Arquivo do autor Genaro Campoy Scriptore

Santo Pelayo, Sam Payo, Sam Paio, São Payo ou São Pelágio.

Martirio-de-Sao-Pelagio-sob-a-Luz-Celestial-300x300 Santo Pelayo, Sam Payo, Sam Paio, São Payo ou São Pelágio.

Pesquisar é, realmente, algo raro, inebriante e, por que não dizer, maravilhosamente surpreendente.

Em minhas andanças pelos registros e documentos dos séculos XVIII e XIX, tenho me deparado, com certa frequência, com diferentes grafias de nomes de sacerdotes e outros personagens que apresentam o sobrenome Sam Payo.

A curiosidade é uma característica natural de minha personalidade, o que me levou a investigar o significado, o sentido e a origem desse sobrenome.

A pesquisa conduziu a uma descoberta surpreendente, permitindo estabelecer uma possível relação etimológica com o nome de um jovem mártir cristão do século X: São Pelágio de Córdoba.

Pelágio é um nome derivado do grego Pelágios (Πελάγιος), que significa do mar, marítimoou pertencente ao mar. Incorporado ao latim como Pelagius, adquiriu, na Península Ibérica, formas como Pelayo, Payo e Paio.

Segundo a tradição hagiográfica (escrita sobre a vida dos santos), Pelágio de Córdoba foi um jovem mártir cristão que, nasceu por volta de 912, na Península Ibérica, e morreu em Córdoba, em 925, durante o domínio muçulmano, quando a cidade era a capital do Emirado Omíada de Córdoba.

Ainda criança, Pelágio teria sido entregue como refém em circunstâncias relacionadas aos conflitos entre cristãos e muçulmanos. Permaneceu em Córdoba, onde, segundo os relatos cristãos, resistiu às pressões para renunciar à sua fé.

A tradição relata que foi martirizado em 26 de junho de 925, quando tinha aproximadamente treze anos. Os detalhes de seu martírio encontram-se na Vita vel passio sancti Pelagii, obra atribuída ao presbítero Raguel, que teria vivido no ambiente cultural de Córdoba, uma sociedade predominantemente muçulmana onde redigiu, por volta de 967, uma narrativa em prosa latina rítmica.

A história São Pelágio também foi registrada na Passio Sancti Pelagii, de Hrotsvitha de Gandersheim, religiosa e poetisa alemã do século X, que transformou o episódio em um poema narrativo.

Todo esse preâmbulo serve para compreender como a investigação conduziu à hipótese de uma evolução etimológica envolvendo as formas Sam Pelágio, Sam Payo, São Paio e, finalmente, Sampaio.

Essa possível relação entre as diferentes formas do nome e sua transformação em sobrenome já foi objeto de estudos etimológicos desenvolvidos por autores como José Pedro Machado, Antenor Nascentes e Rosário Farâni Mansur Guérios, cujas obras são indicadas nas referências bibliográficas.

Portanto, se o amigo leitor possui o sobrenome Sampaio, poderá encontrar nessa investigação uma interessante aproximação com a história e as tradições dos nomes próprios da Península Ibérica, especialmente de Portugal e da Espanha.

Quanto à possibilidade de vínculos genealógicos com famílias de origem judaica sefardita ou de cristãos-novos, trata-se de uma hipótese que merece investigação documental específica, considerando os processos migratórios, as conversões religiosas e a formação das linhagens familiares ao longo dos séculos.

Afinal, a pesquisa histórica tem dessas surpresas: uma simples grafia encontrada em documentos antigos pode abrir caminhos inesperados para compreender a origem dos nomes, as trajetórias familiares e os vínculos que, atravessando séculos, ainda aproximam o presente de um passado distante.

Bibliografia

MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Obra de referência para a etimologia de nomes próprios e sobrenomes.

NASCENTES, Antenor. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, tomo dedicado aos nomes próprios. Referência para a evolução linguística de antropônimos.

SARAIVA, António José. Inquisição e Cristãos-Novos. Estudo sobre a atuação inquisitorial e a situação dos cristãos-novos portugueses.

NOVINSKY, Anita. Cristãos-Novos na Bahia: A Inquisição. Estudo importante para compreender a presença de cristãos-novos na América portuguesa

 

São Francisco de Assis, Eleições e o equívoco ideológico.

Sao-Francisco-Entre-Familias-e-Animaismenor-300x200 São Francisco de Assis, Eleições e o equívoco ideológico.Tenho acompanhado, no ambiente social que frequento, diversas manifestações de indignação diante das promessas e dos posicionamentos de campanha apresentados tanto pela esquerda quanto pela direita.

Entre essas manifestações, uma em particular chamou minha atenção. Um professor universitário, que se apresenta publicamente como católico, religioso e bastante próximo do meio eclesiástico, afirmou em suas redes sociais que “católico não vota na direita”.

A frase, aparentemente simples, merece uma reflexão mais cuidadosa. Não porque seja necessário defender a direita — assim como não cabe aqui defender a esquerda —, mas porque uma afirmação dessa natureza ultrapassa o terreno da preferência política pessoal. Ao associar diretamente a identidade católica a uma determinada posição no espectro político, ela suscita uma questão essencial: pode a fé católica ser identificada com uma corrente ideológica a ponto de determinar, de antemão, em qual campo político um católico pode ou não votar?

Afirmar categoricamente que “católico não vota na direita” não encontra fundamento na Doutrina Social da Igreja. A Igreja não canoniza a direita, mas também não canoniza a esquerda. O Evangelho não cabe integralmente em nenhuma ideologia ou partido político.

A Doutrina Social da Igreja oferece princípios para que o cristão julgue a política — e não para que a política julgue o cristianismo. Entre esses princípios estão a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a defesa da vida, a justiça social, a proteção dos pobres e vulneráveis, a liberdade religiosa, a paz e a responsabilidade diante da criação.

O próprio Compêndio da Doutrina Social da Igreja ensina que a fé cristã não pode ser reduzida a uma ideologia política e reconhece a legítima pluralidade de opções temporais entre os católicos. Em matérias políticas prudenciais, dois católicos podem, de boa-fé, chegar a soluções diferentes sem que um deles deixe de ser católico por isso.

No último dia 04 de outubro, enquanto no Brasil realizávamos eleições, reli o discurso de Georgia Meloni feito na Loggia do Sacro Convento, em Assis, na Basílica São Francisco no ano de 2025.

Giorgia Meloni ocupante do cargo de Primeiro-Ministro da Itália é uma governante situada à direita, mas invoca princípios profundamente cristãos: a paz, o diálogo até mesmo com o adversário, a responsabilidade moral dos governantes, o cuidado com os pobres, o desapego dos bens, a dignidade humana e a responsabilidade pela criação. Isso não significa que todas as políticas de seu governo estejam automaticamente de acordo com a Igreja. Elas devem ser julgadas uma a uma, precisamente à luz desses princípios.

Meloni apresenta Francisco como alguém que obriga o governante a ultrapassar a busca da popularidade, recorda a destinação não absoluta dos bens, condena a violência, valoriza o diálogo com o inimigo e insiste na responsabilidade diante dos pobres e da criação. Esses princípios podem funcionar não apenas como legitimação de sua política, mas também como critérios para julgá-la.

