
Pesquisar é, realmente, algo raro, inebriante e, por que não dizer, maravilhosamente surpreendente.
Em minhas andanças pelos registros e documentos dos séculos XVIII e XIX, tenho me deparado, com certa frequência, com diferentes grafias de nomes de sacerdotes e outros personagens que apresentam o sobrenome Sam Payo.
A curiosidade é uma característica natural de minha personalidade, o que me levou a investigar o significado, o sentido e a origem desse sobrenome.
A pesquisa conduziu a uma descoberta surpreendente, permitindo estabelecer uma possível relação etimológica com o nome de um jovem mártir cristão do século X: São Pelágio de Córdoba.
Pelágio é um nome derivado do grego Pelágios (Πελάγιος), que significa do mar, marítimoou pertencente ao mar. Incorporado ao latim como Pelagius, adquiriu, na Península Ibérica, formas como Pelayo, Payo e Paio.
Segundo a tradição hagiográfica (escrita sobre a vida dos santos), Pelágio de Córdoba foi um jovem mártir cristão que, nasceu por volta de 912, na Península Ibérica, e morreu em Córdoba, em 925, durante o domínio muçulmano, quando a cidade era a capital do Emirado Omíada de Córdoba.
Ainda criança, Pelágio teria sido entregue como refém em circunstâncias relacionadas aos conflitos entre cristãos e muçulmanos. Permaneceu em Córdoba, onde, segundo os relatos cristãos, resistiu às pressões para renunciar à sua fé.
A tradição relata que foi martirizado em 26 de junho de 925, quando tinha aproximadamente treze anos. Os detalhes de seu martírio encontram-se na Vita vel passio sancti Pelagii, obra atribuída ao presbítero Raguel, que teria vivido no ambiente cultural de Córdoba, uma sociedade predominantemente muçulmana onde redigiu, por volta de 967, uma narrativa em prosa latina rítmica.
A história São Pelágio também foi registrada na Passio Sancti Pelagii, de Hrotsvitha de Gandersheim, religiosa e poetisa alemã do século X, que transformou o episódio em um poema narrativo.
Todo esse preâmbulo serve para compreender como a investigação conduziu à hipótese de uma evolução etimológica envolvendo as formas Sam Pelágio, Sam Payo, São Paio e, finalmente, Sampaio.
Essa possível relação entre as diferentes formas do nome e sua transformação em sobrenome já foi objeto de estudos etimológicos desenvolvidos por autores como José Pedro Machado, Antenor Nascentes e Rosário Farâni Mansur Guérios, cujas obras são indicadas nas referências bibliográficas.
Portanto, se o amigo leitor possui o sobrenome Sampaio, poderá encontrar nessa investigação uma interessante aproximação com a história e as tradições dos nomes próprios da Península Ibérica, especialmente de Portugal e da Espanha.
Quanto à possibilidade de vínculos genealógicos com famílias de origem judaica sefardita ou de cristãos-novos, trata-se de uma hipótese que merece investigação documental específica, considerando os processos migratórios, as conversões religiosas e a formação das linhagens familiares ao longo dos séculos.
Afinal, a pesquisa histórica tem dessas surpresas: uma simples grafia encontrada em documentos antigos pode abrir caminhos inesperados para compreender a origem dos nomes, as trajetórias familiares e os vínculos que, atravessando séculos, ainda aproximam o presente de um passado distante.
Bibliografia
MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Obra de referência para a etimologia de nomes próprios e sobrenomes.
NASCENTES, Antenor. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, tomo dedicado aos nomes próprios. Referência para a evolução linguística de antropônimos.
SARAIVA, António José. Inquisição e Cristãos-Novos. Estudo sobre a atuação inquisitorial e a situação dos cristãos-novos portugueses.
NOVINSKY, Anita. Cristãos-Novos na Bahia: A Inquisição. Estudo importante para compreender a presença de cristãos-novos na América portuguesa