Arquivo anual 13/10/2026

Santo Pelayo, Sam Payo, Sam Paio, São Payo ou São Pelágio.

Martirio-de-Sao-Pelagio-sob-a-Luz-Celestial-300x300 Santo Pelayo, Sam Payo, Sam Paio, São Payo ou São Pelágio.

Pesquisar é, realmente, algo raro, inebriante e, por que não dizer, maravilhosamente surpreendente.

Em minhas andanças pelos registros e documentos dos séculos XVIII e XIX, tenho me deparado, com certa frequência, com diferentes grafias de nomes de sacerdotes e outros personagens que apresentam o sobrenome Sam Payo.

A curiosidade é uma característica natural de minha personalidade, o que me levou a investigar o significado, o sentido e a origem desse sobrenome.

A pesquisa conduziu a uma descoberta surpreendente, permitindo estabelecer uma possível relação etimológica com o nome de um jovem mártir cristão do século X: São Pelágio de Córdoba.

Pelágio é um nome derivado do grego Pelágios (Πελάγιος), que significa do mar, marítimoou pertencente ao mar. Incorporado ao latim como Pelagius, adquiriu, na Península Ibérica, formas como Pelayo, Payo e Paio.

Segundo a tradição hagiográfica (escrita sobre a vida dos santos), Pelágio de Córdoba foi um jovem mártir cristão que, nasceu por volta de 912, na Península Ibérica, e morreu em Córdoba, em 925, durante o domínio muçulmano, quando a cidade era a capital do Emirado Omíada de Córdoba.

Ainda criança, Pelágio teria sido entregue como refém em circunstâncias relacionadas aos conflitos entre cristãos e muçulmanos. Permaneceu em Córdoba, onde, segundo os relatos cristãos, resistiu às pressões para renunciar à sua fé.

A tradição relata que foi martirizado em 26 de junho de 925, quando tinha aproximadamente treze anos. Os detalhes de seu martírio encontram-se na Vita vel passio sancti Pelagii, obra atribuída ao presbítero Raguel, que teria vivido no ambiente cultural de Córdoba, uma sociedade predominantemente muçulmana onde redigiu, por volta de 967, uma narrativa em prosa latina rítmica.

A história São Pelágio também foi registrada na Passio Sancti Pelagii, de Hrotsvitha de Gandersheim, religiosa e poetisa alemã do século X, que transformou o episódio em um poema narrativo.

Todo esse preâmbulo serve para compreender como a investigação conduziu à hipótese de uma evolução etimológica envolvendo as formas Sam Pelágio, Sam Payo, São Paio e, finalmente, Sampaio.

Essa possível relação entre as diferentes formas do nome e sua transformação em sobrenome já foi objeto de estudos etimológicos desenvolvidos por autores como José Pedro Machado, Antenor Nascentes e Rosário Farâni Mansur Guérios, cujas obras são indicadas nas referências bibliográficas.

Portanto, se o amigo leitor possui o sobrenome Sampaio, poderá encontrar nessa investigação uma interessante aproximação com a história e as tradições dos nomes próprios da Península Ibérica, especialmente de Portugal e da Espanha.

Quanto à possibilidade de vínculos genealógicos com famílias de origem judaica sefardita ou de cristãos-novos, trata-se de uma hipótese que merece investigação documental específica, considerando os processos migratórios, as conversões religiosas e a formação das linhagens familiares ao longo dos séculos.

Afinal, a pesquisa histórica tem dessas surpresas: uma simples grafia encontrada em documentos antigos pode abrir caminhos inesperados para compreender a origem dos nomes, as trajetórias familiares e os vínculos que, atravessando séculos, ainda aproximam o presente de um passado distante.

Bibliografia

MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Obra de referência para a etimologia de nomes próprios e sobrenomes.

NASCENTES, Antenor. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, tomo dedicado aos nomes próprios. Referência para a evolução linguística de antropônimos.

SARAIVA, António José. Inquisição e Cristãos-Novos. Estudo sobre a atuação inquisitorial e a situação dos cristãos-novos portugueses.