Esse é talvez o ponto crítico mais produtivo: em vez de perguntar se: “Meloni é de direita, logo um católico pode ou não pode apoiá-la”, a pergunta propriamente católica seria:

Até que ponto as políticas concretas de Meloni correspondem aos princípios cristãos que ela própria invoca em seu discurso sobre São Francisco?

E exatamente a mesma pergunta deveria ser dirigida a um político de esquerda.

E o mesmo exame deve ser aplicado à esquerda. Uma proposta não se torna cristã simplesmente porque se apresenta como defesa dos pobres ou da justiça social, assim como outra não se torna cristã apenas porque defende a família, a ordem ou determinados valores morais.

A própria CNBB insiste que a Igreja não possui partido nem candidato oficial e que nenhum projeto político realiza plenamente o Evangelho. O discernimento cristão, portanto, não pode ser substituído por uma palavra de ordem eleitoral.

Bento XVI foi particularmente claro ao ensinar que a Igreja não pretende tomar para si a batalha política destinada a construir a sociedade mais justa possível. Essa tarefa pertence propriamente aos fiéis leigos, que devem agir segundo uma consciência formada pelos princípios cristãos.

Por isso, dizer que “católico não vota na direita” é tão doutrinariamente inadequado quanto afirmar que “católico não vota na esquerda”. Em ambos os casos, coloca-se uma classificação ideológica acima do discernimento moral cristão.

O católico não deve entregar sua consciência nem à direita nem à esquerda. Deve formá-la segundo o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja e, a partir deles, julgar criticamente ambas.

Quando alguém transforma uma opção política particular em requisito para ser um “verdadeiro católico”, corre o risco de inverter a ordem das coisas: em vez de submeter a política à fé, acaba submetendo a fé à política.

Meninos no Balanço Cândido Portinari

 

Portinari_modificado-237x300 Meninos no Balanço Cândido Portinari Meninos_Braz300dpi_finalpagina-300x230 Meninos no Balanço Cândido Portinari

Meninos no Balanço

Cândido Portinari

Meninos no Balanço

Releitura de Mateus Scriptore Braz

 

Há alguns anos, durante um fim de semana, visitei, em Brodowski, a casa de Cândido Portinari, lugar onde o artista viveu momentos preciosos ao lado de sua família. Um ambiente que faz sentir de perto as raízes que inspiraram uma das mais importantes trajetórias da arte moderna brasileira.

Minha companhia naquela ocasião foi minha irmã e minha querida mãe, que já se encontrava em estágio bastante avançado de um câncer de bexiga.

Após o almoço dominical na cidade de Ribeirão Preto, fomos passear em Brodowski, cidade onde Portinari viveu sua infância e juventude.

Eu tinha dois anjos que eram a minha maior preocupação e a de meus familiares. Minhas duas pequenas, naquela época, não nos acompanharam.

Mas foi no pequeno oratório de dona Pellegrina que a visita me alcançou por inteiro. A avó de Portinari já não podia caminhar até a igreja. Então o neto lhe trouxe a fé para dentro de casa. Nas paredes, santos com rostos de parentes e amigos pareciam guardar aquele silêncio antigo, compartilhado comigo, minha mãe e minha irmã.

Saber que, em 1941, ele se dispôs a criar aquele espaço com tanta abnegação demonstra o apreço e o afeto que tinha por sua família.

Pois bem, hoje fui pego de surpresa quando meu neto Mateus, filho do anjo mais velho que não me acompanhou na visita a Brodowski, pediu minha ajuda para fazer uma releitura sobre Cândido Portinari. Ele havia escolhido a pintura Meninos no Balanço. Sua releitura foi expressa por meio de sua aptidão gráfica, que está manifestada na imagem que acompanha este texto.

Mas o que ele não sabia — e fiz questão de lhe contar — é que a obra nos traz a interpretação de que, em Meninos no Balanço, as crianças parecem flutuar no espaço, como anjos no céu, transmitindo liberdade, alegria e o encanto da infância.

Então lhe deixei uma pergunta:

— Onde está apoiado o balanço?

Sem saber o que responder, olhando para a tela de Portinari, ele me respondeu:

— Está apoiado no céu, vovô.

E eu apenas completei:

— Isso mesmo, nas mãos do Criador.

Esse grande brasileiro, modernista, que nasceu em 1903 e morreu em 1962, vítima da intoxicação causada pelos metais pesados presentes nas tintas que utilizava em suas pinturas, dedicou grande parte de sua obra à infância, especialmente entre 1955 e 1960. Desse período destacam-se obras como Meninos com Carneiro, Meninos na Gangorra, Meninos no Balanço, Meninos Soltando Pipas e Meninos Brincando.

Não bastasse toda a emoção despertada por aquela releitura, ela me conduziu a uma reflexão inesperada. Ao olhar para Mateus diante da obra de Portinari, revi minha mãe, minha irmã e a mim mesmo, anos atrás, caminhando pelos cômodos daquela casa em Brodowski. Compreendi que o tempo, silenciosamente, havia transformado minhas duas pequenas figuras angelicais em mulheres bondosas e generosas, das quais me orgulho profundamente.

Hoje, são elas que sustentam muitos dos afetos que ajudamos a construir. E, como se a vida gostasse de redesenhar seus mais belos quadros, vieram depois Mateus, Luiza, Laura e Laís. Quatro novos anjos que iluminam o tempo que me resta, como crianças em um balanço suspenso pelas mãos invisíveis do amor, da memória e da graça de Deus.

Já não acompanho com a mesma destreza as brincadeiras da infância, mas ainda me deixo conduzir por elas. Em um abraço, em um carinho ou em um sorriso inesperado, encontro a beleza dos dias e a serenidade das horas derradeiras que ainda tenho o privilégio de viver.

 

A Revista do Brasil

Capa-Media-202x300 A Revista do Brasil

Venho de um grato colóquio com as cousas do nosso passado.
Na retina se me estampam ainda a alvura das capelinhas
montanhesas, entre o anil do céu e o verde das frondes,
o porte simbólico dos cruzeiros, a pedra corrida dos velhos
chafarizes, os muros negros, as arvores anciãs. Por algum
tempo, curto em dias, mas longo em meditação e saudade,
conversei as sombras dos nossos mortos nas ruínas das nossas
paisagens. E se ouso agora tomar da pena, é porque deles,
dos nossos mortos amados, ouvi uma longa queixa sentida
contra o desamparo em que os deixam os brasileiros de hoje.
É a voz das mortas gerações que fala por minha voz; a voz
dos homens que primeiro desbravaram o terreno nacional,
a dos que primeiro assentaram a pedra angular da nossa pátria.
Acorrei, filhos ingratos desta Terra: vinde ouvir a lamentação
das ruínas!

Alceu de Amoroso Lima

Pelo Passado Nacional

Revista do Brasil Volume III Ano I Número 9 página 1
Publicação Mensal de Ciências Letras, Artes História e Atualidades
Redação e Administração de uma Sociedade Anônima – outubro de 1918

Alguns de meus amigos exercem um poder extraordinário, embora eles próprios o ignorem. É o poder de despertar meus neurônios para o ofício da escrita. Posso afirmar que muitos dos meus trabalhos nascem justamente dos questionamentos e das dúvidas que eles lançam sobre o meu intelecto, como sementes silenciosas.

