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Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra, o Barão de Jaguara

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Qualquer transeunte que se aventurar a conhecer a cidade de Campinas, inevitavelmente passará pela antiga Rua de Cima, também conhecida como Rua Direita, que hoje leva o nome de Rua Barão de Jaguara. Esta rua recebeu a denominação de Rua de Cima por estar situada no ponto mais alto da topografia do bairro Nossa Senhora da Conceição do Mato Grosso. Tropeiros e viajantes que chegavam ao bairro encontravam, no ponto mais baixo, uma segunda trilha denominada Rua de Baixo, hoje conhecida como Rua Lusitana.

A Rua de Cima foi assim chamada até o ano de 1848, quando passou a se chamar Rua Direita. Na sessão da Câmara Municipal de Campinas, em 1º de julho de 1889, por proposição dos vereadores doutor Ricardo Gumbleton Daunt, Otto Langaard e José de França Camargo, seu nome foi alterado para Rua do Barão de Jaguara. O intuito era homenagear em vida Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra, que em 20 de junho de 1888 havia recebido o título de Barão de Jaguara.

Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra era filho de Delfino de Ulhôa Cintra e Dona Antonia Benedita Dias da Silva. Nasceu em 12 de junho de 1837 e foi batizado em 23 de junho de 1837 na paróquia de Santa Ifigênia, em São Paulo, capital. O registro consta no Livro 3, folhas 112, frente e verso.

Seu pai, Delfino de Ulhôa Cintra, foi um político influente, atuando como deputado por São Paulo em diversas legislaturas. Além disso, ocupou cargos importantes, como vice-presidente, secretário e membro de comissões da Fazenda e Estatísticas.

No ano de 1855, durante o segundo ano da faculdade de medicina no Rio de Janeiro, Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra já trabalhava na enfermaria da Rua da Imperatriz, 133. Em 1857, realizou os exames do quarto ano e foi aprovado, sendo nomeado Praticante de Cirurgia nas repartições do Exército Imperial.

Em 1858, por decreto imperial de 28 de agosto, foi nomeado Oficial de Secretaria da Tesouraria de Minas Gerais. Após ser aprovado no sexto ano da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 8 de novembro de 1859, começou a clinicar no Hospital da Misericórdia, no Rio de Janeiro. Em 1860, teve uma passagem pelo exército, obtendo a patente de tenente-coronel como membro do Corpo de Arsenal de Guerra do Exército.

Em 1860, Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra casou-se com Adelina Torquato Marques de Oliveira, que passou a assinar posteriormente ao casamento como Adelina Henriqueta Cintra, adicionando ao seu nome o segundo nome de sua mãe. Adelina faleceu em 15 de agosto de 1880, em Mogi Mirim, de onde era natural, deixando uma grande prole de filhos.

De 1859 a 1861, Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra foi registrado como membro efetivo do Instituto Médico Brasileiro, que tinha como presidente o eminente Adolpho de Bezerra de Menezes Cavalcanti, que posteriormente se tornaria uma figura destacada do Espiritismo no Brasil.

Em 1861, Antonio estabeleceu uma clínica médica na cidade de São Paulo, inicialmente na Rua do Sabão, 139, e depois na Rua das Violas, 23, onde permaneceu até 1863. Em 1864, o Correio Paulistano narra sua chegada em Mogi Mirim, vindo de uma fazenda a sete léguas (aproximadamente 42 a 43 quilômetros), onde sua família se encontrava, para atender pessoas doentes na cidade.

Em 1865, Antonio formou um partido em Mogi Mirim e continuou a atender às necessidades médicas da cidade.

Em 1868, Antonio participou do grupo que iniciou contribuições para o prolongamento da Companhia Paulista de Estradas de Ferro para o ramal de Araraquara, Limeira, Capivari e Mogi Mirim, o que me leva a acreditar que sua fazenda ficava nas imediações de Limeira ou Jaguariúna.

Neste mesmo ano, foi nomeado Inspetor de Instrução Pública em Mogi Mirim e assumiu o cargo de Comissário Vacinador na cidade, do qual pediu exoneração em 1869.

Nas eleições para deputado provincial de 1869, apresentou-se como candidato do Partido Conservador pelo 3º distrito. Em 31 de janeiro de 1870, foi diplomado como Deputado Provincial pelo 3º distrito, na 18ª Legislatura (1870–1871), seguindo os passos de seu pai na política.

De 1871 até 1874, empenhou-se na construção da Estrada de Ferro Mogiana, que partia de Campinas com linha final em Mogi Mirim, e tinha um ramal até Amparo. Seus companheiros nessa jornada foram os conservadores Antonio de Queiroz Telles, Joaquim Egydio de Souza Aranha, José Egydio de Souza Aranha, Joaquim Quirino dos Santos e o comendador Zeferino da Costa Guimarães.

Em 1871, juntamente com seu amigo Antonio Gomes Guacury, Antonio dirigiu o hospital “Casa de Saúde Santo Antonio” em Mogi Mirim, que oferecia tratamento de baixo custo para escravos, colonos das fazendas e o público em geral. Em 2 de maio de 1872, anunciou que o hospital estaria sob sua direção exclusiva a partir dessa data.

Em 15 de dezembro de 1874, seu irmão, Delfino Pinheiro de Ulhôa Cintra Júnior, casou-se em Campinas com Angélica Machado Florence, filha de Hercules Florence. As testemunhas do casamento foram Hercule Florence e Antonio. Seu irmão seguiu os passos do pai na política, atuando como deputado conservador em diversas legislaturas, assim como Antonio.

Em 8 de agosto de 1876, faleceu seu sogro, Luiz Torquato Marques de Oliveira, proprietário da Fazenda Sete Lagoas, nas imediações de Mogi Mirim, hoje uma fazenda da Suco Cítrico Cutrale.

No final de 1876, em 17 de dezembro, Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra foi homenageado por seus amigos, que ao meio-dia foram recebidos em sua residência com uma banda de música. Em seguida, partiram para a estação de Mogi Mirim, onde seu retrato foi colocado na sala ao lado dos quadros dos presidentes da Companhia e do retrato de João Teodoro.

Perdeu sua esposa, Dona Adelina Pinheiro de Ulhôa Cintra, em 15 de agosto de 1876.

Em 1881, juntamente com seus pares José Guedes de Souza e doutor João Gabriel de Moraes Navarro, Antonio realizou algumas articulações para sua volta à Assembleia Legislativa, da qual havia se afastado em 1879, sem obter sucesso.

Casou-se em segundas núpcias no final de 1881 com Dona Antonia da Rocha Cintra. Dos dois matrimônios, teve uma grande prole, e seus biógrafos contam que ele teve entre 18 e 20 filhos.

Em 26 de outubro de 1886, Dom Pedro II e sua comitiva chegaram a Mogi Mirim, onde foram recebidos e hospedados por José Guedes de Souza. Alguns membros da comitiva foram hospedados por Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra.

Em 7 de maio de 1887, por graça do Imperador Dom Pedro II, Antonio recebeu a comenda da Ordem da Rosa. Em 14 de julho de 1887, foi nomeado 5º vice-presidente da Província de São Paulo.

Em 20 de junho de 1888, recebeu o título de Barão de Jaguara, na mesma época em que João de Ataliba Nogueira recebeu o título de Barão de Ataliba Nogueira.

Em 6 de abril de 1889, foi nomeado e assumiu a administração de São Paulo como o 52º Presidente da Província em 11 de abril. Durante seu governo, dedicou toda a sua atenção à epidemia de febre amarela que assolava vários pontos da província.

Em 30 de abril de 1889, a Câmara Municipal de Campinas enviou uma representação à presidência da Província, solicitando a convocação de uma sessão extraordinária da Assembleia Legislativa. Campinas necessitava urgentemente de um serviço completo de águas e esgotos para a municipalidade, e para isso requeria recursos orçamentários para canalizar águas e esgotos em curto espaço de tempo. A representação foi assinada pelos vereadores José Paulino Nogueira, Otto Langaard, Antonio Álvaro de Souza Camargo, Júlio de Mesquita, José de França Camargo e doutor Ricardo Gumbleton Daunt.

Diante da solicitação, o Presidente da Província convocou rapidamente a sessão extraordinária da Assembleia Legislativa, que expediu uma lei com o seguinte teor:

  • Autoriza empréstimos à Câmara Municipal de Campinas.
  • A Câmara Municipal de Campinas deveria pagar os empréstimos em parcelas semestrais com juros de 6% ao ano, em dois anos.
  • Autoriza a Câmara Municipal a criar um imposto predial para pagar os empréstimos.
  • Garante que a execução e fiscalização do serviço de águas e esgotos ficassem a cargo do Governo Provincial.

Imediatamente, o Barão de Jaguara decretou a resolução de um imposto de 9% sobre o valor dos imóveis, a partir de 1889-1890. De imediato, o Barão se prontificou e visitou pessoalmente as condições de Campinas e a miserável situação em que se encontrava. Entre as principais medidas, recomendou o uso de água fervida e a obtenção de água dos mananciais próximos da estação de Valinhos, incumbência que foi assumida por Walter John Hammond, engenheiro da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, sem custos para os cofres públicos.

Ele propôs ao governo imperial um serviço de desinfecção e limpeza das fossas e poços e solicitou a presença de seis médicos e oito internos, além dos que já estavam trabalhando na cidade no atendimento aos pacientes. O governo geral enviou os doutores Luiz Manoel Pinto Netto e Francisco Correa Dutra, o farmacêutico Joaquim Torquato Soares da Câmara, os estudantes do curso médico Alberto de Castro Menezes e Victor Pacheco Leão, e os enfermeiros João Francisco de Mello e Silva, Gregório Joaquim Leite e José da Costa Cordeiro para auxiliar o Doutor José Maria Teixeira, nomeado durante a administração de seu sucessor.

Mesmo diante dessas medidas, a epidemia continuava a vitimar a população, conforme descrito pelo Barão:

“Em Campinas, porém não tendo cedido a epidemia, continuando antes a vitimar de um  modo pavoroso a população, então muito reduzida pela retirada em massa de grande número de pessoas para as localidades vizinhas, resolvi nomear uma Comissão Médica de Socorros, composta -do doutor Francisco Marques de Araújo Góes como presidente e dos doutores Claro Homem de Mello, Jeronymo de Conto, Aristides Franco Meireles, Irineu de Britto e Philippe Jardim, como auxiliares, afim de proceder a um serviço completo de desinfecção, tanto nas habitações como nos hospitais e bem assim para tomar quaisquer, providências que julgasse acertadas para combater o mórbo epidêmico.”

A Comissão Médica, presidida pelo Doutor Araújo Góes, visitou em apenas 7 dias um total de 1308 casas, mostrando uma média de 187 casas desinfetadas diariamente.

A passagem do Barão de Jaguara pela Presidência da Província foi breve, mas sua eficiência e comprometimento como político competente e patriota devotado conquistaram a confiança do público e dos moradores. A rua Direita já era chamada de rua do Barão, mesmo sem ter sido oficialmente homologada pela Câmara Municipal.

Quando deixou a presidência da Província em 10 de junho de 1889, recolheu-se ao lar, mas sem abandonar sua vida pública. Ele foi eleito vice-presidente da Companhia Paulista de Vias Férreas e Fluviais, vice-presidente do Banco Provincial de São Paulo (também conhecido como Banco dos Lavradores), fundador da Companhia Oeste Agrícola, presidente do Congresso Médico-Cirúrgico de São Paulo e membro da mesa da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

No ano de 1891, foi eleito senador pelo Partido Republicano Paulista, com 25.468 votos, nas eleições de 30 de abril, para representar São Paulo no Senado. Mantendo uma postura conservadora, defendia o discurso: “Podemos ser tão bons conservadores na República como fomos na Monarquia”.

Por conta de várias enfermidades, ausentou-se frequentemente do Senado e da capital, buscando refúgio em sua fazenda em Mogi Mirim ou em São Paulo. Faleceu em 14 de agosto de 1895, sendo seu féretro realizado no dia seguinte, 15 de agosto, às 10:00 da manhã.

Encerro a vida pública deste valoroso Paulista com uma tabela de suas conquistas políticas, de seu irmão e de seu pai.

Familia-Ulhoa-Cintra Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra, o Barão de Jaguara

O Combate da Venda Grande

 

1-19375-0000-0000-01-2 O Combate da Venda Grande

Óleo sobre Tela 65,6 x 100×74,6  Autoria atribuída a Henrique Manzo e disponível no Museu Paulista sobre o código 1-19375-0000-0000-01 Negativos em Papel e Cópias Contato de originais pertencentes aos descendentes de Hercules Florence e a Biblioteca Nacional

Discurso proferido no dia 7 de junho de 2024 em Homenagem ao Combate da Venda Grande

Digníssimo Presidente do Centro de Ciências Letras e Artes, Diretoria, Conselho, Autoridades Militares e Civis, convidados, senhoras e senhores presentes, neste momento em que rememoramos o passado de nossa cidade, revivendo o episódio cívico de amor à pátria e do valoroso espírito paulista e brasileiro, encarnado na memória histórica das instituições, como o Exército Brasileiro, a Polícia Militar, o Centro de Ciências Letras e Artes, e tantas outras, elevamos nossos pensamentos e revivemos nossos heróis, dignos guerreiros defensores de nossa liberdade e de valores cívicos inegociáveis na construção da sociedade.