NOVINSKY, Anita. Cristãos-Novos na Bahia: A Inquisição. Estudo importante para compreender a presença de cristãos-novos na América portuguesa

 

São Francisco de Assis, Eleições e o equívoco ideológico.

Sao-Francisco-Entre-Familias-e-Animaismenor-300x200 São Francisco de Assis, Eleições e o equívoco ideológico.Tenho acompanhado, no ambiente social que frequento, diversas manifestações de indignação diante das promessas e dos posicionamentos de campanha apresentados tanto pela esquerda quanto pela direita.

Entre essas manifestações, uma em particular chamou minha atenção. Um professor universitário, que se apresenta publicamente como católico, religioso e bastante próximo do meio eclesiástico, afirmou em suas redes sociais que “católico não vota na direita”.

A frase, aparentemente simples, merece uma reflexão mais cuidadosa. Não porque seja necessário defender a direita — assim como não cabe aqui defender a esquerda —, mas porque uma afirmação dessa natureza ultrapassa o terreno da preferência política pessoal. Ao associar diretamente a identidade católica a uma determinada posição no espectro político, ela suscita uma questão essencial: pode a fé católica ser identificada com uma corrente ideológica a ponto de determinar, de antemão, em qual campo político um católico pode ou não votar?

Afirmar categoricamente que “católico não vota na direita” não encontra fundamento na Doutrina Social da Igreja. A Igreja não canoniza a direita, mas também não canoniza a esquerda. O Evangelho não cabe integralmente em nenhuma ideologia ou partido político.

A Doutrina Social da Igreja oferece princípios para que o cristão julgue a política — e não para que a política julgue o cristianismo. Entre esses princípios estão a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a defesa da vida, a justiça social, a proteção dos pobres e vulneráveis, a liberdade religiosa, a paz e a responsabilidade diante da criação.

O próprio Compêndio da Doutrina Social da Igreja ensina que a fé cristã não pode ser reduzida a uma ideologia política e reconhece a legítima pluralidade de opções temporais entre os católicos. Em matérias políticas prudenciais, dois católicos podem, de boa-fé, chegar a soluções diferentes sem que um deles deixe de ser católico por isso.

No último dia 04 de outubro, enquanto no Brasil realizávamos eleições, reli o discurso de Georgia Meloni feito na Loggia do Sacro Convento, em Assis, na Basílica São Francisco no ano de 2025.

Giorgia Meloni ocupante do cargo de Primeiro-Ministro da Itália é uma governante situada à direita, mas invoca princípios profundamente cristãos: a paz, o diálogo até mesmo com o adversário, a responsabilidade moral dos governantes, o cuidado com os pobres, o desapego dos bens, a dignidade humana e a responsabilidade pela criação. Isso não significa que todas as políticas de seu governo estejam automaticamente de acordo com a Igreja. Elas devem ser julgadas uma a uma, precisamente à luz desses princípios.

Meloni apresenta Francisco como alguém que obriga o governante a ultrapassar a busca da popularidade, recorda a destinação não absoluta dos bens, condena a violência, valoriza o diálogo com o inimigo e insiste na responsabilidade diante dos pobres e da criação. Esses princípios podem funcionar não apenas como legitimação de sua política, mas também como critérios para julgá-la.

Esse é talvez o ponto crítico mais produtivo: em vez de perguntar se: “Meloni é de direita, logo um católico pode ou não pode apoiá-la”, a pergunta propriamente católica seria:

Até que ponto as políticas concretas de Meloni correspondem aos princípios cristãos que ela própria invoca em seu discurso sobre São Francisco?

E exatamente a mesma pergunta deveria ser dirigida a um político de esquerda.

E o mesmo exame deve ser aplicado à esquerda. Uma proposta não se torna cristã simplesmente porque se apresenta como defesa dos pobres ou da justiça social, assim como outra não se torna cristã apenas porque defende a família, a ordem ou determinados valores morais.

A própria CNBB insiste que a Igreja não possui partido nem candidato oficial e que nenhum projeto político realiza plenamente o Evangelho. O discernimento cristão, portanto, não pode ser substituído por uma palavra de ordem eleitoral.