Há alguns dias, ao discorrer sobre a longevidade da Revista da Biblioteca Mário de Andrade, originalmente conhecida como Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal de São Paulo, fui levado, quase sem perceber, a revisitar antigos manuscritos. Esse gesto me fez mergulhar em meu próprio universo histórico, especialmente aquele ligado à cidade de Campinas. Ali, entre papéis esquecidos e memórias adormecidas, repousava, discreta e silenciosa, a Revista do Brasil, aguardando o momento de novamente ser lida e lembrada.

O leitor talvez se pergunte o que a Revista do Brasil tem a ver com a cidade de Campinas, com a Revista da Biblioteca Mário de Andrade ou mesmo com esses amigos que atravessam silenciosamente estas linhas. Confesso que talvez não consiga responder a todos esses questionamentos de modo plenamente satisfatório. Ainda assim, apresento duas razões que servem como justificativa para o percurso que ora empreendo.

A primeira diz respeito à origem da Revista do Brasil, idealizada pelo jornalista, político, advogado e empresário Júlio César Ferreira de Mesquita. Campineiro de nascimento e, paradoxalmente, pouco reconhecido por sua própria cidade, Júlio de Mesquita foi amplamente cultuado no estado de São Paulo e no Brasil. Não raras vezes, contudo, seu nome e seus feitos foram confundidos ou atribuídos de forma equivocada ao de seu filho, Júlio de Mesquita Filho, como se a memória coletiva insistisse em deslocar o mérito de seu ponto inaugural.

Quando escrevi o livro Freguesia, Vila e Cidade de uma Campinas Velha, deparei-me com um enorme desafio para encontrar dados e referências relativos ao Coronel Joaquim Quirino dos Santos. Diante da grande escassez de fontes, só consegui escrever o capítulo 11 com o auxílio do magnífico artigo publicado na Revista do Centro de Ciências e Letras, número 54, de 30 de setembro de 1916, que reproduzira o texto de Júlio de Mesquita escrito em 16 de março de 1899.

Não hesitei, portanto, em intitular esse capítulo O Coronel Quirino dos Santos e Júlio de Mesquita, pois foi justamente nesse percurso de pesquisa que se revelou um aspecto até então pouco conhecido: a sólida relação de amizade que unia Júlio de Mesquita a Leopoldo Amaral, elo significativo para a compreensão das redes intelectuais e afetivas da Campinas daquele tempo.

A segunda razão repousa no tempo, elemento que, mais do que registrar datas, molda permanências e esquecimentos. A Revista do Brasil circulou inicialmente entre 1916 e 1918 como iniciativa de uma sociedade anônima. De maio de 1918 a 1925, passou a constituir-se como empresa adquirida por Monteiro Lobato, período em que acolheu colaborações de nomes centrais do modernismo brasileiro, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade.

Em setembro de 1925, a revista passou às mãos de Assis Chateaubriand, que transferiu sua publicação para o Rio de Janeiro, onde circulou até janeiro de 1927. Relançada em 1938, novamente sob a direção de Chateaubriand, manteve-se ativa até 1943. No ano seguinte, alguns poucos números ainda vieram à luz sob a direção de Frederico Chateaubriand, tendo Millôr Fernandes na secretaria, como um último sopro editorial.

Após um silêncio de quatro décadas, a Revista do Brasil ressurgiu por iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e da RIOARTE, que publicaram doze números entre 1984 e 1990, gesto tardio, mas significativo, de reafirmação de sua permanência na memória cultural brasileira.

A Revista do Brasil nasceu em 25 de janeiro de 1916, data emblemática por homenagear o aniversário da cidade de São Paulo, muito antes do surgimento do Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal de São Paulo, lançado em 1943, publicação que mais tarde se transformaria na Revista da Biblioteca Mário de Andrade. Este último periódico habita a biblioteca de um amigo querido, cuja bagagem cultural e influência na cidade de Campinas são tamanhas que, por respeito e afabilidade, prefiro não evocar diretamente seu nome neste artigo. Assim, ele permanece presente apenas como uma sombra benigna, dessas que acompanham a memória sem jamais se impor.

São inúmeros os trabalhos que se dedicam à história da cultura brasileira e, inevitavelmente, ao papel cultural e literário da Revista do Brasil, publicação que traz em seu bojo um conteúdo excepcional, atravessado por reflexões sobre política, filosofia, história, religião e direito. Trata-se de um periódico mensal que, em sua fase inicial, procurou retratar o panorama de um Brasil imerso em um clima pré-moderno, tal como se apresentava à sociedade de então.

Em meados de 1915, quando o mundo já se encontrava imerso na Primeira Guerra Mundial, Júlio de Mesquita, vereador em Campinas no ano de 1887, deputado federal por São Paulo em 1892, deputado estadual nos anos de 1891, 1894, 1898, 1907 e 1910, e senador por São Paulo em 1912, passa a organizar um novo periódico, inicialmente concebido para se intitular Cultura.

Aos 54 anos, Júlio de Mesquita já havia experimentado não poucos dissabores com a chamada Velha República, regime que ajudara a construir ao lado de figuras como Campos Salles, Bento Quirino dos Santos, Francisco Glicério, Rangel Pestana, entre tantos outros. Ainda assim, não perdera a fleuma nem o espírito de liberal constitucional, profundamente comprometido com a liberdade de imprensa. É nesse contexto que decide convocar, em seu escritório no jornal O Estado de São Paulo, dois colaboradores de confiança, aos quais atribui a missão de fundar a revista: Luís Pereira Barreto, seu advogado, e José Martins Pinheiro Júnior, secretário, advogado e jornalista.

Coube a Luís Pereira Barreto a tarefa de recrutar os colaboradores do novo periódico, tarefa que resultou na reunião de algumas das mentes mais expressivas da intelectualidade brasileira daquele momento. Entre elas figuravam Olavo Bilac, Graça Aranha, Alcides Maya, Alfredo Valadão, João Kopke, Félix Pacheco, José Veríssimo, Nestor Victor, Roquette-Pinto, Oliveira Vianna, João Ribeiro, Assis Brasil, Oliveira Lima, Sílvio de Almeida, Basílio de Magalhães, Valdomiro Silveira, Medeiros e Albuquerque, Alceu Amoroso Lima, entre muitos outros que a memória talvez não consiga aqui abarcar por completo.

A José Martins Pinheiro Júnior coube a árdua missão de angariar acionistas para a revista. Uma tarefa especialmente difícil diante do cenário econômico adverso e do clima de instabilidade imposto pela guerra que assolava o mundo. Quando, finalmente, a primeira edição veio a público, em 25 de janeiro de 1916, nela foram nomeados os acionistas: médicos, engenheiros, professores, advogados, políticos e até jornalistas.

Entre eles figurava o filho de Júlio de Mesquita, então estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que, no futuro, emprestaria seu nome a uma das maiores universidades públicas do Brasil: a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, hoje amplamente conhecida como Unesp.

