substituído por uma palavra de ordem eleitoral.
Bento XVI foi particularmente claro ao ensinar que a Igreja não pretende tomar para si a batalha política destinada a construir a sociedade mais justa possível. Essa tarefa pertence propriamente aos fiéis leigos, que devem agir segundo uma consciência formada pelos princípios cristãos.
Por isso, dizer que “católico não vota na direita” é tão doutrinariamente inadequado quanto afirmar que “católico não vota na esquerda”. Em ambos os casos, coloca-se uma classificação ideológica acima do discernimento moral cristão.
O católico não deve entregar sua consciência nem à direita nem à esquerda. Deve formá-la segundo o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja e, a partir deles, julgar criticamente ambas.
Quando alguém transforma uma opção política particular em requisito para ser um “verdadeiro católico”, corre o risco de inverter a ordem das coisas: em vez de submeter a política à fé, acaba submetendo a fé à política.