Estas instituições e seus membros representam um legado de dedicação e sacrifício, firmando-se como pilares na defesa dos direitos e na promoção da paz e do progresso. Ao evocarmos estas memórias, reafirmamos nosso compromisso com os princípios de justiça, honra e patriotismo que sustentam nossa identidade coletiva. Que possamos, inspirados por esses exemplos de bravura e integridade, continuar a construir uma sociedade mais justa e solidária, honrando o legado de nossos antecessores e assegurando um futuro digno para as próximas gerações.

Sim, nossos heróis paulistas, de cerviz altiva, espíritos que dobram, mas não quebram, tomam forma em nossas mentes e corações, inspirando-nos em exemplos, modelando atitudes a serem seguidas. Assim como hoje, no século quinto antes de Cristo, Tucídides, ao narrar a História da Guerra do Peloponeso, guerra entre Esparta e Atenas, registra uma cerimônia cujo rito era homenagear os soldados gregos.

A  cerimônia grega apresentava o seguinte ritual:

• Os ossos e os restos do que sobravam dos soldados mortos eram expostos em um tablado, sob um toldo, por três dias;
• Os habitantes gregos traziam para os seus mortos as oferendas desejadas.
• No dia do funeral, ataúdes de cipreste eram trazidos em carretas e distribuídos um para cada tribo familiar que receberiam os ossos e restos dos soldados que fossem identificados.
• Um ataúde vazio recebia os ossos dos cadáveres que não foram identificados ou encontrados para o sepultamento.
• Por fim, todos os ataúdes eram depositados em um mausoléu oficial, escolhido para ficar no mais belo local do subúrbio da cidade.
• Os mortos em combate por seus méritos excepcionais, eram enterrados no próprio local da batalha.

Empresto as palavras de Tucídides, para honrar os mortos em batalha com uma oração fúnebre, que caberia perfeitamente em nossas homenagens de hoje:

“Falarei primeiro de nossos antepassados, pois é justo e ao mesmo tempo conveniente, numa ocasião como esta, dar-lhes este lugar de honra rememorando os seus feitos. Na verdade, perpetuando-se em nossa terra através de gerações sucessivas, eles, por seus méritos, transmitiram estes feitos de forma livre até hoje. Se eles são dignos de elogios, nossos pais o são ainda mais, pois aumentando a herança recebida, constituíram a história e a sociedade que agora possuímos, e, a duras penas nos deixaram este legado, a nós que estamos aqui e para as gerações futuras”

Assim como os antigos gregos homenageavam seus heróis com ritos solenes, nós também devemos perpetuar a memória dos nossos valorosos combatentes, revivendo suas histórias e mantendo viva a chama de seus ideais.

A Revolta Liberal de 1842 foi um movimento de resistência contra o centralismo do governo imperial, refletindo o espírito indomável e a busca pela autonomia que caracterizava os paulistas e outros brasileiros envolvidos na causa. No Combate da Venda Grande, as forças liberais enfrentaram bravamente as tropas do governo, demonstrando coragem e determinação em defesa dos ideais de liberdade e justiça.

O Combate da Venda Grande é precioso para nossa cidade e para nossa história. Devemos contá-lo, sempre que possível, para nossos filhos e netos. É uma das batalhas da Revolta Liberal de 1842, e deve ser lembrada como uma intentona capitaneada pelo Conselho da Sociedade dos Patriarcas Invisíveis, que tinha como líderes o padre Diogo Antônio Feijó, Raphael Tobias de Aguiar, Teófilo Ottoni, José Feliciano Pinto Coelho, o padre casado José Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, o padre José Bento Leite Ferreira de Mello, padre José Custódio Dias, Antônio Paulino Limpo de Abreu e outros que buscavam instaurar um governo mais representativo e menos autoritário. O confronto representou um dos muitos esforços para resistir às políticas centralizadoras e lutar por um Brasil mais justo e democrático.

A Sociedade dos Patriarcas Invisíveis, com sede no Rio de Janeiro era composta por figuras proeminentes e influentes, que acreditavam firmemente na necessidade de uma maior autonomia provincial e na manutenção dos valores constitucionais. Este grupo estava insatisfeito com as medidas centralizadoras da regência de Pedro Araújo Lima, o marquês de Olinda.

No sul do Brasil, desde 1835, a Revolta Farroupilha desafiava o governo imperial, que não conseguia encontrar medidas repressivas suficientes para abafar o conflito.

O regente equilibrava-se na condução do Império, defendendo o Imperador e a Constituição. Tanto o regente quanto a Sociedade dos Patriarcas Invisíveis tinham os mesmos propósitos, mas procediam de modos distintos.

Pressionados pelos liberais e pelo povo, o senado de maioria conservadora, na sessão da assembleia do dia 23 de julho de 1840, sob a presidência do “Marquês de Paranaguá” e com a presença de Sua Majestade o Imperador,  33 senadores e 84 deputados escutam a o juramento de Dom Pedro II que aos 14 anos é declarado apto a subir ao torno declaração da maioridade aos 14 anos

Um ano depois, em uma segunda-feira, no dia 18 de julho de 1841, Pedro II foi sagrado Imperador do Brasil e os festejos foram até o dia 24 de julho de 1841 quando foi realizado baile de gala no paço da Boa Vista com muito glamour.

Em primeiro de maio de 1842, devido às irregularidades nas eleições provinciais, Dom Pedro II dissolveu a Câmara dos Deputados. No dia 4 de maio, ele expediu o decreto número 157, que estabelecia as instruções e procedimentos para a realização de novas eleições provinciais. Diversos historiadores consideram essas ações do governo imperial como fatores fundamentais para desencadear a Revolução Liberal de 1842.

Os liberais, exasperados, decidiram destituir o Presidente da Província, o Barão de Monte Alegre, José da Costa Carvalho, e, simultaneamente, nomear Raphael Tobias de Aguiar como o novo presidente da Província.

Em 13 de maio de 1842, José da Costa Carvalho, Barão de Monte Alegre e presidente da Província de São Paulo, reportou ao ministro da guerra, José Clemente Pereira, os temores manifestados na capital e no interior de São Paulo.

“Os habitantes desta cidade, São Paulo Capital, têm sofrido graves temores pelo que observam na cabeça da oposição; eu, porém, não receio pela segurança da capital; existe no quartel uma guarnição de 300 homens, e, que passo a expedir ordens para que sejam elevados já, a 600; mas esta medida não pode ser realizada sem alguma demora. Para conter, pois, a cidade de Sorocaba e outros lugares que pretendam imitá-la, é indispensável que Vossa Excelência faça marchar para Santos, a maior força disponível de que seja possível lançar mão”.

Às dez horas do dia 17 de maio de 1842, na Câmara de Sorocaba, liberais aquartelados, povo, tropa da Guarda Nacional, políticos, autoridades civis e militares declararam Raphael Tobias de Aguiar como Presidente da Província de São Paulo. A justificativa foi que o imperador Dom Pedro II estava sob coação, dominado por uma associação facciosa.

No dia 18 de maio, às oito horas da manhã, quatro barcas a vapor – “A Especuladora”, “Paquete do Sul”, “Pernambucana” e “São Sebastião” – zarparam do porto do Rio de Janeiro com mais de 700 praças do 12º batalhão de caçadores, com destino a Santos.

No dia 19 de maio, mais 400 praças do batalhão dos fuzileiros seguiram pela estrada de Santa Cruz e embarcariam no vapor “Todos os Santos”, juntamente com o comandante em chefe do Exército, General Luiz Alves de Lima e Silva, na época, o barão de Caxias.

Caxias não precisou vir a Campinas; enviou o Coronel Amorim Bezerra com 3 cadetes do 12º batalhão para instruir os improvisados soldados conservadores. Uma força de soldados militarmente preparados, conhecidos como Guarda Municipal Permanente, chegou em Campinas vinda de São Paulo no dia 6 de junho de 1842, liderados pelo Capitão Pedro Alves de Siqueira.

Os soldados da guarda pessoal do Padre João José Vieira Ramalho, fundador da cidade de São João do Jaguary (hoje São João da Boa Vista), juntaram-se à Guarda Municipal Permanente. O padre Ramalho possuía uma milícia particular para defender seus interesses e sua fazenda, a Boa Vista.

A força local da cidade de Campinas, composta por soldados da Guarda Nacional, liderados pelo Coronel José Franco de Andrade e pelo Major Joaquim Quirino dos Santos, além de soldados sob o comando do Coronel Antônio de Queiróz Teles, Barão de Jundiaí, se uniriam aos combatentes do lado do Império.

No dia 7 de junho, o coronel Amorim Bezerra liderou 120 homens de cavalaria e infantaria em direção à fazenda da Lagoa, no Engenho da Lagoa ou Venda-Grande, exatamente aqui onde estamos. Este sítio, conhecido como “Venda Grande”, era uma parada comum para os viajantes que seguiam em direção à cidade de Limeira.

Olhando ao redor, deste ponto até onde nossa vista alcança, estavam reunidos não mais do que 300 ou 350 rebeldes, portando armas de caça, armamentos de pequeno calibre e até mesmo algumas de fabricação própria.

Os rebeldes eram fazendeiros, gente comum, alguns até participantes da Guarda Nacional, com laços familiares e de amizade com os liberais que elegeram Raphael Tobias de Aguiar, Presidente da Província de São Paulo, liderados e aconselhados pelo padre Diogo Antônio Feijó, o paulistano campineiro.

Em 31 de maio de 1842, uma carta de Tristão de Abreu Rangel, comandante em chefe das forças de Itu, para Raphael Tobias de Aguiar, traz a informação de que reforços liderados pelo capitão Boaventura do Amaral seguiriam de Itu para Campinas o mais breve possível; dizia a carta:

“O Boaventura os levará, porém, ele deve voltar, porque é o Único Oficial que temos de confiança”.

Em uma carta datada de 6 de junho de 1842, Tristão de Abreu Rangel confirma o envio de armamentos, escrevendo para Tobias de Aguiar:

“Para Campinas marcharam 130 praças de linha, 30 bestas carregadas com armamento, e uma peça…”.

Possivelmente tal peça, um canhão de artilharia, seria a mesma que ficou estacionada na Venda Grande e que nunca foi usada, por falta de preparo dos revoltosos, ou mesmo por estar inutilizada e que ainda assim foi enviada aos rebeldes de Campinas.

Depois do conflito, o sogro do primeiro casamento de Hercule Florence, o doutor Francisco Álvares Machado, comentava em sua família sobre a falta de estratégia, organização e preparo do exército de Raphael Tobias de Aguiar, comandado pelo Major Francisco Galvão de Barros França. Ele observou que o Major Galvão não percebeu que concentrar suas forças na defesa da estrada da Serra de Santos seria fundamental para proteger a capital e o interior da Província. Acreditava-se que essa estratégia tornaria quase impossível o avanço das tropas de Caxias. No entanto, para ter sucesso na defesa da estrada de Santos, construída com grande dificuldade por Aguiar, era necessário manter certo sigilo entre os revoltosos, o que não ocorreu.

O doutor Francisco Álvares Machado fechava o seu comentário dizendo:

“…, mas, meu amigo, em vez disto, onde foram proclamar a revolução, no entusiasmo generoso, porém irrefletido de um banquete.”

O despreparo dos revoltosos era tão evidente que soldados, equipamentos e armamentos podiam se deslocar entre Sorocaba e Campinas sem encontrar qualquer obstáculo. Mais de 200 praças e armamentos passaram por ali sem restrições logísticas, o que mais tarde contribuiu para a derrota no Combate da Venda Grande, liderado pelo exército do Barão de Monte Alegre.

Amador Bueno Machado Florence, então com 11 anos, acompanhou seu tio Matheus Álvares Bueno e relatou em um artigo na Gazeta de Campinas a jornada da família de Hercule Florence em direção a Sorocaba.

A comitiva da família Machado Florence encontrou-se com Antônio Manuel Teixeira, um dos líderes dos liberais, no caminho de Itu, especificamente no Salto de Itu. Uma milícia de paulistas revolucionários aguardava outros soldados de Sorocaba e Itu, que se dirigiam a Campinas e parariam aqui, no Engenho da Lagoa, nesta parte da antiga fazenda da Lagoa, chamada de “Venda Grande”.