Imprescindível dizer que a Primeira Guerra Mundial acendeu o estopim nacionalista de defesa da Pátria e que, já em 1915, o poeta Olavo Bilac desencadeara uma acirrada campanha em favor do serviço militar obrigatório, concebido não apenas como instrumento de proteção nacional, mas, sobretudo, como escola de civismo e formação moral da juventude brasileira.

Diante desse contexto e, provavelmente, sob o contágio da atmosfera nacionalista, decidiu-se abandonar o primitivo nome Cultura e adotar o título Revista do Brasil.

No primeiro número da revista, seus objetivos são delineados de forma clara:

“ O que há por traz do título desta Revista e dos nomes que a patrocinam é uma coisa simples e imensa: o desejo, a deliberação, a vontade firme de constituir um núcleo de propaganda nacionalista. Ainda não somos uma nação que se conheça, que se estime, que se baste, ou, com mais acerto, somos uma nação que ainda não teve o ânimo de romper sozinha para a frente numa projeção vigorosa e fulgurante da sua personalidade. Vivemos desde que existimos como nação, quer no Império quer na República, sob a tutela direta ou indireta, senão política ao menos moral do estrangeiro. Pensamos pela cabeça do estrangeiro, vestimo-nos pelo alfaiate estrangeiro, comemos pela cozinha estrangeira e, para coroar essa obra de servilismo coletivo, calamos, em nossa, pátria, muitas vezes, dentro dos nossos lares, a língua materna para falar a língua do estrangeiro.

Revista do Brasil Volume I Ano I Número 1 página 2
Publicação de Mensal Ciências Letras, Artes História e Atualidades
Redação e Administração de uma Sociedade Anônima – janeiro de 1916

O grupo fundador da revista, composto por mais de cinquenta sócios, foi relacionado no primeiro número da publicação e manteve-se assim até maio de 1918, quando a sociedade se desfez diante de uma proposta de compra apresentada por Monteiro Lobato, que então se tornou o proprietário único da revista.

Hoje, ao presenciar as inúmeras discussões em torno de temas ainda tão polêmicos, como a escola cívico-militar, o serviço militar obrigatório, os direitos e as ameaças ao exercício da soberania nacional, o direito ao voto, a moralização da política, a língua e a cultura próprias, torna-se de importância quase obrigatória conhecer um pouco do que fomos culturalmente e do que desejamos ser, no futuro, enquanto nação.

Deixo, assim, um convite aos amigos que, no século XXI, navegam com senso crítico apurado pelo universo cultural e literário: que se aventurem pelas dezenas de volumes da Revista do Brasil, compostos por quatro ou cinco números, com média de noventa e cinco páginas cada, para reencontrar uma época que ajudou a construir, no plano intelectual, a identidade de um país e de uma nação hoje quase esquecidos pelas novas gerações.

O respeito à arte e ao artista

O  RESPEITO À ARTE E AO ARTISTA.

Oleiro-e-Poeta-peq-200x300 O respeito à arte e ao artista

Viver em uma sociedade onde o respeito tornou-se um valor desprezível — especialmente para grande parte da geração moderna — sempre me trouxe certa dificuldade para compreender o mundo atual.

Até que, de repente, reencontro um conto de minha juventude, criado pelo professor Júlio César de Mello e Souza, presente no pequeno livro de 206 páginas intitulado Malba Tahan – Os Melhores Contos, publicado pela Editora Record, contendo 28 histórias assinadas pelo pseudônimo “Malba Tahan”.

Para situar o leitor, faço um breve resumo das páginas 93 a 96 da obra mencionada, que, sem pretensão alguma, trouxe-me uma visão renovada e suavizou o ranço conservador que costuma habitar homens de idade como eu.

Vamos ao resumo da ópera:

Em certo lugar fictício do mundo árabe, numa rua de uma pequena vila, o oleiro Nagib e o poeta Fauzi discutem acaloradamente, chamando a atenção dos moradores. Diante da confusão, a autoridade local decide levá-los ao juiz para solucionar a desavença.

O oleiro explica que estava trabalhando, moldando seus vasos, alheio aos movimentos da rua, quando o poeta, que por ali passava, atirou uma pedra e quebrou uma de suas peças. Indignado, Nagib exigia reparação em forma de indenização.

O poeta, porém, apresenta outra versão. Ao passar pelo ateliê de Nagib, Fauzi escutava o oleiro recitar um de seus poemas de forma totalmente equivocada: mutilava os versos e descaracterizava completamente sua criação. Por três dias consecutivos, Fauzi o corrigiu pacientemente e com delicadeza. Quando estava presente, o oleiro declamava o poema de forma correta e agradável ao seu criador.

Naquele dia, porém, sentindo-se insultado pela declamação errada e vulgar que Nagib fazia de sua obra, o poeta decidiu atirar uma pedra e quebrar o vaso como uma “resposta simbólica”. Se o oleiro quebrava e mutilava sua poesia, ele, o poeta, quebraria a cerâmica de Nagib.

O juiz, com sabedoria e senso de justiça, determina que Nagib produza um vaso perfeito, com espaço suficiente para receber alguns versos do poema de Fauzi. Decide também que a peça seja vendida em leilão e que o valor arrecadado seja dividido igualmente entre o oleiro e o poeta. Em sua síntese, conclui: “O poeta é o oleiro da frase, e o oleiro é o poeta da cerâmica.”

Segundo o conto, a história rapidamente se espalha pelo vilarejo. O sucesso da solução proposta leva os dois a colaborarem na criação de novas peças, fortalecendo uma amizade sincera e despertando admiração mútua entre os dois artistas.

Vivemos em uma sociedade não muito diferente da narrada por Malba Tahan. São inúmeras as pessoas com as características de Nagib, o oleiro — dotadas de admiração pela arte, mas sem domínio da linguagem poética. Em geral, são apreciadores da pintura, da música, das letras; contudo, ofendem-nas inadvertidamente, distorcendo-as e, por vezes, travestindo-se de puerilidade, desenvolvendo atitudes grotescas na imitação ou cópia dos entornos culturais. Percebem pouco o valor das figuras artísticas do passado ou do presente, ainda que apreciem suas obras. Por conseguinte, são dotados de uma verve artística prática, quase sempre ligada à matéria, ao concreto.

Em contrapartida, encontramos constantemente os Fauzi — poetas, artistas sensíveis, vaidosos, perfeccionistas, guiados pelo emocional, profundamente irritados ao ver sua obra desfigurada ou mutilada, pois a consideram perfeita e sagrada. Com senso crítico mais exacerbado que o normal, podem transfigurar seu desagrado com críticas ou imperfeições na execução ou análise de suas obras em atos de violência simbólica, como forma de protesto. Vivem no campo das ideias e da sensibilidade, dotados da capacidade artística das letras e das artes, buscando incessantemente a manutenção da autoria e da fidelidade estética.

Hora ou outra, surgem conflitos entre esses dois tipos de artistas. Gênios da criação que nada recebem por sua produção, mas que invariavelmente enriquecem atravessadores e negociantes da arte. Artistas populares que dependem dos favores do governo, enquanto muitos outros, já famosos, disputam enormes fatias do orçamento público, retornando migalhas para a nação. E o entretenimento digital, por sua vez, vive da monetização que muitas vezes abocanha direitos reservados de seus criadores.