Bento XVI foi particularmente claro ao ensinar que a Igreja não pretende tomar para si a batalha política destinada a construir a sociedade mais justa possível. Essa tarefa pertence propriamente aos fiéis leigos, que devem agir segundo uma consciência formada pelos princípios cristãos.

Por isso, dizer que “católico não vota na direita” é tão doutrinariamente inadequado quanto afirmar que “católico não vota na esquerda”. Em ambos os casos, coloca-se uma classificação ideológica acima do discernimento moral cristão.

O católico não deve entregar sua consciência nem à direita nem à esquerda. Deve formá-la segundo o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja e, a partir deles, julgar criticamente ambas.

Quando alguém transforma uma opção política particular em requisito para ser um “verdadeiro católico”, corre o risco de inverter a ordem das coisas: em vez de submeter a política à fé, acaba submetendo a fé à política.

Meninos no Balanço Cândido Portinari

 

Portinari_modificado-237x300 Meninos no Balanço Cândido Portinari Meninos_Braz300dpi_finalpagina-300x230 Meninos no Balanço Cândido Portinari

Meninos no Balanço

Cândido Portinari

Meninos no Balanço

Releitura de Mateus Scriptore Braz

 

Há alguns anos, durante um fim de semana, visitei, em Brodowski, a casa de Cândido Portinari, lugar onde o artista viveu momentos preciosos ao lado de sua família. Um ambiente que faz sentir de perto as raízes que inspiraram uma das mais importantes trajetórias da arte moderna brasileira.

Minha companhia naquela ocasião foi minha irmã e minha querida mãe, que já se encontrava em estágio bastante avançado de um câncer de bexiga.

Após o almoço dominical na cidade de Ribeirão Preto, fomos passear em Brodowski, cidade onde Portinari viveu sua infância e juventude.

Eu tinha dois anjos que eram a minha maior preocupação e a de meus familiares. Minhas duas pequenas, naquela época, não nos acompanharam.

Mas foi no pequeno oratório de dona Pellegrina que a visita me alcançou por inteiro. A avó de Portinari já não podia caminhar até a igreja. Então o neto lhe trouxe a fé para dentro de casa. Nas paredes, santos com rostos de parentes e amigos pareciam guardar aquele silêncio antigo, compartilhado comigo, minha mãe e minha irmã.

Saber que, em 1941, ele se dispôs a criar aquele espaço com tanta abnegação demonstra o apreço e o afeto que tinha por sua família.

Pois bem, hoje fui pego de surpresa quando meu neto Mateus, filho do anjo mais velho que não me acompanhou na visita a Brodowski, pediu minha ajuda para fazer uma releitura sobre Cândido Portinari. Ele havia escolhido a pintura Meninos no Balanço. Sua releitura foi expressa por meio de sua aptidão gráfica, que está manifestada na imagem que acompanha este texto.

Mas o que ele não sabia — e fiz questão de lhe contar — é que a obra nos traz a interpretação de que, em Meninos no Balanço, as crianças parecem flutuar no espaço, como anjos no céu, transmitindo liberdade, alegria e o encanto da infância.

Então lhe deixei uma pergunta:

— Onde está apoiado o balanço?

Sem saber o que responder, olhando para a tela de Portinari, ele me respondeu:

— Está apoiado no céu, vovô.

E eu apenas completei:

— Isso mesmo, nas mãos do Criador.

Esse grande brasileiro, modernista, que nasceu em 1903 e morreu em 1962, vítima da intoxicação causada pelos metais pesados presentes nas tintas que utilizava em suas pinturas, dedicou grande parte de sua obra à infância, especialmente entre 1955 e 1960. Desse período destacam-se obras como Meninos com Carneiro, Meninos na Gangorra, Meninos no Balanço, Meninos Soltando Pipas e Meninos Brincando.

Não bastasse toda a emoção despertada por aquela releitura, ela me conduziu a uma reflexão inesperada. Ao olhar para Mateus diante da obra de Portinari, revi minha mãe, minha irmã e a mim mesmo, anos atrás, caminhando pelos cômodos daquela casa em Brodowski. Compreendi que o tempo, silenciosamente, havia transformado minhas duas pequenas figuras angelicais em mulheres bondosas e generosas, das quais me orgulho profundamente.