Os rebeldes também aguardavam as tropas de Limeira, comandadas por Reginaldo de Moraes Salles, pai do doutor Antônio Carlos de Moraes Salles. Antônio Manuel Teixeira, Francisco Teixeira Nogueira, Luciano Teixeira Nogueira e Ângelo Custódio Teixeira Nogueira eram líderes naturais dos liberais em Campinas, todos descendentes do capitão Joaquim José Teixeira Nogueira, sendo sobrinho e irmãos do major Luciano Teixeira Nogueira, respectivamente.

Um fato curioso ocorreu na fazenda do major Luciano Teixeira Nogueira durante a Revolta. O único prisioneiro de guerra feito pelos rebeldes foi José Manoel de Castro, um jovem oficial que servia em Campinas e se tornaria um fazendeiro influente na região. Ele foi detido quando, inadvertidamente, visitou a fazenda do major. Levado para Sorocaba junto com a comitiva que conduzia o Padre Feijó, lá assumiu a função de impressor e tipógrafo do jornal “O Paulista”, editado por Hercule Florence. Desenvolveu uma grande amizade com Florence e ambos fugiram juntos durante a repressão final da Revolta, montados em um único animal, em direção a Porto Feliz. Ao retornarem para Campinas, foram anistiados.

Não há números exatos sobre os rebeldes, mas considerando as informações anteriores, estima-se que entre 300 e 350 soldados estavam acampados aqui, no Engenho da Lagoa ou Venda Grande.

Os corajosos paulistas acampados na Venda Grande não estavam totalmente preparados para enfrentar as forças de Caxias, mas possuíam uma força moral, idealista e libertária. Seu empenho e disposição poderiam ceifar vidas, mas também salvar muitos diante da força organizada e disciplinada dos soldados bem armados e eficientes na arte da guerra.

Doutor Ricardo, 38 anos após o evento, em sua obra “Reminiscências de Campinas”, faz uma exposição sucinta do combate, mas descreve com precisão o embate nos seguintes termos:

“Resolvendo os chefes do movimento em Campinas medir suas forças com as do governo, foram reunindo seu povo no sítio conhecido pelo nome de Venda Grande, na estrada de Limeira distante cerca de uma e meia légua de Campinas. Ali as tropas do governo prontamente assaltaram sem deixar-lhes o tempo preciso de se organizar, de modo que a vitória foi fácil e inglória…”

Nas edições de junho e julho de 1882 da Gazeta de Campinas, Amador Bueno Machado Florence, filho de Hercule Florence, descreve o combate com mais detalhes. Amador, então com 11 anos de idade, rememora diálogos de seu tio com os combatentes da Venda Grande, nos seguintes termos:

“Fomos surpreendidos sem que tivessem chegado Reginaldo com os de Limeira. Esperávamos descansados e alguns mesmo com profundo sono no velho sobrado e dependências, quando assomou no alto do pasto, em nossa frente a cavalaria inimiga, contra a qual logo que pudemos apontar as duas pecinhas de difícil manobra nos carretões de arrastar madeira…”

Reginaldo de Moraes Salles, pai do doutor Antônio Carlos de Moraes Salles, deveria chegar de Limeira com mais homens para se juntar ao grupo de combatentes, que não esperava o ataque do Coronel Amorim Bezerra.

A estratégia do comandante da força imperial, Coronel Amorim Bezerra, liderada pelo Capitão Pedro Alves de Siqueira, consistia em atrair a atenção dos acampados com uma parcela da cavalaria no alto da colina, enquanto outra parcela de soldados atacava simultaneamente pelo flanco e pela retaguarda, conforme registrado pelo filho de Hercule Florence.

“Mal sabíamos, porém, que só chamavam para aquele ponto nossa atenção, fingindo cair; o que queriam, era atacar pelo flanco, todo em capoeira, até nossa retaguarda, os periquitos de Bezerra. E, de fato, quando demos por eles, foi já pelo relampear das baionetas, e pelas cerradas descargas sobre o grupo dos nossos poucos, que puderam tomar as armas em desordem e rodear bravamente as duas pecinhas”.

A Guarda Municipal Permanente era conhecida como a força dos “periquitos” devido aos uniformes verdes enquanto os outros combatentes careciam de roupas de armas e até de calçados.

Cercados os rebeldes, houve debandada geral e ficaram cerca de 60 homens ao redor das peças de artilharia.

Amador Bueno Machado Florence relata um diálogo com Antônio Manuel Teixeira, descrevendo a fuga dos rebeldes. Eles conseguiram escapar trocando tiros com espingardas de caça, liberando um a um para dentro do mato, até conseguirem fugir. Os soldados imperiais, conhecidos como “periquitos”, usando fuzis com alcance de cerca de 260 metros, deixaram os mortos no campo de batalha.

No embate, as forças imperiais perderam apenas dois homens, um guarda nacional e um membro da milícia do Padre Ramalho, ambos feridos mortalmente. Do lado dos paulistas liberais, entre 19 ou 20 combatentes perderam a vida.

Doutor Ricardo Gumbleton Daunt narra detalhadamente a morte do Capitão Boa Ventura Soares do Amaral, militar e amigo de Tobias de Aguiar. Boa Ventura veio para Campinas com armamentos, com ordens para retornar à Coluna Libertadora em Sorocaba, mas preferiu ficar e lutar ao lado dos liberais. Ele recusou a fuga e morreu no combate, como descrito por Daunt:

“Comandava a mesquinha artilharia paulista no infeliz combate da Venda Grande um paulista da mais apurada nobreza— Amaral e Camargo — por nome Boaventura Soares do Amaral. Era capitão de 2ª linha e durante anos militou nas campanhas do sul contra castelhanos.

Melhor do que ele ninguém conhecia a impossibilidade de lutar com vantagem com o governo, porém preso por sentimentos exagerados de gratidão ao brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar, ele acudiu ao chamado deste e aceitou o comando das peças, e marchou como o paciente ao cadafalso.

Houve a debandada dos provincianos, mas o capitão Boaventura não cuidava em si, recusou abandonar seu posto, e quando se viu cercado pelo inimigo que quis constituir-se prisioneiro de um oficial cujo camarada d’armas fora no Sul, a fim de assim obter a garantia da sua vida. Ele ofereceu sua espada ao referido oficial, e o infame, rindo-se virou as costas deixando o paulista a mercê da tropa.

Prenderam-no, e no ato, propositalmente feriram-no, levando-o para a casa da antiga fazenda que era sobrado. Ali o atiraram em uma cama e na mesma noite os soldados o assassinaram a sangue frio.”

Nos documentos enviados ao Barão de Caxias pelo tenente-coronel José Vicente de Amorim Bezerra, comandante em chefe do destacamento imperial, destacam-se os atos de bravura dos oficiais das diversas unidades de soldados, mencionando também o Capitão Pedro Alves de Siqueira, comandante da cavalaria, ferido levemente, assim narrados:

“Entre os oficiais e praças que mais se distinguiram, cumpre dever e justiça, recomendar a Vossa Excelência, o alferes do batalhão 12°, Carlos Cirilo de Castro, o 2º tenente João Jacques Godfroy, cadete de artilharia, alferes de comissão; Bernardo Joaquim Pereira, cadete fazendo serviço do oficial João José Pereira; sargento Joaquim Theodoro, ambos do batalhão 12°, e o sargento de guardas nacionais Antônio do Rego Dante”

Como o combate ocorreu no final da tarde e início da noite, o campo de batalha não pôde ser completamente explorado. Os relatos na imprensa mencionaram 17 mortos e 15 feridos. Esses números levaram à interpretação da morte de “Antônio Joaquim Vianna”, considerado o comandante e chefe dos paulistas de Campinas, que foi ferido e levado para o prédio da cadeia velha em Campinas.

Na cadeia velha, já estava detido o médico cirurgião Antônio Luiz Patrício da Silva Manso, considerado o principal autor da Rebelião de Cuiabá e acusado de incitar agitações em Limeira. Ele havia sido preso na noite de 5 de junho de 1842.

Patrício Manso não apenas tratou dos ferimentos de Antônio Joaquim Vianna, como também foi testemunha de seu testamento, conforme narrado pelo historiador Benedito Otavio em 1907:

“Ainda assim, Patrício Manso, não deixou de tomar parte na rebelião de 1842, que levantou São Paulo e Minas. Vencidos os liberais, foi preso, de nada lhe valendo o título de médico do paço, que exibiu. Aí, na cadeia velha, encontrou-se com Antônio Joaquim Vianna, seu amigo, aprisionado e ferido em Venda Grande. Patrício Manso assignou o testamento de Vianna, moribundo, e lhe assistiu a morte, guardando como relíquias o lençol e o colchão ensanguentados do valente rebelde…”.

O número de mortos no Combate de Venda Grande, nunca foi realmente desvendado, o relatório dos soldados do Barão de Caxias ficou com a contagem de 17 mortos, historiadores e cronistas falam em 19 ou 20 combatentes mortos, Amador Bueno Machado Florence, em sua crônica, quarenta anos depois do evento relaciona alguns mortos:

Boaventura do Amaral Soares de Camargo, Antônio Joaquim Vianna, “Negueime”, apelido de um primo de Joaquim Bonifácio do Amaral, o Visconde de Indaiatuba, João Evangelista Monteiro, um primo de Juca Salles, um indivíduo conhecido como João Francisco, possivelmente João Sapateiro, identificado por Amador Bueno Machado Florence como um alfaiate na época, um camarada de Bittencourt, provavelmente um dos colonos ou funcionários de Antônio Pio Correia Bittencourt que também participou do combate.

Da força Imperial somente um soldado do Padre Ramalho, pereceu. Quanto aos feridos, Amador Bueno Machado Florence, relaciona:

Antônio Alfaiate, baleado de revés na cabeça. Joaquim Cardoso, irmão de Manoel Cardoso, tio do maestro Santana Gomes e de Antônio Carlos Gomes, baleado no peito, que se recuperou graças ao acolhimento e ajuda dos sitiantes da redondeza e José Antônio da Silva, ferido no braço.

Aqui, neste solo que pisamos agora, ocorreu a batalha que hoje relembramos e que já foi cenário de muitas homenagens aos nossos heróis. Um destaque especial foi uma homenagem realizada por volta de 1860 ou 1862, liderada pelo Visconde de Indaiatuba, Joaquim Bonifácio do Amaral, líder do Partido Liberal e imediato no comando deste combate. Durante esse ato de piedade, o Visconde percorreu os caminhos onde seus camaradas tombaram, recolhendo os ossos dos valentes e transferindo-os para uma igreja em Campinas, cujo nome e local permanecem desconhecidos até os dias de hoje. Essa narrativa foi registrada por Amador Bueno Florence, e apesar de nossas pesquisas, o local exato da igreja e o destino dos ossos exumados ainda são desconhecidos.

Em nossa simples homenagem de hoje, peço aos senhores um minuto de silêncio, para homenagearmos os nossos combatentes do passado.

Assim como nos esforçamos para não deixar morrer este legado, assim o fizeram os gregos quinhentos anos antes de cristo, cumprindo o ritual de homenagem aos seus soldados retiro algumas palavras do discurso de Péricles:

“Contemplo diariamente a grandeza de minha cidade, por ela apaixonado, inspirado, reflito, que toda esta sociedade foi erguida pela conquista de homens de coragem, cônscios de seu dever, impelidos na hora do combate por um sentimento de honra…”

Este é o nosso sentimento pela história da nossa cidade e a nossa homenagem aos combatentes da Venda Grande.

Muito Obrigado.

 

Genaro Campoy Scriptore

Administrador de Empresa
Pesquisador e Escritor
Membro do Conselho Fiscal do Centro de Ciências, Letras e Artes

Memória social e o objeto biográfico.

Artigo-Estoico-CCLA-1024x277 Memória social e o objeto biográfico.

 

O cotidiano do cidadão de Campinas, suas interações com a cidade e a navegação pelas suas ruas não bastam para evocar a memória coletiva e social de uma localidade que tem suas raízes culturais, históricas e tradições, profundamente enraizadas em seu tecido urbano central.

O centro de Campinas é rico em objetos, símbolos, construções e marcos que, lamentavelmente, sofrem com atos de vandalismo, depredação e pichações. Isso evidencia que a preservação do passado não reside apenas nos monumentos e no património público, mas sim, na compreensão e no reconhecimento da história por parte da comunidade.

A valorização e a reconstrução do legado histórico campineiro, no presente, dependem do acesso à informação e do conhecimento da realidade histórica, que moldaram a sociedade local. É somente por meio desse entendimento que podemos verdadeiramente apreciar e preservar a herança cultural que nos foi deixada.

O Centro de Ciências, Letras e Artes é diretamente afetado pela deterioração que assola o entorno central de nossa urbe. Como membro desta venerável instituição, que abriga museu, memoriais, uma biblioteca e coleções de objetos biográficos e culturais, de grande valor histórico, busco contribuir por meio de pesquisas e publicações, para a compreensão e valorização dessas coleções.