É lamentável nossa realidade, que não dispõe de um Cádi (juiz) como o descrito por Malba Tahan no pequeno vilarejo de sua narrativa.

No mundo dos sonhos criados pelo autor, o juiz é sábio, equilibrado, justo, ponderado, conciliador e humanista. Tem a capacidade de escutar os dois lados sem tomar partido precipitado e consegue enxergar, além do conflito material, a falta de respeito mútuo entre os artistas.

Que inveja desse lugar perfeito! É fácil imaginar ali uma solução criativa que transforma o conflito em harmonia social e cooperação. E fechar o julgamento com um digno chavão de ouro: “O poeta é o oleiro da frase, e o oleiro é o poeta da cerâmica.” Cada artista tem seu dom; nenhum é superior ao outro.

Mas nossa realidade não é assim. A sociedade moderna conta com um acesso irrestrito às letras e às artes, mas ainda não demonstra o devido respeito ao valioso acervo cultural — seja nos museus virtuais e presenciais, seja nos meios fluidos da música, das artes visuais, do cinema, da literatura e do design, cada vez mais impulsionados pela tecnologia digital.

Há uma desigualdade crescente nos meios literários, onde a criação veste neologismos e deforma a língua nacional, enquanto o pensamento crítico é desvalorizado em troca de entretenimento e jogos que desviam o compromisso com a realidade.

A leitura profunda e o engajamento crítico são prejudicados pela influência de conteúdos digitais rápidos, o que enfraquece a capacidade de reflexão e diminui o espaço para obras mais densas e complexas. Ao mesmo tempo, embora a arte se torne mais acessível e diversificada, muitos artistas enfrentam precarização, falta de apoio estrutural e competição desleal com algoritmos e plataformas que privilegiam o consumo massivo em detrimento da qualidade estética. Esses conflitos revelam tensões entre a popularização das letras e das artes e a superficialidade artística, entre a inovação cultural e a instabilidade social — o que aponta para a necessidade urgente de políticas culturais, educativas e tecnológicas que valorizem a criação crítica, o trabalho artístico e a formação de um público capaz de apreciar e sustentar produções mais profundas e transformadoras.

Ao final de minha reflexão, resta a pergunta:

“Como será que Júlio César de Mello e Souza, criador de Malba Tahan — professor, pedagogo, incentivador do estudo da matemática e grande escritor de romances infantojuvenis — veria este momento histórico digital de nossa sociedade moderna?”

A escolha pelo fanatismo.

Discussao-300x200 A escolha pelo fanatismo.“O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado”
Jean-Jacques Rousseau  –  O Contrato Social

 Tenho observado, nas conversas entre amigos, nas reuniões familiares e na mídia, confrontos verbais profundamente preocupantes.

A violência física, amplamente divulgada pela mídia e que presencio em tempo real, provoca uma cegueira coletiva, acostumando o espectador a aceitar injustiças e posições imorais ou desumanas que não se justificam pelos valores sociais

A compaixão, o respeito pelo outro e a consideração pelo ser humano parecem estar em declínio. A guerra do “nós contra eles” transformou-se em um campo de batalha, cujo objetivo é a destruição do inimigo: ora por intimidação, ora por ameaças, e, em casos extremos, por agressões físicas. Justificam-se facadas, assassinatos frios e premeditados, planejados por snipers em telhados, e tantas outras estratégias maquiavélicas, com o intuito de eliminar o opositor, frequentemente reduzido à caricatura da maldade.

Podemos creditar aos políticos e à política uma nova dimensão do fanatismo, que se manifesta como instrumento de extremistas. A política tornou-se o lugar privilegiado onde o fanatismo se expressa. Não há grande diferença entre o fanático que tenta “eliminar” seu oponente político e aqueles que cometem atos de violência extrema, como a corja que ateia fogo a um pobre morador de rua.

O fanático se retrata como um herói, comprometido em livrar o mundo daqueles que considera parasitas. O fanático político que recorre à violência compartilha a mesma face do incendiário: ambos justificam atos cruéis em nome de uma suposta missão moral.

A palavra “cancelar” passou a carregar novos sentidos. Originalmente, referia-se a atos concretos, como anular um contrato, suspender um voo, riscar ou apagar algo previamente registrado. Hoje, o termo abrange desde a simples rejeição de uma marca ou ideia associada a um adversário até ações destinadas a calar, perseguir e, em casos extremos, agredir ou até matar.

Para compreender esse fenômeno, precisamos ultrapassar a visão binária que divide o mundo em preto e branco — cara ou coroa — como se a vida fosse um experimento de Bernoulli, em que a moeda tem 50% de chance de cair “cara” e 50% de cair “coroa”.

Esse olhar simplista alimenta o fanatismo que não admite as infinitas posições que possa existir entre dois polos. É como assumir que entre 1 e 2 não exista nenhum outro número: só há o certo e o errado, e o “nós” detém sempre a razão, legitimando à execração do “eles”.

Diante desse cenário, reservo-me o direito de não assumir posições que me coloquem entre o “nós” e o “eles”, em razão da minha rejeição ao fanatismo dos políticos atuais. Ao mesmo tempo, reconheço os cegos na condução de outros cegos, diante da evidente falta de liderança que enfrentamos hoje.

Não perco a esperança. Assim como Jean-Jacques Rousseau, defendo uma sociedade que valorize a inclusão e a participação direta dos cidadãos na construção democrática, respeitando o indivíduo independentemente de seu grau de instrução ou poder econômico. Acredito na igualdade perante a lei e na primazia do bem comum sobre interesses individuais. Para mim, a legitimidade política nasce do acordo coletivo e do compromisso com a vontade geral, onde a vontade do povo é soberana.

Sei que, pelo olhar do rotulador compulsivo ou da pessoa estereotipada, serei colocado na caixa dos “isentões”. No entanto, como disse acima, prefiro manter o equilíbrio e tentativa de justiça a abraçar um dos lados do fanatismo.

Afinal, quem abraça jacaré morre afogado. Mesmo que ele esteja travestido de honestidade, boas intenções ou falsamente do lado da vontade popular, prefiro deixá-lo tomando banho de sol, à espera da presa correta para sua sobrevivência predatória ou do extermínio pelas mãos de um caçador ambicioso.

Genaro Campoy Scriptore
22 de setembro de 2025

Machado de Assis e o Pretexto dos Tempos

 

 

Machado-de-Assis-Mod-221x300 Machado de Assis e o Pretexto dos Tempos
Machado de Assis

Soberania, retórica e a falta de contexto

Quando uma citação literária serve mais à retórica do que à razão, a verdade corre o risco de ser sequestrada pelo sofisma.

Hora ou outra, um desavisado qualquer — desses que se vestem de erudição para disfarçar o vazio — recorre a uma frase, ou mesmo a um texto de Machado de Assis, para justificar seus sofismas e dar verniz de profundidade a uma posição desconectada da realidade. Foi o que ocorreu recentemente, quando um ministro do Supremo Tribunal Federal utilizou uma frase de Machado de Assis, para justificar medidas cautelares contra um ex-presidente da República.