Hoje, são elas que sustentam muitos dos afetos que ajudamos a construir. E, como se a vida gostasse de redesenhar seus mais belos quadros, vieram depois Mateus, Luiza, Laura e Laís. Quatro novos anjos que iluminam o tempo que me resta, como crianças em um balanço suspenso pelas mãos invisíveis do amor, da memória e da graça de Deus.

Já não acompanho com a mesma destreza as brincadeiras da infância, mas ainda me deixo conduzir por elas. Em um abraço, em um carinho ou em um sorriso inesperado, encontro a beleza dos dias e a serenidade das horas derradeiras que ainda tenho o privilégio de viver.

 

A Revista do Brasil

Capa-Media-202x300 A Revista do Brasil

Venho de um grato colóquio com as cousas do nosso passado.
Na retina se me estampam ainda a alvura das capelinhas
montanhesas, entre o anil do céu e o verde das frondes,
o porte simbólico dos cruzeiros, a pedra corrida dos velhos
chafarizes, os muros negros, as arvores anciãs. Por algum
tempo, curto em dias, mas longo em meditação e saudade,
conversei as sombras dos nossos mortos nas ruínas das nossas
paisagens. E se ouso agora tomar da pena, é porque deles,
dos nossos mortos amados, ouvi uma longa queixa sentida
contra o desamparo em que os deixam os brasileiros de hoje.
É a voz das mortas gerações que fala por minha voz; a voz
dos homens que primeiro desbravaram o terreno nacional,
a dos que primeiro assentaram a pedra angular da nossa pátria.
Acorrei, filhos ingratos desta Terra: vinde ouvir a lamentação
das ruínas!

Alceu de Amoroso Lima

Pelo Passado Nacional

Revista do Brasil Volume III Ano I Número 9 página 1
Publicação Mensal de Ciências Letras, Artes História e Atualidades
Redação e Administração de uma Sociedade Anônima – outubro de 1918

Alguns de meus amigos exercem um poder extraordinário, embora eles próprios o ignorem. É o poder de despertar meus neurônios para o ofício da escrita. Posso afirmar que muitos dos meus trabalhos nascem justamente dos questionamentos e das dúvidas que eles lançam sobre o meu intelecto, como sementes silenciosas.

Há alguns dias, ao discorrer sobre a longevidade da Revista da Biblioteca Mário de Andrade, originalmente conhecida como Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal de São Paulo, fui levado, quase sem perceber, a revisitar antigos manuscritos. Esse gesto me fez mergulhar em meu próprio universo histórico, especialmente aquele ligado à cidade de Campinas. Ali, entre papéis esquecidos e memórias adormecidas, repousava, discreta e silenciosa, a Revista do Brasil, aguardando o momento de novamente ser lida e lembrada.

O leitor talvez se pergunte o que a Revista do Brasil tem a ver com a cidade de Campinas, com a Revista da Biblioteca Mário de Andrade ou mesmo com esses amigos que atravessam silenciosamente estas linhas. Confesso que talvez não consiga responder a todos esses questionamentos de modo plenamente satisfatório. Ainda assim, apresento duas razões que servem como justificativa para o percurso que ora empreendo.

A primeira diz respeito à origem da Revista do Brasil, idealizada pelo jornalista, político, advogado e empresário Júlio César Ferreira de Mesquita. Campineiro de nascimento e, paradoxalmente, pouco reconhecido por sua própria cidade, Júlio de Mesquita foi amplamente cultuado no estado de São Paulo e no Brasil. Não raras vezes, contudo, seu nome e seus feitos foram confundidos ou atribuídos de forma equivocada ao de seu filho, Júlio de Mesquita Filho, como se a memória coletiva insistisse em deslocar o mérito de seu ponto inaugural.