Recentemente, ao preparar uma palestra sobre Antonio Carlos Gomes e ao examinar uma foto datada de 1936, redescobri a importância de uma peça localizada na entrada principal do Edifício “Cidade de Campinas”, na Rua Regente Feijó, 1251. Esse objeto, que ilustro neste texto, revela-se um testemunho significativo da história e do esforço na preservação do registro do local onde nasceu Carlos Gomes.

Minha compreensão inicial sobre tal objeto passou por uma transformação radical quando me aprofundei na pesquisa e descobri que foi criado durante as celebrações de inauguração do monumento-túmulo de Carlos Gomes, situado na Praça Antônio Pompeo. Essa peça foi concebida como parte da homenagem ao ilustre maestro e compositor de “Il Guarany”, marcando um momento solene em sua memória, após seu falecimento.

No dia 2 de julho de 1905, findas as solenidades de inauguração do monumento-túmulo, João César Bierrenbach convidou a comissão e uma grande massa de populares para seguirem a pé desde o monumento, pela Rua da Cadeia, hoje Rua Bernardino de Campos, até o prédio de número 50 da Rua Regente Feijó, que hoje corresponde ao número 1.251. Local onde nasceu Antonio Carlos Gomes, habitado na época pela família de Theodoro de Souza Campos.

Na frente da residência em que Carlos Gomes veio à luz, César Bierrenbach, em poucas palavras, convidou Rodrigo Octavio, Lúcio Mendonça e os guardas da marinha, Ignácio Amaral e Sebastião Lobo, para descerrarem a cortina que cobria a lápide comemorativa, fixada na parede frontal da residência.

Dois anos depois, no dia 19 de julho de 1907, o presidente do Centro de Ciências, Letras e Artes, doutor Souza Brito, recebeu do chefe da Locomoção, da Estrada de Ferro Mogiana, doutor Carlos William Stevenson, uma placa fundida em bronze. Esta placa se destinava a substituir a lápide de mármore negro que, por iniciativa de César Bierrenbach, havia sido descerrada em 2 de julho de 1905.

A placa trazia um escudo sobre duas colunas, ladeadas por palmas, coroado por uma lira entre dois ramos de café e carvalho. O letreiro no interior da placa trazia os mesmos dizeres da lápide de mármore original:

“Na casa aqui outr’ora existente em XI-VII-MDCCCXXXVI nasceu Carlos Gomes – Homenagem do Centro de Sciencias Letras e Artes a II-VII-MCMV”

A casa e a placa comemorativa coexistiram por mais de 60 anos, até a construção do Edifício “Cidade de Campinas”, que abriga salas comerciais. Esse edifício respeitosamente incorporou a placa de 1907 até meados de 2012, quando ocorreu o furto da placa de bronze da frente do edifício.

O Centro de Ciências, Letras e Artes não se daria por vencido. O vandalismo não intimidaria a diretoria, capitaneada pelo engenheiro Marino Ziggiatti e seus pares Duílio Battistoni Filho, Luiz Carlos Ribeiro Borges, Gustavo Mazzola, Arley Bonafé Zarattini e tantos outros incansáveis na preservação da memória social. Em 12 de setembro de 2012, conforme menciona a ata 205ª, foi instalada uma nova placa indicativa do nascimento de Carlos Gomes, exatamente com os mesmos dizeres da placa original, agora em cimento e mármore, patrocinada integralmente pelo senhor Arley Bonafé Zarattini.

A atual diretoria do Centro de Ciências, Letras e Artes mantém sua dedicação inabalável, enfrentando corajosamente os desafios que se apresentam, incluindo a triste realidade de sua sede parcialmente pichada e diversas estátuas pela cidade vandalizadas, entre elas o Monumento-túmulo de Carlos Gomes, o busto de César Bierrenbach, o busto de Guilherme de Almeida, o busto de Padre Anchieta e outros monumentos que também foram alvo desses atos de vandalismo.

O vandalismo contemporâneo, praticado nas madrugadas, transcende à mera agressão. Assemelha-se mais a um estilo de vida, praticado em segredo, com rostos ocultos da sociedade, revelando-se apenas aos seus pares.

Além disso, há aqueles que se dedicam à apropriação ilícita de peças metálicas, destinadas à venda ilegal para sucateiros e falsificadores, desprovidos de ética e moral. Esses indivíduos muitas vezes são rotulados como ignorantes culturais, vivem uma existência fugaz e desprovida de significado, deteriorada pelo uso indiscriminado de substâncias químicas que corroem, irreversivelmente, sua saúde mental, emocional e física.

Diante desse desafiante cenário do vandalismo, o fortalecimento do senso de pertencimento à comunidade e à sociedade, emerge como única solução promissora. Ao integrar cada vez mais o indivíduo nas relações sociais, podemos cultivar um orgulho coletivo, responsabilidade compartilhada e um compromisso renovado com a vida comunitária.

Investir na conscientização e na educação dos nossos jovens representa um caminho eficaz para mitigar comportamentos destrutivos e moldar cidadãos responsáveis e comprometidos com o bem-estar coletivo.

Minha concordância com Sêneca, em sua obra “Diálogos”, especialmente na Introdução, reflete minha convicção de que seus ensinamentos oferecem base sólida para abordar temas complexos, como o vandalismo e desafia-nos na busca de soluções inovadoras:

“…sempre haverá uma oportunidade, por mais adversos que sejam os tempos, de ser útil à comunidade, mesmo se for só sair para a rua e ser visto; não se deve intimidar a princípio ou, tímido, esconder-se no seu canto; pelo contrário, pode-se até ir para outra cidade ou terra que lhe seja mais favorável, pois o cosmopolitismo estoico lhe confere o status de cidadão do mundo.” (Diálogos – Introdução – página 41 Editorial Gredos, S.A – Madrid – Espanha

O olhar de dois metodistas para a Vila de São Carlos em 1852

Cafezal01-300x201 O olhar de dois metodistas para a Vila de São Carlos em 1852

 

 

Os reverendos metodistas, Daniel Parish Kidder e James Fletcher, maravilharam-se com a paisagem deslumbrante dos cafezais descortinada aos seus olhos, depois de mais de 160 quilômetros de cavalgada.

A importante cidade de Campinas, antiga Vila de São Carlos, local planejado para o descanso dos viajantes, emprestava toda sua formosura ao entardecer, para embelezar e impressionar os dois estrangeiros, que ao sair do mato grosso das campinas, uma muralha vegetal que separava a vila de São Carlos da Vila de Jundiaí, ficaram perplexos com as imagens obtidas por suas retinas.

O espanto e a admiração com a fertilidade da terra campineira, com as extensas planícies, pradarias ondulantes e quase todos os alqueires ocupados pelas plantações de café, que segundo os reverendos eram: “…plantações de café altamente cultivadas, das quais um verde profundo mais pareciam um prato gigante de vegetais verdes, espiando aqui e ali as grandes residências brancas dos fazendeiros”.

O entardecer de um dia do inverno em Campinas, sempre foi e será um espetáculo reservado para o olhar mais meticuloso, não seria diferente para os estrangeiros que das selas de seus cavalos, vislumbravam o céu em tom pastel ao noroeste, com o anoitecer índigo ao norte e nordeste, iluminado pelas enormes fogueiras espalhadas pelas planícies e pelos fogos de artifícios, que formavam incríveis efeitos e explosões semelhantes a um bombardeio a uma cidade sitiada.

Era véspera de São Pedro, e todo brasileiro com o nome de Pedro, sentia-se obrigado pela tradição religiosa, festejar com fogos de artifícios e fogueiras, que aqueceriam a noite dos festejos.

Na falta dos fogos, nas portas de suas casas, disparavam pistolas, mosquetes e bombas diversas enquanto crianças, mulheres e cidadãos festejavam o santo.

Foi assim, que os reverendos metodistas descreveram sua chegada na cidade de Campinas, guiados por dois guias paulistas, contratados para a expedição à província de São Paulo:

“…Meus dois guias paulistas me conduziram pelas ruas estreitas, e finalmente chegamos a uma fileira de pequenas casas caiadas de branco”.

As pequenas casas caiadas eram residências dos amigos dos guias, e os reverendos não pensavam em se hospedar com os amigos dos guias, porém, como não havia ninguém para levá-los até uma estalagem, um hotel que poderia, ou não, ter acomodações disponíveis. Resolveram, então, hospedarem-se ali mesmo, dado ao cansaço dos animais fatigados e convencidos pelas gentilezas dos donos das casas, embora as condições de acomodações não eram as ideais, mas com certeza eram  melhores do que tinham tido na noite anterior.

Segundo os reverendos, a residência em que se hospedaram era do carpinteiro Theobaldo ou Theobardo, que não havia construído uma casa de madeira, mas sim, da mesma substância encontrada na rua, terra batida, material das paredes e dos pisos.

Na manhã seguinte o reverendo pôde confirmar o interior da residência, pois na noite anterior estivera só no  pátio.

O reverendo descreve o carpinteiro como metade índio, meio mulato, e se tivesse que ter qualquer outra metade seria de meio português amarelo.

As palavras do reverendo, nesta hospedagem foram que: “Naquela noite, o sono foi de fato doce; e na manhã seguinte parti cedo, deixando minha bênção e mil réis com o gentil Senhor Theobardo. O primeiro ele aceitou, mas o último ele declinou, até que eu forcei aceitar como oferta de uma lembrança.”

No dia 29 de junho de 1852, a comitiva dos missionários, partiu em direção a Limeira, incorporando mais dois jovens alemães.

“A rota era ainda mais pitoresca do que a de ontem. A estrada fina foi ofuscada por árvores e vinhas selvagens; e os pássaros caricatos e cantores fizeram as dez léguas (mais ou menos 60 quilômetros) parecerem curtas.“Todas as casas à beira da estrada, e até mesmo as enormes igrejas, são construídas de lama, ou melhor, cobertas com barro. Os grandes conventos de São Paulo e a imensa igreja de Campinas, cujas paredes têm um metro e meio de diâmetro são compostos de terra batida”.

Todo o aspecto do país havia mudado: o cenário sublime da costa não estava aqui para ser encontrado, mas, em seu lugar, aquilo que me lembrava os Estados Unidos. Na novidade dos assentamentos e plantações que visitava, eu poderia facilmente ter acreditado estar na parte norte de Ohio.”

Hoje, quando estamos há cento e setenta e um anos da visita desses nossos amigos metodistas, presto a minha homenagem singela para a cidade de Campinas e à figura paterna, do avô italiano, que incorporou durante toda a sua vida os festejos de São Pedro.

 

Bibliografia:

Fletcher, James C. Rev., Kidder, Daniel P. Rev. – Brazil and The Brazilians Portrayed In Historical and Descriptive Sketches. Eight Edition – Boston: Little, Brown and Co – London: Sampson, Low, Son and Co. – 1868 p.  399 – 403. In: Scriptore, Genaro Campoy – Freguesia, Vila e Cidade de uma Campinas Velha – p. 91- 93

 

Recordações do Esporte Clube Noroeste em Bauru-SP.

Nasci em novembro de 1952, minhas lembranças dos jogos do Noroeste remontam desde o velho estádio “Alfredo de Castilho na Rua Quintino Bocaiúva, até aos jogos no “Ubaldo Medeiros”, que depois de 1964 voltou a se chamar “Alfredo Castilho”.

MFRB02172-810x536_AntigoEstadiored-300x198 Recordações do Esporte Clube Noroeste em Bauru-SP.

Frente do “Alfredo de Castilho na Rua Quintino Bocaiúva

Foto do Museu Ferroviário Regional de Bauru

No fatídico dia 23 de novembro de 1958, quando jogávamos contra o São Paulo, time da capital e do coração de minha avó, de meu pai e do meu; tivemos que deixar correndo o estádio, aos vinte e seis minutos do primeiro tempo, em virtude do incêndio que tomou conta das arquibancadas de madeira e destruiu algumas casas vizinhas ao estádio. O jogo foi interrompido e retomado na terça-feira, no período da tarde do dia 9 de dezembro, no estádio “Antonio Garcia”, casa do BAC, Bauru Atlético Clube.
Estes fatos são do conhecimento de todos os apaixonados do Esporte Clube Noroeste, porém o que eu gostaria mesmo é de registrar e relembrar a luta desta agremiação para obter o acesso a Divisão Principal do Futebol Paulista,

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Vista exterior do incêndio do estádio  “Alfredo de Castilho”  na Rua Quintino Bocaiúva.

Foto do Museu Ferroviário Regional de Bauru

Meu pai era um apaixonado pelo Noroeste, participou da diretoria do clube e o seu legado para mim, foram duas faixas conquistadas nos anos de 1953 e 1954, guardadas  em minhas caixas de recordações com muito respeito e  carinho.

Faixas-Noroeste-1954-1024x243 Recordações do Esporte Clube Noroeste em Bauru-SP.
Faixas-Noroeste-1953-1024x220 Recordações do Esporte Clube Noroeste em Bauru-SP.