A frase, retirada de uma crônica assinada por Machado sob o pseudônimo de “Manassés”, e publicada em 1º de agosto de 1876 no periódico Ilustração Brasileira, dizia:

“A soberania nacional é a coisa mais bela do mundo, com a condição de ser soberania e de ser nacional.

Bela, sem dúvida. Mas mais bela ainda quando compreendida em seu contexto.

Lembrei-me, nesse momento, de uma lição que ouvi ainda criança. Meu pai, homem simples, profundamente religioso, gostava de repetir:

“Texto fora do contexto vira pretexto.”

Essa frase, aparentemente singela, me guiou por muitos anos — e ajuda a iluminar o mau uso da citação. O texto de “Manassés”, na verdade, era uma crônica de forte crítica ao processo eleitoral do Império. Logo nas primeiras linhas, Machado de Assis é contundente:

“Agora, o que é ainda mais grave que tudo, é a eleição, que a esta hora se começa a manipular em todo este vasto império.”

Mais adiante, com ironia refinada, o autor observa que nem mesmo haverá eleições na Corte e em Niterói — substituindo o pleito por um “relâche par ordre”, expressão francesa usada no teatro para indicar o cancelamento do espetáculo por ordem superior. As eleições, diz ele, não passam de peças mal encenadas, ora suspensas, ora manipuladas, com poucos distritos efetivamente participando do processo. Era, pois, uma denúncia da precariedade institucional do tempo.

A frase sobre a “soberania nacional” surge nesse exato contexto: uma ironia crítica ao abismo entre o ideal e o real. O conceito de soberania é apresentado como nobre desde que seja de fato soberania — ou seja, expressão autêntica da vontade popular — e desde que seja nacional, não servil a interesses escusos. Quando uma dessas condições falha, o que se tem é uma caricatura da soberania — um poder ilegítimo travestido de legalidade.

Machado de Assis encerra a crônica comparando o espetáculo eleitoral a uma ópera mal ensaiada, com músicos desafinados e atores inábeis. Por isso, diz ele, os “artistas” do processo eleitoral se retiram para o interior, onde o público, com menos repertório crítico, pode aplaudi-los — não por mérito, mas por falta de compreensão do enredo.

Essa analogia serve com precisão à reflexão que proponho: quando autoridades recorrem à literatura para ornamentar decisões, é preciso que o uso do texto seja honesto com seu sentido original. Citar Machado de Assis como se fosse um panfleto de defesa institucional não apenas distorce seu pensamento, como o transforma em caricatura de si mesmo.

Vivemos tempos em que o excesso de retórica ameaça eclipsar a substância. Em nome da erudição, se desrespeita o texto. Em nome da autoridade, se manipula o autor.

Machado de Assis, mestre do subentendido, talvez dissesse, com o sarcasmo habitual, que os verdadeiros músicos do teatro político atual ainda desafinam demais para merecer aplausos.

Direita, Centro ou Esquerda

Direita-ou-EsquerdaFoto01 Direita, Centro ou Esquerda

Foto Google Maps em 20 de setembro de 2020

 

Se as coisas são inatingíveis… ora!
não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