Quando escrevi o livro Freguesia, Vila e Cidade de uma Campinas Velha, deparei-me com um enorme desafio para encontrar dados e referências relativos ao Coronel Joaquim Quirino dos Santos. Diante da grande escassez de fontes, só consegui escrever o capítulo 11 com o auxílio do magnífico artigo publicado na Revista do Centro de Ciências e Letras, número 54, de 30 de setembro de 1916, que reproduzira o texto de Júlio de Mesquita escrito em 16 de março de 1899.

Não hesitei, portanto, em intitular esse capítulo O Coronel Quirino dos Santos e Júlio de Mesquita, pois foi justamente nesse percurso de pesquisa que se revelou um aspecto até então pouco conhecido: a sólida relação de amizade que unia Júlio de Mesquita a Leopoldo Amaral, elo significativo para a compreensão das redes intelectuais e afetivas da Campinas daquele tempo.

A segunda razão repousa no tempo, elemento que, mais do que registrar datas, molda permanências e esquecimentos. A Revista do Brasil circulou inicialmente entre 1916 e 1918 como iniciativa de uma sociedade anônima. De maio de 1918 a 1925, passou a constituir-se como empresa adquirida por Monteiro Lobato, período em que acolheu colaborações de nomes centrais do modernismo brasileiro, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade.

Em setembro de 1925, a revista passou às mãos de Assis Chateaubriand, que transferiu sua publicação para o Rio de Janeiro, onde circulou até janeiro de 1927. Relançada em 1938, novamente sob a direção de Chateaubriand, manteve-se ativa até 1943. No ano seguinte, alguns poucos números ainda vieram à luz sob a direção de Frederico Chateaubriand, tendo Millôr Fernandes na secretaria, como um último sopro editorial.

Após um silêncio de quatro décadas, a Revista do Brasil ressurgiu por iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e da RIOARTE, que publicaram doze números entre 1984 e 1990, gesto tardio, mas significativo, de reafirmação de sua permanência na memória cultural brasileira.

A Revista do Brasil nasceu em 25 de janeiro de 1916, data emblemática por homenagear o aniversário da cidade de São Paulo, muito antes do surgimento do Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal de São Paulo, lançado em 1943, publicação que mais tarde se transformaria na Revista da Biblioteca Mário de Andrade. Este último periódico habita a biblioteca de um amigo querido, cuja bagagem cultural e influência na cidade de Campinas são tamanhas que, por respeito e afabilidade, prefiro não evocar diretamente seu nome neste artigo. Assim, ele permanece presente apenas como uma sombra benigna, dessas que acompanham a memória sem jamais se impor.

São inúmeros os trabalhos que se dedicam à história da cultura brasileira e, inevitavelmente, ao papel cultural e literário da Revista do Brasil, publicação que traz em seu bojo um conteúdo excepcional, atravessado por reflexões sobre política, filosofia, história, religião e direito. Trata-se de um periódico mensal que, em sua fase inicial, procurou retratar o panorama de um Brasil imerso em um clima pré-moderno, tal como se apresentava à sociedade de então.

Em meados de 1915, quando o mundo já se encontrava imerso na Primeira Guerra Mundial, Júlio de Mesquita, vereador em Campinas no ano de 1887, deputado federal por São Paulo em 1892, deputado estadual nos anos de 1891, 1894, 1898, 1907 e 1910, e senador por São Paulo em 1912, passa a organizar um novo periódico, inicialmente concebido para se intitular Cultura.

Aos 54 anos, Júlio de Mesquita já havia experimentado não poucos dissabores com a chamada Velha República, regime que ajudara a construir ao lado de figuras como Campos Salles, Bento Quirino dos Santos, Francisco Glicério, Rangel Pestana, entre tantos outros. Ainda assim, não perdera a fleuma nem o espírito de liberal constitucional, profundamente comprometido com a liberdade de imprensa. É nesse contexto que decide convocar, em seu escritório no jornal O Estado de São Paulo, dois colaboradores de confiança, aos quais atribui a missão de fundar a revista: Luís Pereira Barreto, seu advogado, e José Martins Pinheiro Júnior, secretário, advogado e jornalista.

Coube a Luís Pereira Barreto a tarefa de recrutar os colaboradores do novo periódico, tarefa que resultou na reunião de algumas das mentes mais expressivas da intelectualidade brasileira daquele momento. Entre elas figuravam Olavo Bilac, Graça Aranha, Alcides Maya, Alfredo Valadão, João Kopke, Félix Pacheco, José Veríssimo, Nestor Victor, Roquette-Pinto, Oliveira Vianna, João Ribeiro, Assis Brasil, Oliveira Lima, Sílvio de Almeida, Basílio de Magalhães, Valdomiro Silveira, Medeiros e Albuquerque, Alceu Amoroso Lima, entre muitos outros que a memória talvez não consiga aqui abarcar por completo.

A José Martins Pinheiro Júnior coube a árdua missão de angariar acionistas para a revista. Uma tarefa especialmente difícil diante do cenário econômico adverso e do clima de instabilidade imposto pela guerra que assolava o mundo. Quando, finalmente, a primeira edição veio a público, em 25 de janeiro de 1916, nela foram nomeados os acionistas: médicos, engenheiros, professores, advogados, políticos e até jornalistas.

Entre eles figurava o filho de Júlio de Mesquita, então estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que, no futuro, emprestaria seu nome a uma das maiores universidades públicas do Brasil: a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, hoje amplamente conhecida como Unesp.

Imprescindível dizer que a Primeira Guerra Mundial acendeu o estopim nacionalista de defesa da Pátria e que, já em 1915, o poeta Olavo Bilac desencadeara uma acirrada campanha em favor do serviço militar obrigatório, concebido não apenas como instrumento de proteção nacional, mas, sobretudo, como escola de civismo e formação moral da juventude brasileira.

Diante desse contexto e, provavelmente, sob o contágio da atmosfera nacionalista, decidiu-se abandonar o primitivo nome Cultura e adotar o título Revista do Brasil.

No primeiro número da revista, seus objetivos são delineados de forma clara:

“ O que há por traz do título desta Revista e dos nomes que a patrocinam é uma coisa simples e imensa: o desejo, a deliberação, a vontade firme de constituir um núcleo de propaganda nacionalista. Ainda não somos uma nação que se conheça, que se estime, que se baste, ou, com mais acerto, somos uma nação que ainda não teve o ânimo de romper sozinha para a frente numa projeção vigorosa e fulgurante da sua personalidade. Vivemos desde que existimos como nação, quer no Império quer na República, sob a tutela direta ou indireta, senão política ao menos moral do estrangeiro. Pensamos pela cabeça do estrangeiro, vestimo-nos pelo alfaiate estrangeiro, comemos pela cozinha estrangeira e, para coroar essa obra de servilismo coletivo, calamos, em nossa, pátria, muitas vezes, dentro dos nossos lares, a língua materna para falar a língua do estrangeiro.

Revista do Brasil Volume I Ano I Número 1 página 2
Publicação de Mensal Ciências Letras, Artes História e Atualidades
Redação e Administração de uma Sociedade Anônima – janeiro de 1916

O grupo fundador da revista, composto por mais de cinquenta sócios, foi relacionado no primeiro número da publicação e manteve-se assim até maio de 1918, quando a sociedade se desfez diante de uma proposta de compra apresentada por Monteiro Lobato, que então se tornou o proprietário único da revista.

Hoje, ao presenciar as inúmeras discussões em torno de temas ainda tão polêmicos, como a escola cívico-militar, o serviço militar obrigatório, os direitos e as ameaças ao exercício da soberania nacional, o direito ao voto, a moralização da política, a língua e a cultura próprias, torna-se de importância quase obrigatória conhecer um pouco do que fomos culturalmente e do que desejamos ser, no futuro, enquanto nação.

Deixo, assim, um convite aos amigos que, no século XXI, navegam com senso crítico apurado pelo universo cultural e literário: que se aventurem pelas dezenas de volumes da Revista do Brasil, compostos por quatro ou cinco números, com média de noventa e cinco páginas cada, para reencontrar uma época que ajudou a construir, no plano intelectual, a identidade de um país e de uma nação hoje quase esquecidos pelas novas gerações.