Cresci ouvindo as histórias contadas por  meu pai sobre as epopeias,  as conquistas de 1953 e 1954, quando o time amador, comumente chamado de “Expressinho”, sagrou-se Campeão e Bicampeão, da cidade de Bauru.
Os fatos que descrevo abaixo, são de minhas memórias, e me facilitaram nas buscas e pesquisas realizadas em  periódicos da época, para verificar a veracidade dos fatos.
Entre os anos de 1960 e 1963, ao final dos jogos do Noroeste, voltávamos do “Ubaldo de Medeiros”, empreendendo uma caminhada pela rua Campos Salles, geralmente em meio de amigos e parentes, habitualmente parávamos alguns instantes na esquina da Rua Sabadino Scriptore para finalizar alguns comentários e nos despedir. Eu e meu pai, entrávamos pela casa de minha tia atravessando o quintal, até chegar na casa de minha avó, que já nos esperava com um café sempre muito doce e algumas fatias de pão feito em casa com manteiga caseira e açúcar.
Nestas ocasiões meu pai, me brindava com as alegrias que o Noroeste lhe trouxera, conseguindo o título de campeão da segunda divisão no ano de 1953.
Contava meu pai, que o Noroeste fora fundado em 1 de setembro de 1910 com o nome original de “Sport Clube Noroeste” e que o primeiro jogo teria sido em 20 de outubro de 1912, contra um time de São Manuel, fato que confirmei como verídico e publicado no Jornal Correio Paulistano, do domingo 27 de outubro de 1912, Edição 17695, página 4, confirmando um empate entre as agremiações.
Outro fato interessante que meu pai contava, era a derrota do Noroeste para o Lusitana Football Club por 3 a 2, em março de 1925, partida que assistiu quando tinha 7 anos de idade, fato que também pude comprovar como verídico.
Em 1942, o Lusitana Football Club nas disputas do quadrangular final do Campeonato Amador do Interior, fora desclassificado pelo Esporte Clube Taubaté, time forte que se tornara  campeão do certame amador da Federação Paulista de Futebol.
Meu pai contava que, dois anos antes de se casar, mais precisamente no ano de 1943, o Noroeste surgiria como força do interior, e depois de várias vitórias, chegaria ao quadrangular final do Campeonato do Interior de 1943, contra o algoz do Lusitana, o Esporte Clube Taubaté. Chegava, também ao quadrangular, o Taquaritinga que jogaria em casa, na disputa de uma vaga para chegar à final, com o Guarani de Campinas.
O Guarani venceu o Taquaritinga por 1 a 0 e o Noroeste foi derrotado pelo Esporte Clube Taubaté por 2 a 1, na cidade de Taubaté.
No jogo de Campinas, O Guarani venceu o Taquaritinga por 9 a 0 e tornou-se o finalista. Em Bauru, no dia 31 de outubro de 1943, o Noroeste venceu o Esporte Clube Taubaté, por 4 a 0, com um número impressionante de torcedores no velho estádio “Alfredo de Castilho”, da Rua Quintino Bocaiúva. Marcaram os gols, Crisanto, na primeira etapa e no segundo tempo marcariam Lâmonica, Crisanto e Adofrides.
Meu pai recitava a escalação do Noroeste neste episódio, sempre feliz e sorrindo:
Amélio, Xandu, Irineu, Chocolate, Sergio, Balbino, Lâmonica, Crisanto, Adofrides, Cirilo e Fontes.
A Federação Paulista de Futebol, marcou os jogos finais do Campeonato Amador do Interior para os dias 7 de novembro de 1943, domingo à tarde, e 10 de novembro quarta-feira à noite, no estádio do Pacaembu em São Paulo.
No domingo dia 7 de novembro de 1943, a preliminar foi feita por um amistoso entre o Santos e o Corinthians e o Santos venceu por 1 a 0. Na partida principal o Noroeste venceu o Guarani por 1 a 0, com os mesmos atletas da partida anterior. O gol da partida foi assinalado por Fontes aos vinte e cinco minutos do segundo tempo, recebendo um passe de Crisanto, com uma finalização da ponta esquerda em um chute alto. Neste jogo, Amélio fechou o gol e os zagueiros  foram os destaques do time.
Na quarta-feira, dia 10 de novembro de 1943, a preliminar seria efetuada pelo Palmeiras versus Juventus, porém não se realizou.
O Noroeste se apresentou com o mesmo time e o Guarani com os atletas:
Tito, Tiziani, Couto, Fricote, Silva, Pavuna, Bibiano, Batista, Zuza, Piolim e Machadinho.
Em um jogo muito disputado Noroeste e Guarani ficaram no 0 a 0, o que deu o título de Campeão do Interior para o Noroeste.
O Campeão do Interior, inicia a profissionalização de seus atletas em 1948, passa a ter dois times, um para jogar o Campeonato Amador da cidade de Bauru e outro para disputar o Campeonato Paulista.
As faixas que guardo com muito carinho e respeito, mostradas acima se referem ao “Expressinho”, o time amador Campeão em 1953 e Bicampeão em 1954.
O ano de 1953, foi coincidentemente, o ano em que o Noroeste teve a sua grande conquista de acesso ao Campeonato Paulista.
O Linense fora Campeão da Segunda Divisão, em 1952, o que lhe garantiu o direito de disputar o Campeonato Paulista da Primeira divisão.
Dada a proximidade de Marília e Lins com a cidade de Bauru,  torcedores de Linense e Marília cultivaram uma rivalidade com os bauruenses, que até hoje, é motivo de renhidas disputas no futebol.
Apresentaram-se para a disputa do Campeonato da Segunda Divisão de 1953, 29 times, sendo escolhidos pela Federação Paulista de Futebol apenas 19, mais o Jabaquara que caíra da primeira para a segunda divisão. O sistema da escolha tinha um critério de pontuação baseado na performance dos clubes, considerando renda, tradição, população e números de associados. Os vinte times escolhidos foram divididos em três séries, tendo seu início marcado para o dia 22 de novembro de 1953 e seu término previsto para o final de maio de 1954.
O Noroeste foi designado para o Grupo Verde onde estavam os seguintes times:

  1. Tupã Futebol Clube, de Tupã;
  2. São Paulo Futebol Clube, de Araçatuba;
  3. Bauru Atlético Clube, de Bauru;
  4. Esporte Clube Noroeste, de Bauru;
  5. Clube Atlético Piracicabano, de Piracicaba;
  6. Marília Atlético Clube, de Marília.

O Grupo Amarelo trazia os seguintes times:

  1. América Futebol Clube, de São José do Rio Preto;
  2. Rio Preto Esporte Clube, de São José do Rio Preto;
  3. Botafogo Futebol Clube, de Ribeirão Preto;
  4. Palmeiras Futebol Clube, de Franca;
  5. Associação Atlética Francana, de Franca;
  6. Associação Desportiva Araraquara, de Araraquara;
  7. Associação Ferroviária de Esportes, de Araraquara;

O Grupo Azul agrupava os times:

  1. Corinthians Futebol Clube, de Santo André
  2. São Caetano Esporte Clube, de São Caetano;
  3. Paulista Futebol Clube, de Jundiaí;
  4. Esporte Clube Taubaté, de Taubaté;
  5. Clube Atlético Bragantino, de Bragança Paulista;
  6. Esporte Clube São Bento, de Sorocaba;
  7. Jabaquara Atlético Clube, de Santos.

O Noroeste foi sensacional na fase de classificação, vencendo quase todos os times de forma implacável.
Foram classificados pelo Grupo Verde, Esporte Clube Noroeste e Marília Atletico Clube. Pelo Grupo Amarelo o América Futebol Clube e a Associação Ferroviária de Esportes. Pelo Grupo Azul, O Paulista Futebol Clube e o Clube Atlético Bragantino.
Os seis classificados em turno e returno, jogariam uns contra os outros e o primeiro colocado ganharia o direito de subir para a primeira Divisão do Campeonato Paulista.
O Noroeste, nos dez jogos realizados na fase final, teve um desempenho fantástico, perdendo apenas duas vezes, uma em Araraquara, para a Ferroviária, pela contagem de 5 a 3, em razão do ataque fantástico do seu oponente, mesmo assim, conquistou o primeiro lugar com uma rodada de antecedência. Com um time totalmente desfigurado na última rodada, perdeu para o Clube Atlético Bragantino, obtendo a classificação final por pontos ganhos, demonstrada abaixo, onde um jogo somava dois pontos pela vitória e um ponto pelo empate.

Pontuação Final do Campeonato da Segunda Divisão 1953
Times Pontos
1 Esporte Clube Noroeste 16
2 Associação Ferroviária de Esportes 13
3 Paulista Futebol Clube 10
4 América Futebol Clube 8
5 Marília Atlético Clube 5
6 Clube Atlético Bragantino 4

Nesta fase o Noroeste fez dois jogos muito interessantes com o Marília Atlético Clube. No primeiro turno, em uma partida tumultuada, venceu por 2 a 1 em Marília, no dia 18 de abril de 1954. No segundo turno, venceu em Bauru por 2 a 0, no dia 23 de maio de 1954, no estádio “Alfredo de Castilho”, da Rua Quintino Bocaiúva, onde comemorou o primeiro título de Campeão da Segunda Divisão, sendo que mesmo com uma rodada faltante, nenhum time poderia alcançá-lo na classificação final.
A partida do domingo de 18 de abril de 1954, teve um incidente muito sério que foi registrado em vários periódicos do Brasil.
O jogo era muito esperado, o Noroeste na primeira colocação precisava de pelo menos um empate para se distanciar do segundo colocado, que naquele momento no primeiro turno, era o Marília.
A partida estava muito disputada e tinha como árbitro o senhor José Benedito Siqueira Filho. Aos quarenta minutos do primeiro tempo, o atacante Cilno do Marília, marcou o gol que dava vantagem ao time local. Na volta para o segundo tempo o Marilia executa uma estratégia de se retrancar na defesa, com o objetivo de manter o resultado.
Aos vinte e cinco minutos do segundo tempo depois de martelar a defesa do Marília, Brotero conseguiu assinalar o gol de empate que recolocava o Noroeste no primeiro lugar, distanciando-se do seu oponente e com um ponto perdido na tabela. Isto fez com que o Marília, voltasse a agredir a defesa do Noroeste, sendo que em um destes momentos o árbitro deixou de assinalar uma penalidade máxima, muito visível, no atacante Doquinha do Marília Atlético Clube, que foi aterrado violentamente pela zaga do Noroeste, fato constatado por toda a imprensa que cobria o evento. A partida seguia muito tensa, ao apagar das luzes, nos últimos minutos, Brotero em um rápido e fulminante contra-ataque marcou o gol da vitória do Noroeste.
Ao encerrar a partida, o árbitro recebeu a explosão de ira dos torcedores de Marília, que invadiram o gramado e agrediram o trio de arbitragem, mais o representante da Federação considerando-os tendenciosos e parciais. Um soldado da força pública na tentativa de parar as agressões, de forma imprevidente, sacou de uma arma e acabou por alvejar no abdômen Arnaldo Martins, um rapaz de 22 anos envolvido no tumulto, que foi operado na Santa Casa e não morreu, pelo menos naqueles dias. O arbitro quebrou umas costelas e sofreu escoriações, bem como sofreram escoriações os bandeirinhas e o representante da federação.
O Noroeste neste dia teve a seguinte escalação:
Sidnei, Osvaldo, Vila, Faria, Mingão, Amaro, Colombo, Zeola, Ranulfo, Brotero e Marini.
O Marília foi escalado com Tonico, Nelson, Atílio, Ditinho, Valente, Luiz, Cilno, Hélio, César, Doquinha e Vave.
Tiveram atuações destacadas durante a partida os jogadores Brotero e Faria do Noroeste. No time do Marília destacou-se o jogador Atílio.
Hoje em pleno 2023, ano em que vi o Noroeste lutando para ascender a Serie A do Campeonato Paulista, penso que falta inspiração aos dirigentes, jogadores e torcedores para se espelharem nestes momentos gloriosos que o Esporte Clube Noroeste construiu ao longo do último século. São nestes momentos que repousam forças latentes aguardando nobres espíritos que as abracem com o corpo e a alma para repetir as façanhas da agremiação rubra, que pode, e, deve ser recolocada no lugar a que pertence e merece.

Os temíveis dias que vivemos

Shofar-300x225 Os temíveis dias que vivemos
Grita, pois, a plenos pulmões, não te contenhas, levanta a tua voz como um Shofar, uma trombeta, e faz ver ao povo a sua própria transgressão, mostra à Casa de Jacó o seu pecado!