Mario Quintana
Livro Espelho Mágico – Das Utopias

Para aqueles que se acham orgulhosos de suas posições políticas, e de como se envaidecem com o fato de ser de direita ou esquerda, a pesquisa e estudo seria de grande valia para entender um pouco mais sobre o significado de tais posições, que são herança de discussões acirradas na busca de reconhecimento social, da liberdade de expressão, liberdade política e de participação democrática.
Na monarquia parlamentarista inglesa, na Assembleia Nacional Francesa, na Assembleia das Cortes Portuguesas e em todos locais onde funcionavam as discussões políticas, por tendência de aglutinação, debatedores se posicionavam a direita ou a esquerda do ponto central que atuava na presidência da mediação.
De um lado, aglutinavam-se os debatedores com perfis conservadores, características daqueles que defendiam as ordens instituídas preservando os ritos e costumes históricos já adquiridos nacionalmente. De outro lado os perfis liberais, características daqueles que defendiam novas ideias que estabelecessem novos e modernos ritos para serem absorvidos nacionalmente.
Tais posições poderiam ser encontradas tanto a esquerda ou direita da presidência da mediação.
Para um observador mais apurado, das reuniões sociais dos dias de hoje, confirmaria atentamente que sempre teremos grupos ou pessoas unidos a direita ou a esquerda de alguém, ou de uma mesa central que de alguma maneira ocupará uma posição mediadora, por um determinado tempo. Não é raro verificar que muitos, nestas reuniões, passam da esquerda para direita com bastante frequência, enquanto outros não arredam pé de sua posição nem para buscar comida ou bebida.
Independente das ideologias da esquerda ou direita a verdade é que sempre teremos estes que tendem a ser conciliadores, geralmente aqueles que passam da esquerda para a direita recolhendo subsídios para definir sua posição, ou seja, buscando identificação para se fixar nos grupos da direita ou da esquerda.
Democracia não é só um regime político que tem origem na eleição de representantes do povo, elegíveis para o seu governo, mas sim na prerrogativa de conceder o direito de participar nestas reuniões de forma livre conferindo passe, convite, ou até mesmo uma senha para podermos ingressar em evento social, fixando-nos a direita, a esquerda ou passeando entre os dois.
O espírito conservador não está somente na defesa do direito de propriedade, ao uso de arma de fogo ou a um governo executivo centralizado e poderoso, que possa extinguir o Senado, a Câmara e o Supremo Tribunal Federal, apoiado por forças militares, como em um passe de mágica. Esta sim, no espírito de quem manifesta claramente a defesa ao estado de direito e na garantia dos três poderes igualmente balanceados (Executivo, Legislativo e Judiciário), no combate da impunidade e corrupção, na defesa de soluções que aumentem ainda mais a representatividade da vontade popular e o respeito às autoridades constituídas.
O espírito liberal ou progressista não está somente na desregulamentação do mercado, na criação de mecanismos que subvertem leis estabelecidas para atender demandas de interesse de grupos sociais, financeiros ou econômicos. Nem tampouco na desobediência civil desenfreada, que só têm validade quando a vontade popular é maior, quantitativamente, do que os interesses de grupos refugiados por leis que atentem contra o artigo 5º da Constituição: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (mais 78  incisos e alíneas)”
Nossa Constituição garante tanto ao conservador como liberal ou progressista, formular, comunicar, escrever, defender pontos de vistas e convicções políticas, religiosas, ou seja, todos podem se colocar como desejar entre a direita, centro e a esquerda.
O que não parece ser desejo de nenhuma nação é o de rasgar suas Cartas Régias, sua Constituição, permitir que indivíduos acima da lei e das normas possam, reprimir a vontade popular utilizando-se de armas e suspendendo garantias individuais com atitudes antidemocráticas historicamente clássicas nos regimes autoritários e despóticos.
Quando uma sociedade chega ao desespero de utilizar a força, o autoritarismo, a determinação de um único pensamento individual para definir seus destinos, fica claro, que não é uma sociedade, uma nação, mas sim um curral de indivíduos liderados por um despótico que determina a direção da população encurralada.
Em geral, governantes são acometidos da “Síndrome de Húbris”, uma doença estudada neste início do Século XXI, que estuda o poder e a doença que ele acomete, como uma embriaguez de poder que provoca a perda e o sentido da realidade nacional, desperta a soberba, a presunção e a persistência perversa em políticas nascidas da cabeça de um único indivíduo que não consegue avaliar os sinais positivos ou negativos de seus atos.
O medo, o receio, a precaução, são sentimentos que têm por finalidade proteger o ser humano. Mas quando esta finalidade se torna exacerbada provoca diversos desvios psicológicos. Atos desesperados em controlar sentimentos, eventos, possibilidades futuras ainda inexistentes, variáveis exógenas incontroláveis como fenômenos naturais e até mesmo patologias ainda não diagnosticadas.
Uma sociedade democrática não é compatível com sociedades secretas, a não ser as legalmente prevista, que protegem o interesse nacional. Fora disto fica claro que o direito de associação é previsto por lei e tem como base a transparência, garantido pelo direito constitucional. Porém todo aquele que tem cargo público, por ética, deveria manifestar a sua associação junto a entidades empresariais e desportivas, sociedades culturais políticas e científicas. Tal condição faz da sociedade mais transparente e garante a liberdade de escolha do indivíduo a buscar a direita, esquerda ou o centro.
Uma nação só consegue ter a paz necessária para reger os seus destinos quando a direita respeita a esquerda e vice versa. Quando o centro, entre a esquerda e a direita seja respeitado e respeite com dignidade a esquerda e a direita. Todos se respeitando como nação e não como animais racionais encurralados na disputa de um espaço para atender suas necessidades materiais.
Extratos sociais que se consideram influenciadores e formadores de opinião, como classes privilegiadas e que estão no topo da pirâmide social, não podem negar a validade do voto de quem está nos estágios intermediário e na base da pirâmide social somente por que residem na periferia, no centro ou nos bairros operários, sob a alegação que se trata de população burra, incompetente e de fácil manobra. Falsa alegação, se assim fosse, os extratos sociais no topo do poder estariam indefinidamente no poder. Tais extratos sociais são minorias diante da grande população e acham que podem manipular em uma guerra de direita, centro e esquerda a representatividade da grande quantidade de votos que vem dos bairros operários, das favelas e da periferia.
Como diria um mestre que tive no colégio: “Manipular, mascarar, enganar, oprimir pelo medo, oprimir pela ironia e sarcasmo são armas de falsos guerreiros que sempre acabam nas mãos de alguém mais inteligente, transparente e que tem seu domínio fundado na verdade”
A desvalorização do outro pela mentira, pela falsidade e hipocrisia um alguns momentos surtem alguns efeitos, mas o tempo, a razão e os fatos de forma natural e organizada, conseguem definir claramente e registrar as linhas da verdade no conteúdo histórico de uma nação.
Por isso, não importa a posição que você ocupe, direita, centro ou esquerda, qualquer uma delas é parte integrante da cidadania do brasileiro, queira você aceite ou não. O que é repudiado, o que não é aceito e degrada a condição de cidadania, é obrigar todos a uma única posição. Fato impossível de acontecer e nunca acontecerá em razão da formação gentílica, fundada nos  índios, negros, portugueses e imigrantes europeus que construíram o Brasil de todos os Brasileiros. Claro que alguns desesperadamente buscam trocar sua nacionalidade na tentativa de negar sua nacionalidade e se afastam dos desafios nacionais, para se locupletar com os benefícios sociais de outras nações europeias, americanas e até mesmo asiáticas. Ainda assim serão brasileiros, no coração, na alma e no caráter, pois não se consegue mudar a história pessoal, familiares, seu local de nascimento, suas paisagens, seu território ou seu idioma materno.
A fonte original de poder de uma sociedade, não concede mais ou menos direitos para alguns indivíduos do que aos outros, independente de suas profissões, de seus papéis sociais, seus relevantes serviços prestados ou mesmo de seus dotes culturais ou artísticos. Basta que se some os direitos cívicos dos integrante de uma nação para se conhecer os destinos de uma nação em busca da construção de sua soberania nacional.
Portanto, estando à direita, no centro ou na esquerda, fazemos parte do povo brasileiro, povo nacional, fonte de poder da sociedade brasileira, parte de uma pluralidade de ideias compartilhadas que mantêm nossa soberania nacional, expressa pelo poder que reside em nosso povo, independente de qualquer interpretação pessoal, manifestado pelo sentido de que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

.

Oração aos Moços

Rui-Barbosa-228x300 Oração aos Moços

“Legalidade e liberdade são as tábuas da vocação do advogado”

Ruy Barbosa de Oliveira

O maravilhoso da literatura é descobrir que valores pregados pelos autores que temos consideração e respeito, ainda que em séculos anteriores, são valores tão reais que podem trazer à consciência, atualmente, qualquer ser menos esclarecido que tenha o desejo de evolução.

Nesta noite, me vieram cair de novo em mãos o discurso do eminente Rui Barbosa aos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo no ano de 1920, um singelo livreto de 55 páginas[1], muito conhecido nos meios acadêmicos da área do Direito como a “Oração aos moços”.

Quantas vezes li e reli os valores exaltados na “Oração aos moços”, escrito com base nos mais conceituados filósofos da antiguidade, nos valores do Padre Manuel Bernardes e suas várias obras escritas no século XVII, nas Sagradas Escrituras e carregado de uma emoção clara daquele que soube escolher profissão com dignidade.

Esta noite, eu aprenderia um pouco mais com aquele que foi o “Águia de Haia”, o “Grande Ruy”, como meu avô materno com seu sotaque espanhol se referia ao emérito homem público Ruy Barbosa de Oliveira.

Segundo Francisco da Silveira Bueno, outro grande estudioso da arte da oratória, salientando as qualidades da redação do “Grande Ruy”, coloca toda sua interpretação na tese de que ele era um orador para ser lido e não para ser ouvido.

O “Grande Ruy” doente, sem poder comparecer à solenidade de formatura como o paraninfo escolhido de tão seleta turma, escreveu o discurso, cujas páginas foram recolhidas por alguns formandos na cidade de Petrópolis e lido pelo diretor da faculdade, Reynaldo Porchat, diante da impossibilidade de sua apresentação no evento.

Detalhes à parte, sem muitas pretensões ao folhear a página 46[2], não consegui desviar minha atenção na profundidade com que o grande escritor utiliza dois textos maravilhosos para ensinar-me o valor daquele que julga e é julgado. O primeiro se reflete nas Escrituras: “Não cometam injustiça em um julgamento; não favoreçam o pobre, nem procurem agradar os poderosos, mas julguem o seu próximo com justiça.”[3] O segundo, o “Grande Ruy”, vai buscar na fonte da literatura luso-brasileira, nos sermões e práticas do Padre Manuel Bernardes:

“Se não tens animo para romper pela impiedade, não queiras ser juiz. Bem praticou esta virtude Canuto Rei dos Vândalos, que mandando justiçar uma quadrilha de salteadores, e pondo um deles embargos, de que era parente do Rei, respondeu: Pois se provar ser nosso parente, razão é que lhe façam a forca mais alta.

É não só nas obras de justiça, mas também de caridade devemos evitar exceção de pessoas.” [4]

Hoje ao constatar os favorecimentos judiciais recebidos pelos amigos do Rei, justificados pela ampla defesa e do contraditório, onde os embargos não produzem a forca alta e nem baixa e ficam todos à mercê do transito em julgado.

Ao ver os poderosos se locupletando com pedidos de proteção a família, aos amigos e a corte que esta acima da lei e da justiça, sinto que a justiça é só mais um meio de vida, para não dizer de negócios.

Ao ver a quadrilha de salteadores subjugar a sociedade entre zombaria, escárnio e menosprezo, tenho certeza de que os “moços” da oração do “Grande Ruy”, das duas uma, ou não escutaram bem suas palavras, ou pior, são totalmente ignorantes quanto ao seu significado e relevância.

“Como vedes, senhores, para me não chamarem a mim revolucionário, ando a catar minha literatura de hoje nos livros religiosos.

Outro ponto dos maiores na educação do magistrado: corar menos de ter errado que de se não emendar. Melhor será que a sentença não erre. Mas, se cair em erro, o pior é que se não corrija. E, se o próprio autor do erro o remediar, tanto melhor; porque tanto mais cresce, com a confissão, em crédito de justo, o magistrado, e tanto mais se soleniza a reparação dada ao ofendido.”[5]

E aprendi, nesta noite, pelas palavras de sua “Oração”, mesmo não sendo tão moço, que: “Não há justiça, onde não haja Deus”.[6]

Ainda sonho como o “Grande Ruy”, que ainda haveremos de ver um judiciário composto de bacharéis que, “não se colocarão baixo com os grandes, nem arrogante com os miseráveis. Que servirão aos opulentos com altivez e aos indigentes com caridade Amarão a Pátria e amarão aos pobres enternecidamente, guardando a fé em Deus, na verdade e no bem.”[7]

[1] Oliveira, Ruy Barbosa de – Discurso aos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo em M.CM.XX -Editora Mensário Acadêmico Dionysus, São Paulo, 1921

[2] Oliveira, Ruy Barbosa de – Discurso aos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo em M.CM.XX -Editora Mensário Acadêmico Dionysus, São Paulo, 1921, pág. 46

[3]BÍBLIA, A. T. Levítico 19 vers. 15, in Bíblia Sagrada – Nova Versão Internacional – Geográfica, São Paulo, 2000 pág. 89

[4] Bernardez, Padre Manoel – Sermões e Práticas, Primeira Parte, Dedicada a Soberana Rainha do Céu – Oficina Real Deslandesiana, Lisboa, 1711, pág. 263-264

[5] ibidem 2

[6] Ibidem 2, pág.47

[7] Ibidem 2, pag. 49

 

Os Jantares de Madame Maintenon

Edouard-Manet.-Um-bar-no-Folies-Berger.-1882-300x224 Os Jantares de Madame Maintenon

Édouard Manet-Um bar no Folies-Bèrger 1882

A pesquisa, muitas vezes, se assemelha a um vício: uma vez capturado pela atividade, torna-se difícil abandonar o assunto pesquisado. De forma quase obsessiva, ela apresenta um grau de abstração que nos leva por caminhos inesperados. Foi assim que, durante um estudo sobre “Gabinetes de Leitura”, me vi imerso na história da França, de Luís XIV, da Marquesa de Maintenon, da nobreza e dos jantares palacianos.

Em 13 de agosto de 1837, surgiu no Rio de Janeiro um jornal intitulado Gabinete de Leitura – Serões das Famílias Brasileiras. Seu objetivo era incentivar a leitura, o entretenimento e as diversões para as famílias brasileiras. Na introdução ao público, o jornal apresentou um conto sobre Maintenon, sem mencionar seu nome completo – Madame Françoise d’Aubigné, última e notável figura feminina na vida de Luís XIV. Essa comparação foi utilizada para ilustrar os propósitos do jornal em lançamento. O paralelo reside nas atitudes de Madame de Maintenon, que inicialmente serviu ao rei como governanta de seus filhos ilegítimos, mantendo-os longe dos olhares indiscretos da corte, e posteriormente, como concubina, estrategicamente seduzindo e casando-se com o rei em segredo.

A força desse editorial e da comparação reside nas palavras que traduzem o verdadeiro significado dos “Gabinetes de Leitura”. Por isso, julgamos interessante recontar essa história aos leitores.
O editorial do jornal convidava o público a frequentar suas páginas, assim como Madame de Maintenon atraía sua audiência. Sem fortuna ou posição social que a sustentasse na corte, Maintenon usava sua simpatia e, principalmente, suas conversas agradáveis e despretensiosas para reunir a alta sociedade francesa e aqueles que desejava cativar em jantares regados a alegria. Embora a quantidade e a qualidade da comida não fossem à altura das expectativas dos convidados, todos ficavam encantados com as histórias e anedotas de Madame Maintenon, contadas com perspicácia e sagacidade. Ao final, saíam de sua casa sem perceber a escassez dos pratos.

Em certa ocasião, o criado que servia à mesa, seja por simplicidade ou malícia, dirigiu-se a Maintenon em voz baixa, mas suficientemente alta para ser ouvido por todos, e disse:

“– Minha senhora, conte alguma história a estes senhores, pois o assado queimou e não poderá ser servido.”

Maintenon não se deixou abalar. Elaborou uma narrativa que, se não saciou a fome dos convidados, ao menos os divertiu, inserindo na história suas vulnerabilidades financeiras, a verdadeira razão pela qual não os podia presentear com um banquete mais farto. Esse episódio lhe conferiu a reputação de mulher mais espirituosa de seu tempo e a fez ser indicada para governanta dos filhos de Luís XIV. Desde então, os nobres e plebeus que a visitavam não diziam “vamos jantar na casa de Madame Maintenon”, mas sim “vamos conversar com Madame Maintenon”.

Assim como o editorial do jornal, que seguia o exemplo de Maintenon, convido os leitores a refletirem sobre os convites e os propósitos dos jantares e celebrações que, nos próximos meses, serão promovidos pelos futuros candidatos ao governo municipal. Esses eventos, voltados a influenciadores e à mídia, buscam conquistar apoio, serviços e, claro, votos. Uma notícia que surge de um jantar, tal como os de Maintenon, pode se revelar uma piada, um “lero-lero” ou mesmo mentiras, criadas com o objetivo de enganar.

Será que as “fake news” tiveram origem no século XVII? A resposta, meu amigo, talvez esteja sussurrando ao vento, como diria a canção. E não nos esqueçamos: com a ajuda de um bom maître, um bom atendente e um bom restaurante, podemos transformar qualquer cenário em um mero entretenimento sem consequências.

Para concluir, a bela frase do padre Diogo Antônio Feijó sobre Bernardo Pereira de Vasconcelos pode servir como alerta e critério para avaliar tais eventos: “…um livro para ser lido e depois lançado ao fogo”.

 

Texto inspirado e extraído do Livro Freguesia, Vila e Cidade de uma Campinas Velha 1774 – 1889, Capítulo 18, páginas 336 e 337. Autoria de Genaro Campoy Scriptore