Isaías 58 – 1

Começo a escrever estas linhas com olhos nas palavras de Eça de Queiróz dirigidas ao seu oponente Pinheiro Chagas na questão entre Portugal e o Brasil, destacando as espécies de patriotismo.
O primeiro deles são aqueles que respeitam as tradições, que dirigem todos os seus esforços para uma nação viva, que trabalha, produz, pensa e sofre. Ocupam-se da pátria contemporânea, que conhece suas aspirações e dirige todo o esforço para torná-la mais livre, mais forte, mais culta mais sábia, mais próspera e elevada entre as outras nações.

Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração: vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e coorganizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos — ciência e justiça.
Põem a pátria acima do interesse, da ambição, da gloríola; e se têm por vezes um fanatismo estreito, a sua mesma paixão diviniza-os. Tudo o que é seu o dão à pátria: sacrificam-lhe vida, trabalho, saúde, força. Dão-lhe sobretudo o que as Nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem: não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calicute, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. Gritam-lhe: “Tu és pobre, trabalha; tu és ignorante, estuda; tu és fraca, arma-te! E quando tiveres trabalhado, estudado, quando te tiveres armado, eu, se for necessário, saberei morrer contigo!”
Eis o nobre patriotismo dos patriotas.

O outro patriotismo é diferente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna, mas, uma outra pátria, aquela que no passado conquistou povos e países, que arrasou aldeias, expulsou árabes e mouros, traficou produtos e é comemorada em cantorias e serenatas.

Esse sabe discursar com os olhos e o lábio em luxuria: “Oh, pátria! Oh, filha! Ai, querida! Oh, pequena! Que linda és!”, exatamente como tinha dito na véspera, num bordel, a uma prostituta barata.
Esse, coisa pavorosa! não ama a pátria, namora-a; não lhe dá obras, impinge-lhe odes. Esse, quando a pátria se aproxima dele, com as mãos vazias, pedindo-lhe que coloque nelas o instrumento do seu renascimento — põe lá (ironia magana!), o quê? Os louros de Ceuta! Quando o povo lhe pede mais pão e mais justiça, responde-lhe, torcendo o bigode: “Deixa lá… Tu tomaste Cochim.”

A pátria brasileira com mais de 214 milhões de brasileiros não conseguiu ainda fazer a autocrítica sugerida por Eça de Queiroz, no século XIX. É uma nação que não dispõe dos recursos necessários para fazer os devidos investimentos em infraestrutura, é pobre, transfere para o estado as responsabilidades sociais e evita o esforço da conquista pelo trabalho, pelo estudo e pela formação de brasileiros comprometidos socialmente. Está desarmada e desprotegida diante do crime, do tráfico de drogas, sem escolas, sem saneamento e com tendência para anular qualquer ação que busque melhorar a sociedade através do esforço individual. Acredita em utopias e fantasias produzidas por falácias e promessas que nunca se cumprirão, pois estão baseadas em teorias coletivas que extrapolam as fronteiras do seu território, sempre na mais valia dos operários, que segundo Karl Marx no Manifesto Comunista, seção II, deixa claro: “Os operários não têm pátria”, mas são os próprios que juntamente com trabalhadores e consumidores continuam pagando a conta da corrupção e dos desmandos.

Por isso repetir as palavras do grande baiano Aristides César Spínola Zama, médico, político e escritor brasileiro deputado federal, conhecido como Cézar Zama, que se insurgiu contra Rui Barbosa que denunciou a perversidade da Guerra de Canudos e legou aos brasileiros o “Libelo Republicano”, texto que pode ser usado na atualidade sem reservas:

Quando os homens de bem não logram compreender e realizar os desígnios da Providência, encarregam-se disto os desonestos. Sob o açoite da necessidade e no meio da impotência geral surgem sempre almas corrompidas, e audazes, as quais como que adivinham o que pode acontecer e o que se pode tentar, e tornam-se instrumentos de um triunfo, que não lhes cabe naturalmente, mas do qual aproveitam-se para colher-lhe os frutos” escreveu Guizot. É o que está sucedendo no Brasil.
Somos respeitadores da autoridade legal e legitimamente constituída. Acatamos as leis do país, e ainda mais as leis morais, que, por não serem escritas, não absolvem, todavia os seus transgressores da reprovação geral. Se nos submetemos aos abusos, que diariamente se multiplicam entre nós, é porque não temos meios e recursos para reagir contra os seus autores; nunca, porém, abdicaremos o último dos direitos dos vencidos – o de protestar com energia contra os demolidores da pátria e da república. Deus fez-nos racional e pensante; exercemos um direito inerente à nossa natureza. Só os vermes toleram ser calcados aos pés sem protestarem.
Diremos só a verdade; mas nua e crua. Novos e mais fundos ódios acumular-se-ão sobre a nossa cabeça; haverá, porém, mérito em afrontá-los, desde que são nobres e elevados os intuitos, que nos dirigem.
Os ódios passarão, e restar-nos-á a tranquilidade da consciência, que não abandona jamais os que cumprem um dever. “Quia non in solo pane vivil homo, sed in omni Dei verbo.” Os poderosos do dia não nos intimidam; só tememos AQUELE que nos pode matar a alma.

Os índices estatísticos são reais e absolutos na amostragem de uma população que depende essencialmente de uma grande parcela de pessoas, mais de 62,3% que sustentam através do seu trabalho e seus impostos 37,7% de pessoas economicamente inativas com menos de 10 anos e mais de 65 anos. Uma sociedade que não têm mais caminhos para aumentar burocratas e funcionários públicos pendurados em estruturas públicas ineficientes.
Não há como sustentar uma sociedade sem trabalho e estudo, entregando um tipo falso de cultura em aglomerações de entretenimento enquanto os valores culturais do país são entregues de forma constante ao desprezo e a ignorância. As instituições culturais como centros de memória, museus e valores culturais são alijados da maioria populacional que se contentam com megas eventos populares apoiados com recursos governamentais em troca de alguns quilos de alimentos retirados das prateleiras vazias dos trabalhadores.
Diante de tanta pobreza e miséria, não poderia deixar de trazer o “Sermão do Bom Ladrão”, se é que exista algum bom ladrão, proferido pelo padre António Vieira em 1655 criticando a arte de roubar, comparando o pequeno ladrão que rouba para comer com o grande ladrão que rouba império, no meu entender ambos passíveis de reprovação:

“Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigos: os outros se furtam, são enforcados, estes furtam.
“Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma província.”

Como brasileiro, inserido nesta sociedade, com responsabilidades civis especificas de pai de família, não posso deixar de gritar a pleno pulmões, como um shofar, por uma sociedade mais justa, como uma trombeta que pede ajuda no combate a transgressão que se principia na sociedade brasileira dividida, muito perto de descaminhos de violência que provocarão muito mais dor e sofrimento além dos que já são inerentes a nossa existência.

Buscando Voltaire e seu amigo Helvétius

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François Marie Arouet –Voltaire

Claude Adrien Helvétius

Diante de tantas “fake-news” e tantos disparates que tenho visto nos últimos dias, desci de minha prateleira alguns livros que li em minha juventude e recuperei um pouco do pensamento de François-Marie Arouet, escritor, ensaísta, deísta e filósofo iluminista francês, mais conhecido pelo seu pseudônimo, “Voltaire” do que pelo seu próprio nome.
Voltaire, nascido em Paris em 21 de novembro de 1694 e falecido em Paris, 30 de maio de 1778, escreveu quase uma centena de obras que vão desde peças de teatro, poemas, romances, ensaios, obras cientificas e históricas, inúmeras cartas e milhares de livros e panfletos. Suas críticas sempre dirigidas aos reis absolutistas, ao privilégios do clero e à nobreza em geral, com endereço certo para o exercício da reforma social, com pesadíssimas críticas à censura e as punições impostas pela quebra delas. Na França foi preso por duas vezes e para escapar da perseguição política que influenciou a revolução francesa, refugiou-se na Inglaterra onde conheceu e passou admirar as ideias de John Locke.
Da minha pobre estante desci dois livros, “A vida de Voltaire”, e  “Os Amigos de Voltaire” o primeiro escrito em 1900 e o segundo em 1906, obras no original da escritora inglesa Evelyn Beatrice Hall , que escrevia com o pseudônimo de S. G. Tallentyre.
A releitura de obras primárias nos posiciona cada vez mais diante dos fatos atuais, traz comparações e execra fatos vividos pela ignorância de que a vida é cíclica e que os eventos se repetem.
Tomo aqui emprestado o livro  “Os Amigos de Voltaire”  Capítulo VII – Helvétius – A Contradição, onde a escritora traz a figura de Claude Adrien Helvétius, autor de “Essay on the Mind”, um livro materialista, no caminho do autoconhecimento que segunda a autora carrega em si, em cada ação muita mentira. Helvétius era um daqueles filósofos da época muito odiado e muito perseguido, principalmente pelos cobradores de impostos da França. Pertencia a uma família de médicos, bisavô e avô considerados na corte, seu pai teria salvado a vida do rei Luiz XV durante a infância.
A escritora diz que Helvétius com 25 anos e Voltaire com 45 anos se tornaram amigos calorosos trocando correspondências entre 1738 e 1771.
Quando Helvétius produziu “Essay on the mind”, tinha como objetivo propor uma nova teoria da ação humana e um novo sistema de moralidade, porém Voltaire não concordou muito com a fantasia que poderia facilmente ser demolida pela crítica, de caráter fácil, imprecisa, um estilo que segundo a escritora era feito para mentes leves e despreparadas como os jovens e as mulheres da época.
Quando pronta a obra, Helvétius levou-a para Tercier, o  censor, que o aprovou sugerindo apenas o corte de algumas referências ao livre pensador Hume, que Helvétius retirou do texto.
O livro seguia o seu desígnio de aprovado por alguns ou reprovados por outros, seguia o seu caminho para ser um sucesso, até que a estupidez enlouquecida do  governo, o Delfim, mais virtuoso do que sábio, sai do seu quarto com uma cópia em sua mão e com o rosto desfigurado em fúria diz:
”Eu vou mostrar para a rainha o tipo de coisa que o mestre da casa, senhor das impressões e das gravuras publica no reino.”
Em 10 de agosto de 1758, o privilégio da publicação de  “Essay on the mind”, foi revogada, Tercier foi demitido e o livro foi furiosamente atacado nos jornais religiosos, nos discursos e homilias por toda a França.
Algo deveria ser feito para Helvétius, algo de bem covarde, que o atormentasse, uma punição exemplar. Porém Helvétius teria feito o mesmo que Voltaire, então um padre jesuíta escreveu uma carta dizendo que ele teria escrito sua obra em inocência e simplicidade e que não tinha a menor ideia do efeito que ela produziria, acrescentando que Helvetius era um homem religioso e que se encontrava muito triste com todo este fato.
A tal carta lhe valeu a perda de toda a sua mordomia e o exílio por dois longos anos no Chateau de Voré.
O que o livro nunca poderia ter feito para si mesmo,  ou por seu autor, a perseguição fez por eles. “Essay on the mind”, não se tornou o sucesso de uma temporada, mas um dos livros mais famosos do século.
Voltaire perdoou-lhe todos os ferimentos, intencionais ou não intencionais, e quando ouviu sobre a queima dos livros de Helvétius dizia:
“Que algazarra sobre um omelete”.
“Quão abominavelmente injusto é perseguir um homem por uma ninharia tão comentada como essa!”
E vem uma frase que se tornaria célebre publicada pela escritora há quase 120 anos atrás:
“I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it”
“Eu desaprovo o que você diz, mas eu defenderei até a morte o direito de dizê-lo”
Nos dias de hoje penso que Voltaire poderia dizer a mesma frase na direção da disputa política que não pode e não deve se dobrar diante da censura.
Como gostaríamos de ter um Voltaire em nossas cortes jurídicas na defesa das liberdades civis, defendendo liberdade religiosa, o livre comércio, aplicando com justiça a lei de forma a punir severamente os desvios morais e corruptores de uma sociedade doente e sem rumo. Ter um defensor da ciência política direcionada por ética e responsabilidade, que tivesse instrumentos coercitivos para impedir a corrupção e os desmandos oligárquicos que sacrificam os cidadãos independentes de suas classes sociais ou condições econômicas
Quem sabe a releitura de Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, Mirabeau, John Locke e tantos outros que se encontram adormecidos pela ignorância e pelo servilismo de falsos mestres possam iluminar nossas futuras gerações.
Sou de um impassível e inquebrantável espírito que acredita na resiliência de uma sociedade futura, que mesmo sem ajuda acabará por encontrar o seu caminho.

Reflexão – Uma ação com duas faces.

 

As-duas-Fridas-300x300 Reflexão – Uma ação com duas faces.
Quadro As duas Fridas – Frida Khalo

Diante de tantas argumentações e reflexões vivenciadas no período eleitoral brasileiro em  2022, advindas desde o mais simples cidadão até as mais complexas mentes intelectuais que conheço, saltaram-me à vista, principalmente nas argumentações, à maneira com que atingiram meu intelecto nestes últimos dias.

Uma das faces que transbordaram nas redes sociais e nos grupos de conversas denominarei aqui de a “reflexão dos influenciadores”.

Descartando o grau cultural, social e até mesmo intelectual dos agentes influenciadores, pude observar que fica fácil se posicionar como tal desconhecendo as ferramentas mais óbvias de um influenciador, como:

  1. Refletir com o domínio das emoções, para não transparecer o lado sombrio que todos escondemos em nosso interior.
  2. Refletir com eloquência, usando a comunicação verbal e não verbal adequada para receber o devido crédito em suas críticas e posições.
  3. Utilizar a empatia de maneira a ocupar o lugar do outro, descentrar de convicções e de padrões pré estabelecidos para passar uma mensagem de confiança.
  4. Demonstrar inovação, criatividade, gerando mensagens arrojadas e novas, com humor, utilizando comunicação não verbal que tem olhar no olhar, leveza e trata seus interlocutores com cuidado respeito e admiração.
  5. Valendo-se de propiciar desafios com o objetivo de vencer atitudes difíceis, mas não impossíveis com senso de inteligência e realidade.
  6. E por fim, considerando as próprias reflexões como modelo, que tanto pode servir de guia aos seus interlocutores como pode despertar reflexões vindas dos interlocutores que guiarão o próprio influenciador em uma nova forma de pensar, é um caminho para construir e ser construído.

Notadamente, sem estas ferramentas muitas destas reflexões passam a ser o que denominarei aqui de “reflexão dos manipuladores”, construídas através de:

  1. Desconhecimento da verdade, que em geral são reflexões com a profundidade de uma poça d’água, feitas de perguntas enganosas, geralmente carregadas de medo seguidas por falsas interpretações de alívio.
  2. Quase sempre tais reflexões escondem em suas entrelinhas um culpado, a culpa sempre será de alguém ou de alguma coisa que transformam reflexões e pessoas em verdadeiras vítimas causando direcionamento falso das decisões finais do indivíduo.
  3. Tais reflexões tendem a subornar ideais e valores estabelecidos que destroem o caráter ético e responsável, sempre de maneira subliminar e inconsequente.
  4. São reflexões rasas e imprecisas, carregadas de ódio, violência e até mesmo de nivelamento ditatorial que justifica ações para outros, nunca para si mesmo.

Num momento tão delicado que vivemos em nossa história, só o bom senso não basta para direcionar as atitudes dos indivíduos.

Abraçar opiniões alheias de falsos influenciadores que têm a face dissimulada dos manipuladores é abraçar a fantasia perigosa no engajamento de lutas desconhecidas e sem sentido, é distanciar-se das ideais edificantes dos espíritos esclarecidos que colocam a luz no alto da sala para iluminar o ambiente, é abraçar o comportamento dos espíritos deseducados, impolidos, grosseiros, néscios e obtusos que escondem a luz sob o leito da conveniência provocando assim a penumbra e a escuridão  intelectual.

Ainda que a manipulação desconstrua o intelecto da sociedade, provoque um abismo entre o responsável social e  egocêntrico manipulador acomodado, ainda assim ponho toda a minha esperança na luz das reflexões dos espíritos esclarecidos, na “reflexão dos influenciadores” que através de atitudes, de exemplos carregados de responsabilidades deitarão luz e convencimento no ambiente de insensatez e ignorância,  habilitando pessoas e instituições na construção de uma sociedade mais justa, solidária e equitativa.

14 de julho – Data inspiradora.

 

SalvadorCaruso-300x185 14 de julho – Data inspiradora.

Primeira Missa em Campinas. Obra de Salvador Caruso, óleo sobre tela. Acervo CCLA.

Em 1774 –A capela interina construída tratada como Capela Interina da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, é benzida pelo presidente do mosteiro de São Bento, com assistência do vigário da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Campo depois Vila de Mogi Guaçu. Ato contínuo, os sacerdotes rezam a primeira missa oficiada por Frei Antônio de Pádua Teixeira. – Livro do Tombo página 2 da Igreja Nossa Senhora da Conceição Arquidiocese de Campinas.

Em 1774 – Acontece o primeiro batismo na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, do menino Domingos, filho de Domingos da Costa Machado e dona Maria Barbosa Rego, moradores em Mato Dentro, tendo como padrinhos Raimundo da Silva Prado, casado e morador na Vila de Jundiaí e dona Maria da Silva Leme, esposa de Gaspar de Godoi Castanho, moradores desta freguesia e por verdade assina o documento Frei Antônio de Pádua Teixeira. – Livro de Batismo Número 1 folha 2 da Igreja Nossa Senhora da Conceição Arquidiocese de Campinas.

Em 1789 – A queda da Bastilha, fortaleza medieval foi tomada pelo povo, inflamado por um discurso de Camille Desmoulins, jornalista totalmente desconhecido até aquele momento e por um boato de que a pólvora necessária para os 28.000 mosquetes e para os canhões tomados pela multidão estava na fortaleza que naquele momento abrigava somente sete presos. Fato central que fortalece os liberais e o povo francês para a realização da Revolução Francesa e a derrubada da monarquia absolutista. Este é o principal evento celebrado na França.

Em 1841 – Vem ao mundo, na fazenda Bomsucesso nas proximidades do Anhumas, o doutor Francisco Quirino dos Santos, um dos maiores nomes de Campinas no mundo jornalístico e na imprensa brasileira, literato, poeta, advogado brilhante, membro da Academia Brasileira de Letras.

Neste dia especial nada como relembrar as palavras do aniversariante:

“…À primeira missa! Imaginem que havia de ser um domingo — um domingo lindo e sereno — aquele solene alvorecer da festiva aldeia. A manhã, úmida ainda dos últimos beijos da noite, sacode o seu véu rórido sobre a copa dos arvoredos: chove, cai o orvalho, entre os botões sedentos, rasgando a escumilha translúcida, espalhada pelo inseto, galho a galho; brincam as aves mansas, nas moitas perto, os seus doidos codilhos, e ao sussurro das asas, volteia-se a flor à beira dos ninhos.

As crianças correm, saltam pelo terreiro, estalando os sons metálicos das suas risadas. Ai! loucura genial da primeira, da inocente idade | como me estás passando o coração de acerbas memorias! Vejo-te à sombra das florestas virgens, ao duvidoso clarão da fugitiva infância. Aí estas ainda a fechar em abraços lúbricos a fronte ingênua do senhorzinho, o seio ondulante da agregada, a face tinta do crioulo, quando renasces passageira, descuidada e meiga para as ocasiões da desobriga ou de outra qualquer cousa assim atrativa, assim filha dos cândidos costumes.

Mas chega, aflui a multidão já para a missa. É o honesto jaleco do queimado lavrador, o pai, que abre e enfia a marcha; é o flutuante lencinho escarlate da filha, que ensombra umas faces purpurejadas à faminta observação dos devotos; é o clássico e grave cabeção da mãe quarentona, roçagante vela que vai à bolina de dois sadios rapazes, enquanto a dona deles e dela meneia uns comprimentos mesurados às duas orlas de comadres concomitantes. Entram.”

Texto do Doutor Francisco Quirino dos Santos no jornal A Luz – Jornal Literário e Instrutivo – Redigido por F. A. Costa – Notícias Históricas – Volume I Publicado em partes no ano de 1872 -Tipografia e Redação da Luz – Rio de Janeiro.

Parabéns! Pelos seus 248 anos de sua primeira missa, Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso

Parabéns! Pelos seus 248 anos de sua ousadia monárquica Vila de São Carlos.

Parabéns!! Pelos seus 248 anos de sonho Republicano Cidade de Campinas.

Cidade dos meus filhos e de minha família recebe o meu sincero tributo de carinho, respeito e amor nesta especial data.

Salve 14 de julho de 2022! Salve Campinas!

 

 

O Monumento a Campos Salles e a espera pela Revolução de 1932.

O Passado não reconhece o seu lugar:
está sempre presente
Mario Quintana
1834-ou-acima--300x185 O Monumento a Campos Salles e a espera pela Revolução de 1932.
Praça Visconde de Indaiatuba

Largo do Rosário

Logo depois da morte do ilustre doutor Manuel Ferraz de Campos Salles, no seio da cidade de Campinas nasce um movimento liderado por políticos, pelos seguidores das ideias republicanas e amigos de Campos Salles com o propósito de marcar a cidade com uma homenagem ao campineiro e segundo presidente civil deste país.

Na gestão do prefeito, intendente nomeado, Orozimbo Maia e por iniciativa de projeto da Câmara Municipal de Campinas eram publicados na imprensa edital para a construção do monumento a Campos Salles. Edital, datado de 22 de fevereiro de 1930, assinado pelo secretário da Prefeitura, Amilar Alves.

Não podemos deixar de ressaltar a figura do secretário da prefeitura, Amilar Alves, homem do cinema, da cultura e que tão bem soube representar o Centro de Ciências, Letras e Artes, nas funções que ali exerceu.

Depois de vários adendos e modificações deste edital, se estabelece que os escultores concorrentes deveriam adotar um pseudônimo para sua maquete e enviar a documentação e suas propostas até as 14:00 horas do dia 20 de junho de 1930.

O julgamento para a escolha do escultor vencedor que iria realizar a construção deste monumento aconteceu no dia 10 de julho de 1930, conduzido por uma comissão composta dos vereadores Doutor Ernesto Kulmmann e Benedicto Cunha Campos e mais Perseu Leite de Barros, engenheiro civil que ingressara neste mesmo ano no serviço público como chefe de obras e viação. Completavam a comissão o arquiteto Alexandre de Albuquerque e os escultores Amadeu Zani e Marcelino Nellez.

A comissão reunida no “Salão do Fascio Italiano” localizado na Rua Barreto Leme, escolheu a maquete “Ephiteto”, do escultor Yolando Mallozi vencedora, obtendo assim o primeiro lugar e como segundo lugar a maquete “Semper Ut Quo-dam” do escultor Hugo Bertazzan do Rio de Janeiro, que recebeu o prêmio de 4.000$000 réis. As maquetes ficaram em exposição no “Salão do Fascio Italiano” para que todos pudessem apreciar a decisão apoiada e concorde do prefeito Orozimbo Maia, da comissão e todos os técnicos envolvidos no processo.

Três meses depois, deste concurso para a escolha do escultor do monumento, acontece a revolução de 1930, no dia 24 de outubro, que impõe a queda do governo de Washington Luís, exatamente vinte e um dias antes do término do período presidencial.

Júlio Prestes de Albuquerque, paulista de Itapetininga vencera as eleições de março de 1930 e aguardava para ser empossado, mas a deposição de Washington Luís e a instauração da junta governativa presidida pelo General Tasso Fragoso provocou uma espera na normalização do ambiente político.

A junta governativa exerceu a presidência até o dia 4 de novembro de 1930, data em que transferiu o governo para Getúlio Vargas, líder da revolução e do golpe. Júlio Prestes de Albuquerque foi impedido pelo governo de Getúlio Vargas de assumir a presidência, passando assim para a história como o único presidente eleito pelo voto popular que não foi empossado.

Apresentavam-se mais uma vez, as ideias de Campos Salles, vivas pela luta democrática e de libertação na qual o povo exerce o papel de senhor de todas as vontades, mas de forma geral acaba derrotado pelo despótico poder das armas e dos poderosos. O monumento esperava a homenagem do povo de Campinas.

Entre 1931 e 1932 os paulistas e principalmente os campineiros, esperavam de Getúlio Vargas a normalização do ambiente político, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a data para eleição presidencial.

No dia 23 de maio de 1932, em São Paulo, um ato cívico levou milhares de paulistas para a Praça do Patriarca, Rua Líbero Badaró, Praça da República, Ladeira de São João, Rua São Bento, Praça da Sé, Viaduto do Chá e rua Conselheiro Crispiniano para seguir em direção ao palácio do governo, onde se encontrava o novo interventor do governo paulista,  Pedro Manuel de Toledo.

O ato cívico reivindicava as eleições presidenciais e notícias da Constituinte. Na praça da República, esquina com Barão de Itapetininga estabelece-se um conflito entre o povo, a polícia e os membros da Legião Revolucionária. Neste conflito é metralhado o estudante Mario Martins de Almeida de 31 anos, Euclydes de Miragaia de 21 anos com um tiro no peito, Antonio Camargo Andrade por tiros disparado por populares e Dráuzio Marcondes de Sousa de 14 anos ferido por um tiro de Legionários. Os restos mortais destes mártires, estão hoje, sepultados no mausoléu do Obelisco do Ibirapuera.

Para quem passa nas imediações da Rua Guilherme de Almeida, no Cambuí, Campinas, pode notar uma rua curta, de uma quadra, denominada Rua MMDC. Este acrônimo construído pelas letras M de Mario, M de Miragaia, D de Drauzio e C de Camargo, se tornou sigla para a organização clandestina que iria conspirar e organizar a Revolução Constitucionalista que principiou em 9 de julho de 1932. Depois do conflito tornou-se uma sociedade sem fins lucrativos e de utilidade pública denominada “Sociedade Veteranos de 32 – MMDC”, hoje com sede no Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 32, conhecido como Obelisco do Ibirapuera desde 9 de dezembro de 2014.  O núcleo de Campinas funciona e atende na Rua General Osório, 490, nas antigas instalações dos escritórios da Mogiana.

Campinas se posicionou, daqui saíram soldados para combater tropas “getulistas” infiltradas e estacionadas nas cidades das linhas da Mogiana, da Paulista e no interior do estado de São Paulo. Eram desiguais as forças do governo de Getúlio e as tropas dos Paulistas dadas as desproporções do material bélico.

Campinas foi bombardeada pelos aviões vermelhos do governo, nos dias 18 e 24 de setembro de 1932.

O jornal o Estado de São Paulo que apoiava os soldados constitucionalistas, notícia o bombardeio do domingo, dia 18 de setembro:

“Prossegue com intensidade a luta no setor do Amparo. A situação das tropas constitucionalistas continua ser, naquele setor, muito boa. Um avião da ditadura voou hoje sobre a cidade de Campinas, jogando uma bomba, no pátio fronteiro da estação da Paulista, matando o menor Aldo Chiorato, de 9 anos de idade, filho de João Chiorato e ferindo gravemente o velho operário italiano Vicente Nome, cujo estado inspira cuidados, e um velho sírio. Também foi ferido, mas sem gravidade o funcionário da Mogiana, Isolino Monteiro. Passageiros de um bonde que na hora trafegava pelo local receberam também alguns ferimentos. Outra bomba foi lançada sobre a estação da Mogiana, sem causar danos e uma terceira caiu sobre uma residência particular da rua Campos Salles, destruindo parte do edifício. Os moradores estavam ausentes, as bombas eram grandes, de peso aproximado de 45 quilos.
À tarde, a aviação da ditadura voltou a bombardear Campinas, lançando contra aquela cidade cinco bombas. Duas caíram na Cadeia, ferindo vários presos, duas alcançaram o pátio da estação da Paulista, sem causar vítimas e a última estourou na Vila Industrial, que é habitada por operários, ferindo vários deles. Esse bombardeio desumano e sem nenhum objetivo militar, pois não visou lugares onde houvesse concentração de tropas ou fortificações, causou profunda indignação no povo campineiro.”
[1]

A repercussão da morte de Aldo Chioratto começou no dia 24 de setembro 1932, quando Raul Laranjeira, exímio violinista, premiado na Europa e que havia se incorporado ao “Batalhão Diocesano” sediado no Interior do Estado, se propõe a fazer assim que possível um concerto e reverter a renda para a família da criança de 9 anos.[2]

Nas comemorações de 23 de maio de 1966, “Dia da Juventude Constitucionalista” e quando das solenidades de transferência dos restos mortais de Aldo para o Obelisco do Ibirapuera, Guilherme de Almeida, de forma emocionado escreveu lindos versos no jornal Estado de São Paulo:

Vem de Campinas — a minha Campinas dos jequitibás — o herói criança – Aldo Chioratto – verde vergôntea da árvore velha que vergastada por vendaval manda a mensagem que eu adivinho e que em alguém por mim somente em épica língua é capaz de exprimir, o exprime assim:

Tu infante imolado, tenro caule,

de raríssima arvore cortado,

Muda plantada que ora aqui floresce.

Deixando lá, na cicatriz do cerne.

Promessa de altas florações futuras!”[3]

No dia 24 de setembro, o correspondente do Diário Nacional narra desta maneira o bombardeio em Campinas:

“Hoje, precisamente ás 12:25 horas, dois aviões da ditadura, voando por sobre Campinas, não demoraram a dar sinais de que em cumprimento nos seus monstruosos propósitos, vinham para hostilizar a cidade.
Para logo, entretanto, sumia das vistas do povo ansioso um dos sinistros mensageiros alados do crime e da irresponsabilidade, atocaiado como fera, numa das mais belas capitais do mundo…
Outro, porém, librando-se a uma altura, calculada, de 2.000 metros, aqui ficava a corvejar, ameaçadoramente.
Tivemos ocasião de observar, aos primeiros bufos dos aeroplanos, as precauções que à população toma a fim de se preservar, o mais possível, aos efeitos do bombardeio aéreo. Estamos na praça Bento Quirino. Ali está a estátua do Carlos Gomes, o gênio da harmonia brasileira, a afrontar impassível, simbólico, a fúria assassina dos “azes” ditatoriais. Mas, os transeuntes se recolhem à primeira porta que ainda encontram aberta. Todas as casas com as suas portas e janelas cerradas. Tudo, porém, sem correria, nem gritos, nem inúteis gestos desordenados. Opressos e indignados, os campineiros esperam estoicamente a vil agressão dos ícaros infernais.
Os céus, pejados de nuvens escuras, como que envolvem numa proteção tenebrosa a ronda dos malditos bombardeadores de mulheres, velhos, crianças e enfermos.
Do repente, o primeiro assovio e o primeiro estrondo: é o traiçoeiro delírio de matar, de destruir, de arrasar! Ao emergir do bojo negro de uma nuvem, lá despejara o aviador inimigo o seu cartão de visita, certamente decorado com os brasões do “Clube 3 de Outubro”…
E, as negaças! E as evoluções! E o ir o vir desse pássaro da morte, e seus arrabaldes: cinco dos quais em pleno perímetro urbano, em um raio de 500 metros, pouco mais ou menos, no derredor da estação da Paulista.
Os petardos atirados fora do perímetro urbano não causaram estragos nenhum. Dos que atingiram as imediações da gare ferroviária, três vieram explodir à travessa Monte-Mór, na Villa Industrial, duas das quais em meio da rua, razão pela qual não provocaram estragos nem vítimas. A terceira, porém, veio rebentar em cheio no prédio número 74 daquela travessa, aluindo-o quase totalmente.
Não fora a precaução de seus moradores, que são o senhor Antolin Fernandez, maquinista da Mogiana, e sua mulher, e teríamos a lamentar, sem dúvida, vítimas pessoais. Apesar de encontrar-se no próprio domicílio, o senhor Antolin escapou aos terríveis efeitos da bomba de modo verdadeiramente providencial: metera-se por debaixo de uma mesa, que resistiu a compressão do telhado e paredes desmoronados. Quanto à esposa do maquinista, esta se havia retirado para casa de uma família vizinha à aproximação dos aviões inimigos…
Duas outras bombas, explodindo em meio da rua 24 de Maio, também na Vila Industrial, não fizeram vítimas pessoais nem estragos materiais de monta.
Eis a obra dos outubristas, a quem o demônio emprestou suas asas!
Não deixemos de assinalar, ainda, o alcance de mais este fato, determinado pelo desumano bombardeio de Campinas: à hora em que ele se verificou, hoje, a estação da Paulista se achava repleta de famílias inteiras e civis de todas as qualificações sociais, à espera do trem que os conduziria para São Paulo.[4]

Oito dias depois deste evento em uma negociação na cidade de Cruzeiro, em 2 de outubro de 1932, aconteceu o final do conflito com o armistício assinado pelo General Pedro de Aurélio Góis Monteiro.

Foi então, designado um interventor para o estado de São Paulo, o general Valdomiro Castilho de Lima.

Em Campinas, no sábado, dia 18 de agosto de 1934, o prefeito nomeado Perseu Leite de Barros, se prepara para a grande inauguração do monumento a Campos Salles e o interventor nomeado por Getúlio Vargas, o engenheiro Armando de Sales Oliveira, resolve aproveitar-se deste evento para reconciliar mais uma vez a alma campineira e paulista com o governo central do Brasil.

Os jornais anunciaram com bastante antecedência a programação da vinda do interventor para Campinas. Mas o fato é que Campos Salles foi esquecido nesta inauguração, que teve diversos outros campineiros enaltecidos como Fernão Salles, Joaquim Bonifácio do Amaral, além de politicamente o interventor utilizar a inauguração para prestar contas de um ano do seu governo no Estado de São Paulo.

O Interventor Armando de Sales Oliveira anuncia previamente pelos jornais a agenda sua em Campinas:

  • Partida pela manhã da estação da Luz em trem especial.
  • Chegada a Jundiaí com salva de 21 tiros de morteiro e partida anunciada para Campinas com 1 tiro de morteiro.
  • Em Jundiaí esperarão o Interventor os senhores, Doutor Horácio Antonio da Costa, Doutor Theodureto de Camargo, Doutor Sylvino de Godoy, Claudio Celestino Soares, Aníbal de Freitas, professor José Villagelin Netto, membros do diretório local do Partido Constitucionalista.
  • O tenente coronel Tenório de Brito comandante do 8° Batalhão de Polícia de Campinas prestará ao Interventor as continências de estilo acompanhado do corpo discente das escolas, casas de ensino e associações.
  • Às 13:00 horas após a chegada, o Interventor e sua comitiva caminharão até o Largo do Rosário – Praça Visconde de Indaiatuba, passando pelas ruas 13 de maio, Francisco Glicério, Conceição e Barão de Jaguara.
  • No largo do Rosário, Armando de Salles Oliveira fará a entrega do monumento a Campos Salles, ocasião em que discursarão Carlos Francisco de Paula pela municipalidade, doutor José Pereira da Cunha pelo Centro de Ciências Letras e Artes e em nome da família de Campos Salles o doutor Luiz Pizza Sobrinho.
  • Três aviões “Corsário” do exército, um de passageiros da Vasp e um planador do Aeroclube de São Paulo voarão sobre a praça atirando flores.
  • No Centro de Ciências, Letras e Artes estarão expostas as relíquias de Campos Salles pertencentes ao Museu daquela agremiação.
  • Das 14:40 às 15:40 recepção na Prefeitura Municipal, onde o Interventor será homenageado pelo Presidente do Conselho Municipal, doutor Carlos Stevenson.
  • Visita a Escola Normal e Escola Profissionalizante Bento Quirino onde  farão uso das palavras os professores José Villagelin Netto e José Minervino. Na Escola Profissionalizante Bento Quirino serão inauguradas as oficinas de fundição.
  • Visita ao Centro de Ciências Letras e Artes onde discursará o professor Nelson Omegna.
  • Às 20:30 no Teatro Municipal acontecerá um banquete para 500 talheres oferecido pelo Partido Constitucionalista, que reservará ao Doutor Paulo de Castro Pupo Nogueira o discurso de saudação  ao Interventor e sua comitiva, assim como será reservado tempo para o discurso do representante do 6º Distrito Eleitoral Doutor Antenor Candra.
  • Após o banquete,  um grandioso baile será oferecido  pela Sociedade Campineira ao Interventor e sua comitiva.[5]

O monumento a Campos Salles, não ficaria no largo do Rosário, compartilhando a praça Visconde de Indaiatuba com o povo de Campinas por muito tempo. Com a publicação da Lei 1457 de abril de 1956, inicia-se o alargamento da Francisco Glicério, a demolição da Igreja do Rosário e sua reconstrução no bairro do Castelo e um concurso para fazer da praça Visconde de Indaiatuba um centro Cívico, um local oficial para manifestações de civismo aberto à comunidade campineira. Foi eleito o projeto do arquiteto campineiro Renato Righetto, que trazia uma nova e moderna concepção, onde não haveria espaço para o monumento.

O Monumento foi retirado da praça, mutilado, pois perdeu sua base de granito, o que valeu um rebaixo de mais de um metro de altura e acabou sendo transferido para um espaço menor do que o local onde estava assentado. Uma rotatória nas confluências da Rua Onze de Agosto, Avenida dos Expedicionários e Avenida Campos Salles.

A transferência gerou discussão na imprensa e na sociedade campineira e ocasionou até ação judicial em fevereiro de 1960 por parte do escultor Yolando Mallozi, que pediu reparação pela retirada da base do monumento. Processo em que o escultor do monumento teve ganho de causa e mesmo assim o monumento permaneceu no mesmo lugar, contrariando a decisão judicial. [6]

A revolução de 1932 terminou, Campinas teve o seu monumento, se aliou ao progresso desmedido das grandes metrópoles e a escultura do personagem Campos Salles sentado ao pé da estação, vai dia a dia sendo esquecida e o seu nome desconhecido em sua própria terra.

[1] Jornal O Estado de São Paulo Edição 19287 de 19 de setembro de 1932 página 1
[2] Jornal O Estado de São Paulo Edição 19292 de 24 de setembro de 1932 página 2
[3] Jornal o Estado de São Paulo Edição 27943 de 24 de maio de 1966 página 2
[4] Jornal Diário Nacional Edição 01579 de 25 de setembro de 1932 páginas 1 e 3
[5] Jornal Correio de São Paulo Edição 00676 de 17 de Agosto de 1934 página 2
[6] De Casaca ao Pé da Estação – História do Monumento a Campos Salles – Dissertação de Mestrado de apresentada por Ana Rita Uhle no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas.