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A Revista do Brasil

Capa-Media-202x300 A Revista do Brasil

Venho de um grato colóquio com as cousas do nosso passado.
Na retina se me estampam ainda a alvura das capelinhas
montanhesas, entre o anil do céu e o verde das frondes,
o porte simbólico dos cruzeiros, a pedra corrida dos velhos
chafarizes, os muros negros, as arvores anciãs. Por algum
tempo, curto em dias, mas longo em meditação e saudade,
conversei as sombras dos nossos mortos nas ruínas das nossas
paisagens. E se ouso agora tomar da pena, é porque deles,
dos nossos mortos amados, ouvi uma longa queixa sentida
contra o desamparo em que os deixam os brasileiros de hoje.
É a voz das mortas gerações que fala por minha voz; a voz
dos homens que primeiro desbravaram o terreno nacional,
a dos que primeiro assentaram a pedra angular da nossa pátria.
Acorrei, filhos ingratos desta Terra: vinde ouvir a lamentação
das ruínas!

Alceu de Amoroso Lima

Pelo Passado Nacional

Revista do Brasil Volume III Ano I Número 9 página 1
Publicação Mensal de Ciências Letras, Artes História e Atualidades
Redação e Administração de uma Sociedade Anônima – outubro de 1918

Alguns de meus amigos exercem um poder extraordinário, embora eles próprios o ignorem. É o poder de despertar meus neurônios para o ofício da escrita. Posso afirmar que muitos dos meus trabalhos nascem justamente dos questionamentos e das dúvidas que eles lançam sobre o meu intelecto, como sementes silenciosas.

Há alguns dias, ao discorrer sobre a longevidade da Revista da Biblioteca Mário de Andrade, originalmente conhecida como Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal de São Paulo, fui levado, quase sem perceber, a revisitar antigos manuscritos. Esse gesto me fez mergulhar em meu próprio universo histórico, especialmente aquele ligado à cidade de Campinas. Ali, entre papéis esquecidos e memórias adormecidas, repousava, discreta e silenciosa, a Revista do Brasil, aguardando o momento de novamente ser lida e lembrada.

O leitor talvez se pergunte o que a Revista do Brasil tem a ver com a cidade de Campinas, com a Revista da Biblioteca Mário de Andrade ou mesmo com esses amigos que atravessam silenciosamente estas linhas. Confesso que talvez não consiga responder a todos esses questionamentos de modo plenamente satisfatório. Ainda assim, apresento duas razões que servem como justificativa para o percurso que ora empreendo.

A primeira diz respeito à origem da Revista do Brasil, idealizada pelo jornalista, político, advogado e empresário Júlio César Ferreira de Mesquita. Campineiro de nascimento e, paradoxalmente, pouco reconhecido por sua própria cidade, Júlio de Mesquita foi amplamente cultuado no estado de São Paulo e no Brasil. Não raras vezes, contudo, seu nome e seus feitos foram confundidos ou atribuídos de forma equivocada ao de seu filho, Júlio de Mesquita Filho, como se a memória coletiva insistisse em deslocar o mérito de seu ponto inaugural.

Quando escrevi o livro Freguesia, Vila e Cidade de uma Campinas Velha, deparei-me com um enorme desafio para encontrar dados e referências relativos ao Coronel Joaquim Quirino dos Santos. Diante da grande escassez de fontes, só consegui escrever o capítulo 11 com o auxílio do magnífico artigo publicado na Revista do Centro de Ciências e Letras, número 54, de 30 de setembro de 1916, que reproduzira o texto de Júlio de Mesquita escrito em 16 de março de 1899.

Não hesitei, portanto, em intitular esse capítulo O Coronel Quirino dos Santos e Júlio de Mesquita, pois foi justamente nesse percurso de pesquisa que se revelou um aspecto até então pouco conhecido: a sólida relação de amizade que unia Júlio de Mesquita a Leopoldo Amaral, elo significativo para a compreensão das redes intelectuais e afetivas da Campinas daquele tempo.

A segunda razão repousa no tempo, elemento que, mais do que registrar datas, molda permanências e esquecimentos. A Revista do Brasil circulou inicialmente entre 1916 e 1918 como iniciativa de uma sociedade anônima. De maio de 1918 a 1925, passou a constituir-se como empresa adquirida por Monteiro Lobato, período em que acolheu colaborações de nomes centrais do modernismo brasileiro, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade.

Em setembro de 1925, a revista passou às mãos de Assis Chateaubriand, que transferiu sua publicação para o Rio de Janeiro, onde circulou até janeiro de 1927. Relançada em 1938, novamente sob a direção de Chateaubriand, manteve-se ativa até 1943. No ano seguinte, alguns poucos números ainda vieram à luz sob a direção de Frederico Chateaubriand, tendo Millôr Fernandes na secretaria, como um último sopro editorial.

Após um silêncio de quatro décadas, a Revista do Brasil ressurgiu por iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e da RIOARTE, que publicaram doze números entre 1984 e 1990, gesto tardio, mas significativo, de reafirmação de sua permanência na memória cultural brasileira.

A Revista do Brasil nasceu em 25 de janeiro de 1916, data emblemática por homenagear o aniversário da cidade de São Paulo, muito antes do surgimento do Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal de São Paulo, lançado em 1943, publicação que mais tarde se transformaria na Revista da Biblioteca Mário de Andrade. Este último periódico habita a biblioteca de um amigo querido, cuja bagagem cultural e influência na cidade de Campinas são tamanhas que, por respeito e afabilidade, prefiro não evocar diretamente seu nome neste artigo. Assim, ele permanece presente apenas como uma sombra benigna, dessas que acompanham a memória sem jamais se impor.

São inúmeros os trabalhos que se dedicam à história da cultura brasileira e, inevitavelmente, ao papel cultural e literário da Revista do Brasil, publicação que traz em seu bojo um conteúdo excepcional, atravessado por reflexões sobre política, filosofia, história, religião e direito. Trata-se de um periódico mensal que, em sua fase inicial, procurou retratar o panorama de um Brasil imerso em um clima pré-moderno, tal como se apresentava à sociedade de então.

Em meados de 1915, quando o mundo já se encontrava imerso na Primeira Guerra Mundial, Júlio de Mesquita, vereador em Campinas no ano de 1887, deputado federal por São Paulo em 1892, deputado estadual nos anos de 1891, 1894, 1898, 1907 e 1910, e senador por São Paulo em 1912, passa a organizar um novo periódico, inicialmente concebido para se intitular Cultura.

Aos 54 anos, Júlio de Mesquita já havia experimentado não poucos dissabores com a chamada Velha República, regime que ajudara a construir ao lado de figuras como Campos Salles, Bento Quirino dos Santos, Francisco Glicério, Rangel Pestana, entre tantos outros. Ainda assim, não perdera a fleuma nem o espírito de liberal constitucional, profundamente comprometido com a liberdade de imprensa. É nesse contexto que decide convocar, em seu escritório no jornal O Estado de São Paulo, dois colaboradores de confiança, aos quais atribui a missão de fundar a revista: Luís Pereira Barreto, seu advogado, e José Martins Pinheiro Júnior, secretário, advogado e jornalista.

Coube a Luís Pereira Barreto a tarefa de recrutar os colaboradores do novo periódico, tarefa que resultou na reunião de algumas das mentes mais expressivas da intelectualidade brasileira daquele momento. Entre elas figuravam Olavo Bilac, Graça Aranha, Alcides Maya, Alfredo Valadão, João Kopke, Félix Pacheco, José Veríssimo, Nestor Victor, Roquette-Pinto, Oliveira Vianna, João Ribeiro, Assis Brasil, Oliveira Lima, Sílvio de Almeida, Basílio de Magalhães, Valdomiro Silveira, Medeiros e Albuquerque, Alceu Amoroso Lima, entre muitos outros que a memória talvez não consiga aqui abarcar por completo.

A José Martins Pinheiro Júnior coube a árdua missão de angariar acionistas para a revista. Uma tarefa especialmente difícil diante do cenário econômico adverso e do clima de instabilidade imposto pela guerra que assolava o mundo. Quando, finalmente, a primeira edição veio a público, em 25 de janeiro de 1916, nela foram nomeados os acionistas: médicos, engenheiros, professores, advogados, políticos e até jornalistas.

Entre eles figurava o filho de Júlio de Mesquita, então estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que, no futuro, emprestaria seu nome a uma das maiores universidades públicas do Brasil: a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, hoje amplamente conhecida como Unesp.

Imprescindível dizer que a Primeira Guerra Mundial acendeu o estopim nacionalista de defesa da Pátria e que, já em 1915, o poeta Olavo Bilac desencadeara uma acirrada campanha em favor do serviço militar obrigatório, concebido não apenas como instrumento de proteção nacional, mas, sobretudo, como escola de civismo e formação moral da juventude brasileira.

Diante desse contexto e, provavelmente, sob o contágio da atmosfera nacionalista, decidiu-se abandonar o primitivo nome Cultura e adotar o título Revista do Brasil.

No primeiro número da revista, seus objetivos são delineados de forma clara:

O que há por traz do título desta Revista e dos nomes que a patrocinam é uma coisa simples e imensa: o desejo, a deliberação, a vontade firme de constituir um núcleo de propaganda nacionalista. Ainda não somos uma nação que se conheça, que se estime, que se baste, ou, com mais acerto, somos uma nação que ainda não teve o ânimo de romper sozinha para a frente numa projeção vigorosa e fulgurante da sua personalidade. Vivemos desde que existimos como nação, quer no Império quer na República, sob a tutela direta ou indireta, senão política ao menos moral do estrangeiro. Pensamos pela cabeça do estrangeiro, vestimo-nos pelo alfaiate estrangeiro, comemos pela cozinha estrangeira e, para coroar essa obra de servilismo coletivo, calamos, em nossa, pátria, muitas vezes, dentro dos nossos lares, a língua materna para falar a língua do estrangeiro.

Revista do Brasil Volume I Ano I Número 1 página 2
Publicação de Mensal Ciências Letras, Artes História e Atualidades
Redação e Administração de uma Sociedade Anônima – janeiro de 1916

O grupo fundador da revista, composto por mais de cinquenta sócios, foi relacionado no primeiro número da publicação e manteve-se assim até maio de 1918, quando a sociedade se desfez diante de uma proposta de compra apresentada por Monteiro Lobato, que então se tornou o proprietário único da revista.

Hoje, ao presenciar as inúmeras discussões em torno de temas ainda tão polêmicos, como a escola cívico-militar, o serviço militar obrigatório, os direitos e as ameaças ao exercício da soberania nacional, o direito ao voto, a moralização da política, a língua e a cultura próprias, torna-se de importância quase obrigatória conhecer um pouco do que fomos culturalmente e do que desejamos ser, no futuro, enquanto nação.

Deixo, assim, um convite aos amigos que, no século XXI, navegam com senso crítico apurado pelo universo cultural e literário: que se aventurem pelas dezenas de volumes da Revista do Brasil, compostos por quatro ou cinco números, com média de noventa e cinco páginas cada, para reencontrar uma época que ajudou a construir, no plano intelectual, a identidade de um país e de uma nação hoje quase esquecidos pelas novas gerações.

O respeito à arte e ao artista

O  RESPEITO À ARTE E AO ARTISTA.

Oleiro-e-Poeta-peq-200x300 O respeito à arte e ao artista

Viver em uma sociedade onde o respeito tornou-se um valor desprezível — especialmente para grande parte da geração moderna — sempre me trouxe certa dificuldade para compreender o mundo atual.

Até que, de repente, reencontro um conto de minha juventude, criado pelo professor Júlio César de Mello e Souza, presente no pequeno livro de 206 páginas intitulado Malba Tahan – Os Melhores Contos, publicado pela Editora Record, contendo 28 histórias assinadas pelo pseudônimo “Malba Tahan”.

Para situar o leitor, faço um breve resumo das páginas 93 a 96 da obra mencionada, que, sem pretensão alguma, trouxe-me uma visão renovada e suavizou o ranço conservador que costuma habitar homens de idade como eu.

Vamos ao resumo da ópera:

Em certo lugar fictício do mundo árabe, numa rua de uma pequena vila, o oleiro Nagib e o poeta Fauzi discutem acaloradamente, chamando a atenção dos moradores. Diante da confusão, a autoridade local decide levá-los ao juiz para solucionar a desavença.

O oleiro explica que estava trabalhando, moldando seus vasos, alheio aos movimentos da rua, quando o poeta, que por ali passava, atirou uma pedra e quebrou uma de suas peças. Indignado, Nagib exigia reparação em forma de indenização.

O poeta, porém, apresenta outra versão. Ao passar pelo ateliê de Nagib, Fauzi escutava o oleiro recitar um de seus poemas de forma totalmente equivocada: mutilava os versos e descaracterizava completamente sua criação. Por três dias consecutivos, Fauzi o corrigiu pacientemente e com delicadeza. Quando estava presente, o oleiro declamava o poema de forma correta e agradável ao seu criador.

Naquele dia, porém, sentindo-se insultado pela declamação errada e vulgar que Nagib fazia de sua obra, o poeta decidiu atirar uma pedra e quebrar o vaso como uma “resposta simbólica”. Se o oleiro quebrava e mutilava sua poesia, ele, o poeta, quebraria a cerâmica de Nagib.

O juiz, com sabedoria e senso de justiça, determina que Nagib produza um vaso perfeito, com espaço suficiente para receber alguns versos do poema de Fauzi. Decide também que a peça seja vendida em leilão e que o valor arrecadado seja dividido igualmente entre o oleiro e o poeta. Em sua síntese, conclui: “O poeta é o oleiro da frase, e o oleiro é o poeta da cerâmica.”

Segundo o conto, a história rapidamente se espalha pelo vilarejo. O sucesso da solução proposta leva os dois a colaborarem na criação de novas peças, fortalecendo uma amizade sincera e despertando admiração mútua entre os dois artistas.

Vivemos em uma sociedade não muito diferente da narrada por Malba Tahan. São inúmeras as pessoas com as características de Nagib, o oleiro — dotadas de admiração pela arte, mas sem domínio da linguagem poética. Em geral, são apreciadores da pintura, da música, das letras; contudo, ofendem-nas inadvertidamente, distorcendo-as e, por vezes, travestindo-se de puerilidade, desenvolvendo atitudes grotescas na imitação ou cópia dos entornos culturais. Percebem pouco o valor das figuras artísticas do passado ou do presente, ainda que apreciem suas obras. Por conseguinte, são dotados de uma verve artística prática, quase sempre ligada à matéria, ao concreto.

Em contrapartida, encontramos constantemente os Fauzi — poetas, artistas sensíveis, vaidosos, perfeccionistas, guiados pelo emocional, profundamente irritados ao ver sua obra desfigurada ou mutilada, pois a consideram perfeita e sagrada. Com senso crítico mais exacerbado que o normal, podem transfigurar seu desagrado com críticas ou imperfeições na execução ou análise de suas obras em atos de violência simbólica, como forma de protesto. Vivem no campo das ideias e da sensibilidade, dotados da capacidade artística das letras e das artes, buscando incessantemente a manutenção da autoria e da fidelidade estética.

Hora ou outra, surgem conflitos entre esses dois tipos de artistas. Gênios da criação que nada recebem por sua produção, mas que invariavelmente enriquecem atravessadores e negociantes da arte. Artistas populares que dependem dos favores do governo, enquanto muitos outros, já famosos, disputam enormes fatias do orçamento público, retornando migalhas para a nação. E o entretenimento digital, por sua vez, vive da monetização que muitas vezes abocanha direitos reservados de seus criadores.

É lamentável nossa realidade, que não dispõe de um Cádi (juiz) como o descrito por Malba Tahan no pequeno vilarejo de sua narrativa.

No mundo dos sonhos criados pelo autor, o juiz é sábio, equilibrado, justo, ponderado, conciliador e humanista. Tem a capacidade de escutar os dois lados sem tomar partido precipitado e consegue enxergar, além do conflito material, a falta de respeito mútuo entre os artistas.

Que inveja desse lugar perfeito! É fácil imaginar ali uma solução criativa que transforma o conflito em harmonia social e cooperação. E fechar o julgamento com um digno chavão de ouro: “O poeta é o oleiro da frase, e o oleiro é o poeta da cerâmica.” Cada artista tem seu dom; nenhum é superior ao outro.

Mas nossa realidade não é assim. A sociedade moderna conta com um acesso irrestrito às letras e às artes, mas ainda não demonstra o devido respeito ao valioso acervo cultural — seja nos museus virtuais e presenciais, seja nos meios fluidos da música, das artes visuais, do cinema, da literatura e do design, cada vez mais impulsionados pela tecnologia digital.

Há uma desigualdade crescente nos meios literários, onde a criação veste neologismos e deforma a língua nacional, enquanto o pensamento crítico é desvalorizado em troca de entretenimento e jogos que desviam o compromisso com a realidade.

A leitura profunda e o engajamento crítico são prejudicados pela influência de conteúdos digitais rápidos, o que enfraquece a capacidade de reflexão e diminui o espaço para obras mais densas e complexas. Ao mesmo tempo, embora a arte se torne mais acessível e diversificada, muitos artistas enfrentam precarização, falta de apoio estrutural e competição desleal com algoritmos e plataformas que privilegiam o consumo massivo em detrimento da qualidade estética. Esses conflitos revelam tensões entre a popularização das letras e das artes e a superficialidade artística, entre a inovação cultural e a instabilidade social — o que aponta para a necessidade urgente de políticas culturais, educativas e tecnológicas que valorizem a criação crítica, o trabalho artístico e a formação de um público capaz de apreciar e sustentar produções mais profundas e transformadoras.

Ao final de minha reflexão, resta a pergunta:

“Como será que Júlio César de Mello e Souza, criador de Malba Tahan — professor, pedagogo, incentivador do estudo da matemática e grande escritor de romances infantojuvenis — veria este momento histórico digital de nossa sociedade moderna?”

A escolha pelo fanatismo.

Discussao-300x200 A escolha pelo fanatismo.“O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado”
Jean-Jacques Rousseau  –  O Contrato Social

 Tenho observado, nas conversas entre amigos, nas reuniões familiares e na mídia, confrontos verbais profundamente preocupantes.

A violência física, amplamente divulgada pela mídia e que presencio em tempo real, provoca uma cegueira coletiva, acostumando o espectador a aceitar injustiças e posições imorais ou desumanas que não se justificam pelos valores sociais

A compaixão, o respeito pelo outro e a consideração pelo ser humano parecem estar em declínio. A guerra do “nós contra eles” transformou-se em um campo de batalha, cujo objetivo é a destruição do inimigo: ora por intimidação, ora por ameaças, e, em casos extremos, por agressões físicas. Justificam-se facadas, assassinatos frios e premeditados, planejados por snipers em telhados, e tantas outras estratégias maquiavélicas, com o intuito de eliminar o opositor, frequentemente reduzido à caricatura da maldade.

Podemos creditar aos políticos e à política uma nova dimensão do fanatismo, que se manifesta como instrumento de extremistas. A política tornou-se o lugar privilegiado onde o fanatismo se expressa. Não há grande diferença entre o fanático que tenta “eliminar” seu oponente político e aqueles que cometem atos de violência extrema, como a corja que ateia fogo a um pobre morador de rua.

O fanático se retrata como um herói, comprometido em livrar o mundo daqueles que considera parasitas. O fanático político que recorre à violência compartilha a mesma face do incendiário: ambos justificam atos cruéis em nome de uma suposta missão moral.

A palavra “cancelar” passou a carregar novos sentidos. Originalmente, referia-se a atos concretos, como anular um contrato, suspender um voo, riscar ou apagar algo previamente registrado. Hoje, o termo abrange desde a simples rejeição de uma marca ou ideia associada a um adversário até ações destinadas a calar, perseguir e, em casos extremos, agredir ou até matar.

Para compreender esse fenômeno, precisamos ultrapassar a visão binária que divide o mundo em preto e branco — cara ou coroa — como se a vida fosse um experimento de Bernoulli, em que a moeda tem 50% de chance de cair “cara” e 50% de cair “coroa”.

Esse olhar simplista alimenta o fanatismo que não admite as infinitas posições que possa existir entre dois polos. É como assumir que entre 1 e 2 não exista nenhum outro número: só há o certo e o errado, e o “nós” detém sempre a razão, legitimando à execração do “eles”.

Diante desse cenário, reservo-me o direito de não assumir posições que me coloquem entre o “nós” e o “eles”, em razão da minha rejeição ao fanatismo dos políticos atuais. Ao mesmo tempo, reconheço os cegos na condução de outros cegos, diante da evidente falta de liderança que enfrentamos hoje.

Não perco a esperança. Assim como Jean-Jacques Rousseau, defendo uma sociedade que valorize a inclusão e a participação direta dos cidadãos na construção democrática, respeitando o indivíduo independentemente de seu grau de instrução ou poder econômico. Acredito na igualdade perante a lei e na primazia do bem comum sobre interesses individuais. Para mim, a legitimidade política nasce do acordo coletivo e do compromisso com a vontade geral, onde a vontade do povo é soberana.

Sei que, pelo olhar do rotulador compulsivo ou da pessoa estereotipada, serei colocado na caixa dos “isentões”. No entanto, como disse acima, prefiro manter o equilíbrio e tentativa de justiça a abraçar um dos lados do fanatismo.

Afinal, quem abraça jacaré morre afogado. Mesmo que ele esteja travestido de honestidade, boas intenções ou falsamente do lado da vontade popular, prefiro deixá-lo tomando banho de sol, à espera da presa correta para sua sobrevivência predatória ou do extermínio pelas mãos de um caçador ambicioso.

Genaro Campoy Scriptore
22 de setembro de 2025

Machado de Assis e o Pretexto dos Tempos

 

 

Machado-de-Assis-Mod-221x300 Machado de Assis e o Pretexto dos Tempos
Machado de Assis

Soberania, retórica e a falta de contexto

Quando uma citação literária serve mais à retórica do que à razão, a verdade corre o risco de ser sequestrada pelo sofisma.

Hora ou outra, um desavisado qualquer — desses que se vestem de erudição para disfarçar o vazio — recorre a uma frase, ou mesmo a um texto de Machado de Assis, para justificar seus sofismas e dar verniz de profundidade a uma posição desconectada da realidade. Foi o que ocorreu recentemente, quando um ministro do Supremo Tribunal Federal utilizou uma frase de Machado de Assis, para justificar medidas cautelares contra um ex-presidente da República.

A frase, retirada de uma crônica assinada por Machado sob o pseudônimo de “Manassés”, e publicada em 1º de agosto de 1876 no periódico Ilustração Brasileira, dizia:

“A soberania nacional é a coisa mais bela do mundo, com a condição de ser soberania e de ser nacional.

Bela, sem dúvida. Mas mais bela ainda quando compreendida em seu contexto.

Lembrei-me, nesse momento, de uma lição que ouvi ainda criança. Meu pai, homem simples, profundamente religioso, gostava de repetir:

“Texto fora do contexto vira pretexto.”

Essa frase, aparentemente singela, me guiou por muitos anos — e ajuda a iluminar o mau uso da citação. O texto de “Manassés”, na verdade, era uma crônica de forte crítica ao processo eleitoral do Império. Logo nas primeiras linhas, Machado de Assis é contundente:

“Agora, o que é ainda mais grave que tudo, é a eleição, que a esta hora se começa a manipular em todo este vasto império.”

Mais adiante, com ironia refinada, o autor observa que nem mesmo haverá eleições na Corte e em Niterói — substituindo o pleito por um “relâche par ordre”, expressão francesa usada no teatro para indicar o cancelamento do espetáculo por ordem superior. As eleições, diz ele, não passam de peças mal encenadas, ora suspensas, ora manipuladas, com poucos distritos efetivamente participando do processo. Era, pois, uma denúncia da precariedade institucional do tempo.

A frase sobre a “soberania nacional” surge nesse exato contexto: uma ironia crítica ao abismo entre o ideal e o real. O conceito de soberania é apresentado como nobre desde que seja de fato soberania — ou seja, expressão autêntica da vontade popular — e desde que seja nacional, não servil a interesses escusos. Quando uma dessas condições falha, o que se tem é uma caricatura da soberania — um poder ilegítimo travestido de legalidade.

Machado de Assis encerra a crônica comparando o espetáculo eleitoral a uma ópera mal ensaiada, com músicos desafinados e atores inábeis. Por isso, diz ele, os “artistas” do processo eleitoral se retiram para o interior, onde o público, com menos repertório crítico, pode aplaudi-los — não por mérito, mas por falta de compreensão do enredo.

Essa analogia serve com precisão à reflexão que proponho: quando autoridades recorrem à literatura para ornamentar decisões, é preciso que o uso do texto seja honesto com seu sentido original. Citar Machado de Assis como se fosse um panfleto de defesa institucional não apenas distorce seu pensamento, como o transforma em caricatura de si mesmo.

Vivemos tempos em que o excesso de retórica ameaça eclipsar a substância. Em nome da erudição, se desrespeita o texto. Em nome da autoridade, se manipula o autor.

Machado de Assis, mestre do subentendido, talvez dissesse, com o sarcasmo habitual, que os verdadeiros músicos do teatro político atual ainda desafinam demais para merecer aplausos.

Direita, Centro ou Esquerda

Direita-ou-EsquerdaFoto01 Direita, Centro ou Esquerda

Foto Google Maps em 20 de setembro de 2020

 

Se as coisas são inatingíveis… ora!
não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

Mario Quintana
Livro Espelho Mágico – Das Utopias

Para aqueles que se acham orgulhosos de suas posições políticas, e de como se envaidecem com o fato de ser de direita ou esquerda, a pesquisa e estudo seria de grande valia para entender um pouco mais sobre o significado de tais posições, que são herança de discussões acirradas na busca de reconhecimento social, da liberdade de expressão, liberdade política e de participação democrática.
Na monarquia parlamentarista inglesa, na Assembleia Nacional Francesa, na Assembleia das Cortes Portuguesas e em todos locais onde funcionavam as discussões políticas, por tendência de aglutinação, debatedores se posicionavam a direita ou a esquerda do ponto central que atuava na presidência da mediação.
De um lado, aglutinavam-se os debatedores com perfis conservadores, características daqueles que defendiam as ordens instituídas preservando os ritos e costumes históricos já adquiridos nacionalmente. De outro lado os perfis liberais, características daqueles que defendiam novas ideias que estabelecessem novos e modernos ritos para serem absorvidos nacionalmente.
Tais posições poderiam ser encontradas tanto a esquerda ou direita da presidência da mediação.
Para um observador mais apurado, das reuniões sociais dos dias de hoje, confirmaria atentamente que sempre teremos grupos ou pessoas unidos a direita ou a esquerda de alguém, ou de uma mesa central que de alguma maneira ocupará uma posição mediadora, por um determinado tempo. Não é raro verificar que muitos, nestas reuniões, passam da esquerda para direita com bastante frequência, enquanto outros não arredam pé de sua posição nem para buscar comida ou bebida.
Independente das ideologias da esquerda ou direita a verdade é que sempre teremos estes que tendem a ser conciliadores, geralmente aqueles que passam da esquerda para a direita recolhendo subsídios para definir sua posição, ou seja, buscando identificação para se fixar nos grupos da direita ou da esquerda.
Democracia não é só um regime político que tem origem na eleição de representantes do povo, elegíveis para o seu governo, mas sim na prerrogativa de conceder o direito de participar nestas reuniões de forma livre conferindo passe, convite, ou até mesmo uma senha para podermos ingressar em evento social, fixando-nos a direita, a esquerda ou passeando entre os dois.
O espírito conservador não está somente na defesa do direito de propriedade, ao uso de arma de fogo ou a um governo executivo centralizado e poderoso, que possa extinguir o Senado, a Câmara e o Supremo Tribunal Federal, apoiado por forças militares, como em um passe de mágica. Esta sim, no espírito de quem manifesta claramente a defesa ao estado de direito e na garantia dos três poderes igualmente balanceados (Executivo, Legislativo e Judiciário), no combate da impunidade e corrupção, na defesa de soluções que aumentem ainda mais a representatividade da vontade popular e o respeito às autoridades constituídas.
O espírito liberal ou progressista não está somente na desregulamentação do mercado, na criação de mecanismos que subvertem leis estabelecidas para atender demandas de interesse de grupos sociais, financeiros ou econômicos. Nem tampouco na desobediência civil desenfreada, que só têm validade quando a vontade popular é maior, quantitativamente, do que os interesses de grupos refugiados por leis que atentem contra o artigo 5º da Constituição: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (mais 78  incisos e alíneas)”
Nossa Constituição garante tanto ao conservador como liberal ou progressista, formular, comunicar, escrever, defender pontos de vistas e convicções políticas, religiosas, ou seja, todos podem se colocar como desejar entre a direita, centro e a esquerda.
O que não parece ser desejo de nenhuma nação é o de rasgar suas Cartas Régias, sua Constituição, permitir que indivíduos acima da lei e das normas possam, reprimir a vontade popular utilizando-se de armas e suspendendo garantias individuais com atitudes antidemocráticas historicamente clássicas nos regimes autoritários e despóticos.
Quando uma sociedade chega ao desespero de utilizar a força, o autoritarismo, a determinação de um único pensamento individual para definir seus destinos, fica claro, que não é uma sociedade, uma nação, mas sim um curral de indivíduos liderados por um despótico que determina a direção da população encurralada.
Em geral, governantes são acometidos da “Síndrome de Húbris”, uma doença estudada neste início do Século XXI, que estuda o poder e a doença que ele acomete, como uma embriaguez de poder que provoca a perda e o sentido da realidade nacional, desperta a soberba, a presunção e a persistência perversa em políticas nascidas da cabeça de um único indivíduo que não consegue avaliar os sinais positivos ou negativos de seus atos.
O medo, o receio, a precaução, são sentimentos que têm por finalidade proteger o ser humano. Mas quando esta finalidade se torna exacerbada provoca diversos desvios psicológicos. Atos desesperados em controlar sentimentos, eventos, possibilidades futuras ainda inexistentes, variáveis exógenas incontroláveis como fenômenos naturais e até mesmo patologias ainda não diagnosticadas.
Uma sociedade democrática não é compatível com sociedades secretas, a não ser as legalmente prevista, que protegem o interesse nacional. Fora disto fica claro que o direito de associação é previsto por lei e tem como base a transparência, garantido pelo direito constitucional. Porém todo aquele que tem cargo público, por ética, deveria manifestar a sua associação junto a entidades empresariais e desportivas, sociedades culturais políticas e científicas. Tal condição faz da sociedade mais transparente e garante a liberdade de escolha do indivíduo a buscar a direita, esquerda ou o centro.
Uma nação só consegue ter a paz necessária para reger os seus destinos quando a direita respeita a esquerda e vice versa. Quando o centro, entre a esquerda e a direita seja respeitado e respeite com dignidade a esquerda e a direita. Todos se respeitando como nação e não como animais racionais encurralados na disputa de um espaço para atender suas necessidades materiais.
Extratos sociais que se consideram influenciadores e formadores de opinião, como classes privilegiadas e que estão no topo da pirâmide social, não podem negar a validade do voto de quem está nos estágios intermediário e na base da pirâmide social somente por que residem na periferia, no centro ou nos bairros operários, sob a alegação que se trata de população burra, incompetente e de fácil manobra. Falsa alegação, se assim fosse, os extratos sociais no topo do poder estariam indefinidamente no poder. Tais extratos sociais são minorias diante da grande população e acham que podem manipular em uma guerra de direita, centro e esquerda a representatividade da grande quantidade de votos que vem dos bairros operários, das favelas e da periferia.
Como diria um mestre que tive no colégio: “Manipular, mascarar, enganar, oprimir pelo medo, oprimir pela ironia e sarcasmo são armas de falsos guerreiros que sempre acabam nas mãos de alguém mais inteligente, transparente e que tem seu domínio fundado na verdade”
A desvalorização do outro pela mentira, pela falsidade e hipocrisia um alguns momentos surtem alguns efeitos, mas o tempo, a razão e os fatos de forma natural e organizada, conseguem definir claramente e registrar as linhas da verdade no conteúdo histórico de uma nação.
Por isso, não importa a posição que você ocupe, direita, centro ou esquerda, qualquer uma delas é parte integrante da cidadania do brasileiro, queira você aceite ou não. O que é repudiado, o que não é aceito e degrada a condição de cidadania, é obrigar todos a uma única posição. Fato impossível de acontecer e nunca acontecerá em razão da formação gentílica, fundada nos  índios, negros, portugueses e imigrantes europeus que construíram o Brasil de todos os Brasileiros. Claro que alguns desesperadamente buscam trocar sua nacionalidade na tentativa de negar sua nacionalidade e se afastam dos desafios nacionais, para se locupletar com os benefícios sociais de outras nações europeias, americanas e até mesmo asiáticas. Ainda assim serão brasileiros, no coração, na alma e no caráter, pois não se consegue mudar a história pessoal, familiares, seu local de nascimento, suas paisagens, seu território ou seu idioma materno.
A fonte original de poder de uma sociedade, não concede mais ou menos direitos para alguns indivíduos do que aos outros, independente de suas profissões, de seus papéis sociais, seus relevantes serviços prestados ou mesmo de seus dotes culturais ou artísticos. Basta que se some os direitos cívicos dos integrante de uma nação para se conhecer os destinos de uma nação em busca da construção de sua soberania nacional.
Portanto, estando à direita, no centro ou na esquerda, fazemos parte do povo brasileiro, povo nacional, fonte de poder da sociedade brasileira, parte de uma pluralidade de ideias compartilhadas que mantêm nossa soberania nacional, expressa pelo poder que reside em nosso povo, independente de qualquer interpretação pessoal, manifestado pelo sentido de que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

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Oração aos Moços

Rui-Barbosa-228x300 Oração aos Moços

“Legalidade e liberdade são as tábuas da vocação do advogado”

Ruy Barbosa de Oliveira

O maravilhoso da literatura é descobrir que valores pregados pelos autores que temos consideração e respeito, ainda que em séculos anteriores, são valores tão reais que podem trazer à consciência, atualmente, qualquer ser menos esclarecido que tenha o desejo de evolução.

Nesta noite, me vieram cair de novo em mãos o discurso do eminente Rui Barbosa aos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo no ano de 1920, um singelo livreto de 55 páginas[1], muito conhecido nos meios acadêmicos da área do Direito como a “Oração aos moços”.

Quantas vezes li e reli os valores exaltados na “Oração aos moços”, escrito com base nos mais conceituados filósofos da antiguidade, nos valores do Padre Manuel Bernardes e suas várias obras escritas no século XVII, nas Sagradas Escrituras e carregado de uma emoção clara daquele que soube escolher profissão com dignidade.

Esta noite, eu aprenderia um pouco mais com aquele que foi o “Águia de Haia”, o “Grande Ruy”, como meu avô materno com seu sotaque espanhol se referia ao emérito homem público Ruy Barbosa de Oliveira.

Segundo Francisco da Silveira Bueno, outro grande estudioso da arte da oratória, salientando as qualidades da redação do “Grande Ruy”, coloca toda sua interpretação na tese de que ele era um orador para ser lido e não para ser ouvido.

O “Grande Ruy” doente, sem poder comparecer à solenidade de formatura como o paraninfo escolhido de tão seleta turma, escreveu o discurso, cujas páginas foram recolhidas por alguns formandos na cidade de Petrópolis e lido pelo diretor da faculdade, Reynaldo Porchat, diante da impossibilidade de sua apresentação no evento.

Detalhes à parte, sem muitas pretensões ao folhear a página 46[2], não consegui desviar minha atenção na profundidade com que o grande escritor utiliza dois textos maravilhosos para ensinar-me o valor daquele que julga e é julgado. O primeiro se reflete nas Escrituras: “Não cometam injustiça em um julgamento; não favoreçam o pobre, nem procurem agradar os poderosos, mas julguem o seu próximo com justiça.”[3] O segundo, o “Grande Ruy”, vai buscar na fonte da literatura luso-brasileira, nos sermões e práticas do Padre Manuel Bernardes:

“Se não tens animo para romper pela impiedade, não queiras ser juiz. Bem praticou esta virtude Canuto Rei dos Vândalos, que mandando justiçar uma quadrilha de salteadores, e pondo um deles embargos, de que era parente do Rei, respondeu: Pois se provar ser nosso parente, razão é que lhe façam a forca mais alta.

É não só nas obras de justiça, mas também de caridade devemos evitar exceção de pessoas.” [4]

Hoje ao constatar os favorecimentos judiciais recebidos pelos amigos do Rei, justificados pela ampla defesa e do contraditório, onde os embargos não produzem a forca alta e nem baixa e ficam todos à mercê do transito em julgado.

Ao ver os poderosos se locupletando com pedidos de proteção a família, aos amigos e a corte que esta acima da lei e da justiça, sinto que a justiça é só mais um meio de vida, para não dizer de negócios.

Ao ver a quadrilha de salteadores subjugar a sociedade entre zombaria, escárnio e menosprezo, tenho certeza de que os “moços” da oração do “Grande Ruy”, das duas uma, ou não escutaram bem suas palavras, ou pior, são totalmente ignorantes quanto ao seu significado e relevância.

“Como vedes, senhores, para me não chamarem a mim revolucionário, ando a catar minha literatura de hoje nos livros religiosos.

Outro ponto dos maiores na educação do magistrado: corar menos de ter errado que de se não emendar. Melhor será que a sentença não erre. Mas, se cair em erro, o pior é que se não corrija. E, se o próprio autor do erro o remediar, tanto melhor; porque tanto mais cresce, com a confissão, em crédito de justo, o magistrado, e tanto mais se soleniza a reparação dada ao ofendido.”[5]

E aprendi, nesta noite, pelas palavras de sua “Oração”, mesmo não sendo tão moço, que: “Não há justiça, onde não haja Deus”.[6]

Ainda sonho como o “Grande Ruy”, que ainda haveremos de ver um judiciário composto de bacharéis que, “não se colocarão baixo com os grandes, nem arrogante com os miseráveis. Que servirão aos opulentos com altivez e aos indigentes com caridade Amarão a Pátria e amarão aos pobres enternecidamente, guardando a fé em Deus, na verdade e no bem.”[7]

[1] Oliveira, Ruy Barbosa de – Discurso aos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo em M.CM.XX -Editora Mensário Acadêmico Dionysus, São Paulo, 1921

[2] Oliveira, Ruy Barbosa de – Discurso aos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo em M.CM.XX -Editora Mensário Acadêmico Dionysus, São Paulo, 1921, pág. 46

[3]BÍBLIA, A. T. Levítico 19 vers. 15, in Bíblia Sagrada – Nova Versão Internacional – Geográfica, São Paulo, 2000 pág. 89

[4] Bernardez, Padre Manoel – Sermões e Práticas, Primeira Parte, Dedicada a Soberana Rainha do Céu – Oficina Real Deslandesiana, Lisboa, 1711, pág. 263-264

[5] ibidem 2

[6] Ibidem 2, pág.47

[7] Ibidem 2, pag. 49

 

Os Jantares de Madame Maintenon

Edouard-Manet.-Um-bar-no-Folies-Berger.-1882-300x224 Os Jantares de Madame Maintenon

Édouard Manet-Um bar no Folies-Bèrger 1882

A pesquisa, muitas vezes, se assemelha a um vício: uma vez capturado pela atividade, torna-se difícil abandonar o assunto pesquisado. De forma quase obsessiva, ela apresenta um grau de abstração que nos leva por caminhos inesperados. Foi assim que, durante um estudo sobre “Gabinetes de Leitura”, me vi imerso na história da França, de Luís XIV, da Marquesa de Maintenon, da nobreza e dos jantares palacianos.

Em 13 de agosto de 1837, surgiu no Rio de Janeiro um jornal intitulado Gabinete de Leitura – Serões das Famílias Brasileiras. Seu objetivo era incentivar a leitura, o entretenimento e as diversões para as famílias brasileiras. Na introdução ao público, o jornal apresentou um conto sobre Maintenon, sem mencionar seu nome completo – Madame Françoise d’Aubigné, última e notável figura feminina na vida de Luís XIV. Essa comparação foi utilizada para ilustrar os propósitos do jornal em lançamento. O paralelo reside nas atitudes de Madame de Maintenon, que inicialmente serviu ao rei como governanta de seus filhos ilegítimos, mantendo-os longe dos olhares indiscretos da corte, e posteriormente, como concubina, estrategicamente seduzindo e casando-se com o rei em segredo.

A força desse editorial e da comparação reside nas palavras que traduzem o verdadeiro significado dos “Gabinetes de Leitura”. Por isso, julgamos interessante recontar essa história aos leitores.
O editorial do jornal convidava o público a frequentar suas páginas, assim como Madame de Maintenon atraía sua audiência. Sem fortuna ou posição social que a sustentasse na corte, Maintenon usava sua simpatia e, principalmente, suas conversas agradáveis e despretensiosas para reunir a alta sociedade francesa e aqueles que desejava cativar em jantares regados a alegria. Embora a quantidade e a qualidade da comida não fossem à altura das expectativas dos convidados, todos ficavam encantados com as histórias e anedotas de Madame Maintenon, contadas com perspicácia e sagacidade. Ao final, saíam de sua casa sem perceber a escassez dos pratos.

Em certa ocasião, o criado que servia à mesa, seja por simplicidade ou malícia, dirigiu-se a Maintenon em voz baixa, mas suficientemente alta para ser ouvido por todos, e disse:

“– Minha senhora, conte alguma história a estes senhores, pois o assado queimou e não poderá ser servido.”

Maintenon não se deixou abalar. Elaborou uma narrativa que, se não saciou a fome dos convidados, ao menos os divertiu, inserindo na história suas vulnerabilidades financeiras, a verdadeira razão pela qual não os podia presentear com um banquete mais farto. Esse episódio lhe conferiu a reputação de mulher mais espirituosa de seu tempo e a fez ser indicada para governanta dos filhos de Luís XIV. Desde então, os nobres e plebeus que a visitavam não diziam “vamos jantar na casa de Madame Maintenon”, mas sim “vamos conversar com Madame Maintenon”.

Assim como o editorial do jornal, que seguia o exemplo de Maintenon, convido os leitores a refletirem sobre os convites e os propósitos dos jantares e celebrações que, nos próximos meses, serão promovidos pelos futuros candidatos ao governo municipal. Esses eventos, voltados a influenciadores e à mídia, buscam conquistar apoio, serviços e, claro, votos. Uma notícia que surge de um jantar, tal como os de Maintenon, pode se revelar uma piada, um “lero-lero” ou mesmo mentiras, criadas com o objetivo de enganar.

Será que as “fake news” tiveram origem no século XVII? A resposta, meu amigo, talvez esteja sussurrando ao vento, como diria a canção. E não nos esqueçamos: com a ajuda de um bom maître, um bom atendente e um bom restaurante, podemos transformar qualquer cenário em um mero entretenimento sem consequências.

Para concluir, a bela frase do padre Diogo Antônio Feijó sobre Bernardo Pereira de Vasconcelos pode servir como alerta e critério para avaliar tais eventos: “…um livro para ser lido e depois lançado ao fogo”.

 

Texto inspirado e extraído do Livro Freguesia, Vila e Cidade de uma Campinas Velha 1774 – 1889, Capítulo 18, páginas 336 e 337. Autoria de Genaro Campoy Scriptore

Semana Carlos Gomes – 16 de setembro de 2024

 

Discurso de Genaro Campoy Scriptore,
orador oficial do Centro de Ciências, Letras e Artes,
proferido na Praça Antônio Pompeo
durante a cerimônia em homenagem aos
128 anos do falecimento de Antônio Carlos Gomes.

 

 

Foto-discursandomod-222x300 Semana Carlos Gomes - 16 de setembro de 2024

Discurso proferido em 16/09/2024

 

Boa tarde a todos os presentes.

Reitero meus sinceros agradecimentos a Comissão da Semana Carlos Gomes, a Prefeitura de Campinas ao Centro de Ciências, Letras e Artes e em especial a todos presentes a este evento de hoje enriquecendo ainda mais esta celebração.

Uma grande questão me instiga a pensar: O que celebramos hoje? A data de morte de Antonio Carlos Gomes?

Não! Celebramos a vida de um brasileiro, um paulista, um campineiro ícone da música Universal. Um brasileiro ( que soube honrar a sua pátria nas mais remotas paragens mundiais), um paulista ( que tem seu nome gravado em quase todas as cidades do Estado) e um campineiro (que honrou o nome de sua cidade e deu projeção aos seus concidadãos).

Antonio Carlos Gomes nasceu em 11 de julho de 1836, e foi batizado em 19 de julho de 1836, filho de Manoel José Gomes, conhecido como “Maneco Músico” e de Fabiana Maria Cardoso, conhecida como “Nhá Biana”. Da união de Maneco e Nhá Biana são gerados dois filhos: José Pedro Sant’Anna Gomes e Antonio Carlos Gomes. Uma grande tragédia marcaria a infância de Sant’Anna Gomes com 10 anos de idade e a de Carlos Gomes com 8 anos: na noite do dia 28 de julho de 1844 “Nhá Biana” foi brutalmente assassinada com um tiro e várias perfurações de uma arma branca semelhante a uma baioneta ou uma faca de caça.

Francisco Quirino dos Santos e Benedicto Octávio foram os dois campineiros ilustres que me guiaram na busca de compreender a vida e a obra de Carlos Gomes.

Benedicto Octávio relata em seu livro “Campinas Antiga” que, no ano de 1846, durante as festividades em homenagem à visita do imperador Dom Pedro II a Campinas, no palanque onde a música era destaque, dois jovens músicos chamavam atenção: os filhos do maestro Manoel José Gomes. As duas crianças morenas, de doze e dez anos, destacavam-se entre os músicos, uma tocando clarineta e a outra tangendo os ferrinhos (triângulo).

Já Quirino dos Santos, que conheceu Carlos Gomes na infância, recorda-se dele tocando triângulo ou flautim na banda que desfilava pelas ruas da cidade. Seu apelido era “Tunico”, uma alcunha que simbolizava tanto seu pequeno porte físico quanto sua grande atividade intelectual. Tunico foi um apelido que Carlos Gomes levou com orgulho por toda a vida.

A juventude de Carlos Gomes foi marcada por grandes aspirações e desejos, mas limitada pela falta de recursos materiais. Ele participava da banda musical, ajudava seu pai, que era mestre de capela, e lecionava música nas fazendas locais. Desde cedo, ele mergulhava no mundo das óperas e dos grandes compositores, compondo quadrilhas, tangos, serenatas e modinhas. A música era sua vida, e seus primeiros trabalhos já demonstravam originalidade e beleza que contrastavam com sua pouca idade e os modestos conhecimentos formais que possuía.

Nos últimos anos da década de 1850, Campinas celebrava as Festas da Semana Santa com grande esplendor. Muitos amigos dos irmãos Gomes estudavam na Academia de Direito de São Paulo desde 1854 e 1855, entre eles Campos Salles, os irmãos Francisco e João Quirino dos Santos, os irmãos Américo e Bernardino de Campos, Rangel Pestana e os irmãos Jorge Miranda e Francisco Glicério — conhecidos como os “moços de Campinas”. Dentre esses estudantes, João Ataliba Nogueira, que mais tarde se tornaria o Barão de Ataliba Nogueira, formou-se em novembro de 1858.

Durante as Festas da Semana Santa, que iam de domingo a domingo, os estudantes costumavam retornar a suas cidades para rever familiares e amigos. Em uma dessas ocasiões, João Ataliba Nogueira convidou colegas, como Antonio Dias Novaes, João Gabriel de Moraes Navarro e Francisco Azarias de Queiroz Botelho, para se hospedarem em sua casa durante as festividades.

Francisco Azarias, um jovem mineiro alto, louro e de olhos azuis, admirador de serenatas, logo reconheceu o talento musical de Carlos Gomes e passou a insistir para que os irmãos Gomes visitassem São Paulo e mostrassem seu talento. Assim, Antonio Carlos Gomes, seu irmão Sant’Ana Gomes e Henrique Luiz Levi chegaram à capital paulista em 15 de julho de 1859, hospedando-se na república de Francisco Azarias. Este, como um verdadeiro empresário, empenhou-se em promover apresentações para os músicos, agendando concertos para os dias 21 e 27 de julho daquele ano.

Durante sua estadia, os três músicos foram convidados a se apresentar em diversas reuniões estudantis, especialmente em repúblicas. A única república com um piano era a do sergipano Francisco Leite Bittencourt Sampaio, onde Antonio Carlos Gomes compôs a música para duas peças importantes: a famosa canção “Quem Sabe” e o Hino Acadêmico da Faculdade de Direito, ambas com letra de Bittencourt Sampaio.

Após diversas apresentações de sucesso em São Paulo, incluindo o sucesso retumbante do Hino Acadêmico, Carlos Gomes seguiu para o Rio de Janeiro para continuar sua formação musical. Lá, ingressou no Conservatório de Música Imperial, onde foi orientado pelo renomado maestro Gioacchino Giannini. Em março de 1860, Carlos Gomes compôs sua primeira cantata, intitulada Salve o dia da Ventura, em homenagem à imperatriz Teresa Cristina.

Apesar de estar doente e febril no dia da apresentação, Carlos Gomes não deixou que isso o impedisse de conduzir sua composição, evidenciando sua dedicação e compromisso com a música. Após a morte de Giannini, ele continuou seus estudos com Francisco Manuel da Silva, o compositor do Hino Nacional Brasileiro. Foi sob a orientação desse mestre que Gomes compôs sua segunda cantata, A última hora do Calvário.

Em 1861, Carlos Gomes estreou sua primeira ópera, A Noite do Castelo, uma obra dedicada ao imperador Dom Pedro II. Dois anos depois, em 1863, ele apresentou a ópera Joana de Flandres, cuja repercussão foi tão positiva que lhe abriu as portas para realizar o sonho de estudar na Itália, o berço da ópera. Essa mudança para a Itália foi fundamental para o desenvolvimento de sua carreira internacional.

Poderíamos passar horas falando sobre o sucesso de Carlos Gomes na Itália, com obras como Se Sa Mingá, Nella Luna, O Guarani, I Moschettieri, Salvador Rosa, Saluto del Brasile (um hino em homenagem aos Estados Unidos), Maria Tudor, Lo Schiavo e Condor. Porém, para facilitar e enriquecer ainda mais essa celebração, preparamos um folheto contendo uma linha do tempo da vida e obras de Antônio Carlos Gomes. Nele, nossa audiência poderá pesquisar e relembrar sua trajetória e contribuições à música universal.

Impossível não abordarmos a grandiosa ópera Il Guarany, com libreto de Antonio Scalvini, baseada na obra de José de Alencar, que estreou no renomado Teatro alla Scala de Milão, em 19 de março de 1870. Na plateia, três brasileiros: seu irmão José Pedro de Sant’Anna Gomes, Antonio Carlos do Carmo e o cônsul do Brasil na Itália.

Após o sucesso em Milão, Carlos Gomes retorna a Campinas em agosto, sendo recebido de forma espetacular nos dias 18, 19 e 20. No dia 18, um número incontável de pessoas deslocou-se até Santos para recebê-lo, enquanto outros aguardavam em Jundiaí, onde a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí já operava. O trajeto de Jundiaí a Campinas foi feito no lombo de animais, e à medida que a caravana avançava pelas cercanias, mais pessoas se juntavam, formando uma grande comitiva.

Ao chegar às portas de Campinas, o cortejo foi recebido com fogos de artifício, girândolas e bandeirolas que decoravam todo o caminho. A caravana desceu a Rua Direita em direção ao palacete dos senhores Américo e Bernardino de Campos, no Largo da Matriz Nova. Para homenagear o maestro, a Orquestra Campineira (Philorphenica) contratou o ourives Carlos Deviene para criar uma coroa de ouro, um presente de grande valor simbólico.

No dia 19, às 15:00, uma comissão foi buscar o maestro para uma solenidade. Quando ele se aproximou da sala onde ocorreria o evento, a multidão, em respeito, abriu-se em duas filas, com as orlas guarnecidas por senhoras e meninas. Um silêncio religioso tomou conta do ambiente enquanto Carlos Gomes caminhava até o centro. Foi então que o ourives Carlos Deviene, responsável pela confecção da preciosa coroa, entregou-a à comissão, encarregada de oferecê-la ao maestro.

A coroa, formada por dois ramos de louro em tamanho natural, era um objeto riquíssimo, representando o reconhecimento de seu talento. A comissão, liderada pelo notável músico e maestro, Francisco Azarias, que fez um discurso emocionado antes de chamar Joaquina Gomes, irmã do maestro, para coroá-lo. A cena que se seguiu foi de pura emoção e beleza. Enquanto a orquestra tocava notas festivas, a atmosfera foi tomada por uma mudez reverente, como se todos estivessem em um estado de encantamento.

Parecia que, naquele momento, um anjo das harmonias pairava sobre a cabeça majestosa de Carlos Gomes, como se o próprio talento divino proclamasse: “Deus me deu, ai de quem tocar nele.”

Carlos Gomes, depois do sucesso de “Il Guarany”, passa a integrar o rol das celebridades musicais na Europa e no Brasil.

No ano de 1895, em viagem para Lisboa na busca de tratamento médico, dirigiu-se ao Real Teatro de São Carlos para assistir a uma apresentação da ópera Manon, de Jules Massenet. Durante um dos intervalos, a orquestra, sob a regência do maestro catalão Joan Goula I Soley, executou a Protofonia de Il Guarany. A performance foi aplaudida entusiasticamente, destacando-se o maestro, a orquestra e, especialmente, Carlos Gomes. Dom Carlos I, o rei de Portugal, que assistia à apresentação, chamou Carlos Gomes ao seu camarote e o agraciou com a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, uma das mais importantes comendas do reino português, concedida a personagens ilustres em  reconhecimento ao mérito científico, literário e artístico.

Entretanto, já nesse período, Carlos Gomes sofria com um epitelioma na língua, diagnosticado como câncer, decorrente de anos de tabagismo. Fragilizado, aceitou o convite do governador do Pará, Lauro Sodré, para dirigir o Conservatório de Belém e mudar-se para lá. Durante meses, os paraenses aguardaram ansiosamente sua chegada, que só ocorreu em 14 de maio de 1896. No entanto, devido à sua frágil saúde, o maestro não conseguiu assumir suas funções no conservatório.

Carlos Gomes passou seus últimos quatro meses em Belém, sendo acolhido com carinho pelo povo paraense e pelo governador. No dia 17 de setembro de 1896, o jornal Folha do Norte noticiou seu falecimento, ocorrido na noite do dia 16, às 22h30.

O translado do corpo do maestro foi longo e só chegou a Campinas, sua cidade natal, em 25 de outubro de 1896. Carlos Gomes foi sepultado no Cemitério do Fundão, atualmente conhecido como Cemitério da Saudade, na cripta da família Ferreira Penteado.

Em 18 de setembro de 1903, Santos Dumont, a convite de César Bierrenbach, um dos fundadores do Centro de Ciências, Letras e Artes, teve a honra de colocar a pedra fundamental do monumento-túmulo de Carlos Gomes.

Em 29 de junho de 1904, após um ato religioso ministrado pelo Padre Ribas D’Avila, foi feita a transferência do corpo do maestro do Cemitério do Fundão para o a praça José Bonifácio, hoje Antonio Pompeo, local que compartilhamos neste exato momento. O túmulo do Tonico de Campinas, sem a escultura de Bernardelli, que hoje podemos apreciar, recebeu seu corpo, uma ata assinada por todos as autoridades presentes e um discurso emocionante proferido pelo tribuno João César Bierrenbach.

No dia 2 de julho de 1905, em um domingo marcado pela chuva, ocorreu a inauguração do monumento-túmulo de Carlos Gomes. O evento contou com o descerramento das esculturas criadas por Rodolfo Bernardelli, com a presença do presidente do Estado, acompanhado de diversas autoridades. Os discursos emocionantes proferidos por César Bierrenbach e Salvador de Mendonça marcaram a ocasião, exaltando o legado do grande maestro.

À tarde, as autoridades presentes se reuniram no prédio do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA), que na época se localizava na Rua Barão de Jaguara. De lá, seguiram em uma caminhada pela Rua da Cadeia até a casa onde nasceu Carlos Gomes, situada na Rua Regente Feijó, número 1205. Nessa casa, uma placa de mármore foi colocada, registrando a data de nascimento do compositor e destacando sua residência em Campinas, cidade que tanto o enalteceu.

Essa cerimônia não só celebrou o talento imortal de Carlos Gomes, mas também marcou sua presença eterna na memória da cidade que o viu nascer e que sempre o reverenciou como um de seus filhos mais ilustres.

Portanto, peço aos senhores um minuto de silêncio para reverenciar a memória de Antonio Carlos Gomes, e encerrarmos nossa homenagem com a penúltima estrofe do poema “Orfeu Triunfante” declamado por Salvador de Mendonça durante a inauguração deste monumento túmulo:

Recebe, terra-mãe, de novo nas entranhas

De lágrimas ungido e maternais carinhos

O corpo de teu filho, o bardo das montanhas

Que traz ainda na fronte a marca dos espinhos

Aqui, de novo, o tens, mãe desvelada e bela:

Tornou enfim teu filho ao berço das colinas

E tornam a cantar as aves peregrinas.

Muito Obrigado

Campinas, 16 de setembro de 2024 17:00

Genaro Campoy Scriptore

Os números do Passado – Agricultura e Medidas Agrárias.

Numeros-do-passadopagina-300x246 Os números do Passado – Agricultura e Medidas Agrárias.

J. P Dilion – 15 de março de 1800

A invasão moura em Portugal e Espanha, ao longo de oito séculos, influenciou profundamente a construção das línguas espanhola e portuguesa, resultando na incorporação de muitos vocábulos de origem árabe. Entre as inúmeras palavras, podemos citar mais de cinquenta que começam com a letra “A”, como alambique, alquimia e alqueire.

A escolha pela palavra alqueire tem o propósito de destacar a história do campo e do agricultor, trazendo à tona práticas do passado que ainda se conectam com as dos dias atuais. No passado, os lavradores usavam a matemática prática para contar, calcular e garantir a subsistência por meio da produção agrícola. Desenvolveram, assim, uma sabedoria subjetiva, baseada na interpretação de atos simples, como plantar e colher.

Alqueire é uma palavra com origem persa e árabe, introduzida no português para definir a quantidade de sementes transportadas em um recipiente, geralmente feito de vime, varas ou cintas vegetais, conhecido como cesto. Durante muito tempo, não havia um padrão rígido para a quantidade de sementes colocadas nesses alqueires, cujos tamanhos variavam.

Segundo a obra de José Fortunato Barreiros [1], o valor de um alqueire foi fixado em 13,8 litros de sementes secas, baseado em um cesto de bronze que comportava 69 decilitros, conhecido como “meio alqueire”, termo assim definido pelo emérito  Presidente da Câmara de Lisboa, “Paulo de Carvalho Mendonça”. Duplicando essa medida, chegava-se a um alqueire, ou 138 decilitros (13,8 litros) de sementes secas.

No passado, os agricultores transportavam dois cestos de sementes (um alqueire) no dorso de um animal para o campo, onde plantavam em covas com duas ou três sementes, distantes aproximadamente um passo entre si. Um litro de sementes era suficiente para plantar 605 metros quadrados (m²), uma área de 11 metros x 55 metros, por exemplo. Para plantar meio alqueire (6,9 litros), o agricultor precisava de uma área de 4.174,50 m². Para planta um alqueire completo (13,8 litros) exigia 8.349 m² de área cultivável.

Em São Paulo, o sistema de plantio adotado era baseado no meio alqueire, com o agricultor debulhando 256 espigas de milho para encher dois cestos de 20 litros (ou 40 kg) de sementes para plantio em uma área de 110 x 220 metros ou 24.200 m² (605 m²x 40 litros). Fernando Pina Figueiredo[2], engenheiro especializado em cálculos, destacou que “20 kg de grãos de milho nem sempre correspondem a 20 litros, devido à densidade variável das sementes”. No entanto, para simplificação, era aceitável considerar que 1 litro equivalia a 1 kg de grãos de milho.

Os mineiros, por sua vez, utilizavam um sistema baseado em um alqueire completo, que exigia 48.400 m² (605 m²x 80 litros), para plantar dois cestos de 40 litros (ou 80 kg) de sementes, o equivalente a 512 espigas de milho debulhadas. A área necessária para esse plantio podia ser representada por um quadrado de 220 x 220 metros ou outros formatos.

Com o tempo, a diversidade de cestos e as variações regionais tornaram o alqueire uma medida imprecisa no meio agrário. Foi somente em 26 de junho de 1862 que, por meio da Lei 1.157, o imperador Dom Pedro II substituiu o antigo sistema de pesos e medidas pelo sistema métrico francês.

Na 12ª Sessão do Comitê Internacional de Pesos e Medidas (CIPM), realizada na França, em uma quinta-feira, no dia 2 de outubro de 1879, discutiu-se e aprovou-se o padrão do hectare, junto com o seu símbolo (ha), para ser utilizado como unidade de medida de superfícies agrárias. Esse momento foi crucial para a padronização de medidas agrárias, pois exigiu um esforço para aprender e implementar a equivalência entre as antigas medidas regionais e o novo sistema métrico, que seria adotado amplamente em diversos países. Essa transição teve impacto profundo no setor agrícola, simplificando a mensuração de áreas de plantio e facilitando a comunicação e regulamentação no campo.[3]

Hoje, no Brasil, a medida agrária oficial é o hectare, conforme estabelecido pela Lei nº 6.746/1979, conhecida como “módulo fiscal”. Essa unidade representa a área mínima necessária para a classificação fundiária das propriedades rurais, que podem ser classificadas como minifúndio, pequena, média ou grande propriedade, conforme especificado pela Lei nº 13.465, de 11 de julho de 2017.

Entretanto, o Brasil, com sua vasta extensão territorial de 8.515.767,049 km², ainda enfrenta desafios relacionados a disputas e demarcações de terras, refletindo a complexidade de definir os tamanhos das propriedades rurais no país.

Tabela demonstrativa para Plantio de Alqueire, com Cestos de Sementes.

Alqueire Litros Cestos Area (metros²) Area Linear (metros)
1 605 11 x 55
½ 6,9 1 4.174,50 50 x 83,49
1 13,8 2 8.349 110 x 75,9

 

Tabela para medida de Alqueire no Brasil.

Alqueire Litros Cestos Qtde Espigas Area (metros²) Area Linear (metros) Estado
½ 40 (40 kg) 2 256 24.200 (605 x 40) 110 x 220 São Paulo
½ 32 (32 kg) 2 205 19.360 (605 x 32) 110 x 176 Mato Grosso (Alqueirão)
½ 45 (45 kg) 2 288 27.225 (605 x 45) 165 x 165 Norte do Brasil
1 80 (80 kg) 2 512 48.400 (605 x 80) 220 x220 Minas e Góias
1 160 (160 kg) 2 1024 96.800 (605 x 160) 220 x440 Bahia

 

[1] Barreiros, Fortunato José – Memória sobre os pesos e Medidas de Portugal, Espanha, Inglaterra e França que se empregam nos trabalhos do corpo Engenheiros e da Arma de Artilharia – Tipografia da Academia Real de Ciências, Lisboa, 1838, página 10 e página 63.

[2] Fernando de Pina Figueiredo, Engenheiro Civil Calculista de Estruturas e Fundações, sócio da empresa Pina Figueiredo Engenharia Estrutural Ltda, membro da Diretoria do Centro de Ciências, Letras e Artes, comentou: “20 kg de grãos de milho nem sempre dão 20 litros, pois a densidade aparente do milho, e de várias outras sementes, é muito variável. O conceito de densidade aparente, ou massa específica aparente, é a massa que cabe em 1 unidade de volume, ou seja, quantos kg (unidade de massa) cabem em 1 litro (unidade de volume). No caso da maioria das sementes, a massa que cabe no volume de 1 litro varia de 0,88 a 1,40 kg. Eu, em meus cálculos de bases de grandes silos, a favor da segurança utilizo o valor de 1,4 kg/litro, pois no silo são 12 metros de altura, ou mais, então o grão fica muito adensado. Mas no caso do agricultor do tempo antigo, que mexia com pequenos volumes, é aceitável sim considerarmos que em 1 litro caiba 1 kg de grãos de milho.”

[3] Procès-Verbal de la deuxième séance de 2 octobre 1879 – Présidence de M. Ibañez P.41 – Paris, Gautier-Villars, Imprimeur-Libraire du Bureau des Longitudes de L’école Polytechnique. Successeur de Mallet Bachelier, 1879

O Piano de Carlos Gomes

Piano-de-Carlos-Gomes01_1-259x300 O Piano de Carlos Gomes Piano-de-Carlos-Gomes02_1 O Piano de Carlos Gomes
Fotos do Piano de Carlos exposto no Museu Carlos Gomes de Campinas
Feitas por Genaro C Scriptore em 21 de junho de 2024

O estado do Pará recebeu e acarinhou Antonio Carlos Gomes desde sua chegada no vapor Obidense em 14 de maio de 1896 até seu último suspiro em 16 de setembro do mesmo ano. Não obstante tanto carinho, os governantes paraenses, autoridades e o povo prestaram sinceras homenagens funerárias ao maestro Carlos Gomes, filho de Campinas.

Carlos Gomes trouxe para o Pará poucos bens, pois já havia perdido a maioria deles, incluindo sua coleção de objetos de arte, joias e dinheiro. Salvou-se apenas o piano que o acompanhou até o Pará.
Gomes foi guiado ao Pará pelas mãos do ilustre governador da época, doutor Lauro Sodré, que criou o Conservatório de Belém e confiou ao maestro o cargo de Diretor.

Em 14 de março de 1914, o jornal “Jornal Pequeno” de Recife republicou uma entrevista com o maestro Gama Malcher, concedida ao jornalista João Alfredo de Mendonça do jornal “Folha do Norte” do Pará, em 15 de fevereiro de 1914[1]. Na entrevista, o maestro paraense Gama Malcher, em conversa amistosa com João Alfredo de Mendonça, confirma:

“…posso afirmar sem receio de contestação, que o piano de Carlos Gomes foi adquirido pelo benemérito doutor Lauro Sodré pela importância de 5:000$000. …Lauro Sodré teve conhecimento das dificuldades financeiras do maestro, e com aquele seu espírito generoso e protetor, mandou dar-lhe o dinheiro, mas não querendo nem de leve ferir os sentimentos do genial brasileiro, insinuou que essa importância representava a venda do seu piano ao Estado. …o piano continuou em poder de Carlos Gomes até a sua morte, pois o governador nunca pensou em privar o maestro da companhia de seu piano.”

Na entrevista, Gama Malcher que exerceu o cargo presidente do Instituto Carlos Gomes, confessa que após a morte de Carlos Gomes foram retirados de sua casa e enviados para o Instituto dois objetos: o piano e um relógio de parede de forma octogonal que uma mão amiga se encarregou de parar as 7 horas e mais ou menos 10 minutos, hora da morte de Carlos Gomes. Segundo Gama Malcher, o piano teria sido um presente do imigrante alemão e fabricante de pianos no Canadá, Heitzmann & Son, admirador de Carlos Gomes. E completava que o instrumento nunca havia se separado do maestro, acompanhando-o em viagens para Itália e Brasil.

Em 17 de outubro de 1917, o mesmo jornal de Recife, “Jornal Pequeno”, reeditou uma crônica do maestro Ettore Basio, originalmente publicada na “Folha do Norte”[2] do Pará, informando que, ao percorrer o sótão do Teatro da Paz em companhia do artista Corbiniano Villaça, deparou-se com o piano de Carlos Gomes em total abandono. Segundo Ettore, o piano teria sido recebido como prêmio pela participação de Carlos Gomes na Exposição Internacional de Chicago em 1893.

Conforme atesta a Revista do Centro de Ciências, Letras e Artes de 1927[3], um sócio correspondente do Centro de Ciências, o senhor Armando Nascimento, ao chegar em Belém, tomou conhecimento pela leitura dos jornais, provavelmente da “Folha do Norte”, de que no Teatro da Paz encontrava-se abandonado o piano de Carlos Gomes, que teria sido guardado durante muito tempo na Associação Comercial de Belém. Sem relações pessoais suficientes para ajudá-lo, o senhor Armando enviou uma carta ao então governador, doutor Enéas Martins, solicitando a guarda do piano para o Centro de Ciências, Letras e Artes, com a proposta de se encarregar de todas as despesas de embalagem e transporte do piano para Campinas. A resposta de sua carta não veio, e o governador foi deposto meses depois, assumindo o governo Lauro Sodré no ano de 1917, eleito indiretamente pela Assembleia Legislativa do Pará.

Tomando ciência do estado do piano de Carlos Gomes, o governador Lauro Sodré, pela amizade que nutria pelo maestro e na tentativa de salvar o objeto histórico de valor sentimental inestimável, confiou-o à Associação de Imprensa do Pará, cujo presidente na ocasião era o jornalista, escritor e político doutor Manuel Lobato, fundador da Academia de Letras do Pará e do Instituto Histórico do Pará.

Passaram-se quatro anos, e o piano de Carlos Gomes continuava em uma caixa, suja e empoeirada, no prédio alugado pela Associação Vasco da Gama, pois a Associação de Imprensa do Pará, sem sede própria, abandonara vários móveis e caixas, entre eles o piano de Carlos Gomes. A Associação Vasco da Gama já reclamara várias vezes para que fossem retirados os móveis e caixas da Associação de Imprensa do Pará.

O senhor Armando então solicitou ao Centro de Ciências que fosse feito um ofício ao governador que assumira em 1925 o governo do Pará, o médico doutor Dionísio Ausier Bentes, com o propósito de conseguir o piano de Carlos Gomes para o Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) na cidade de Campinas.

Por motivos não determinados, o ofício do Centro de Ciências se extraviou, fato conhecido somente depois da entidade receber em maio de 1926 um telegrama do senhor Armando pedindo providências da diretoria do Centro de Ciências. Sem se dar por vencido, Armando enviou uma carta para o secretário geral do Centro de Ciências, informando que, em conversa com o ex-deputado Manuel Lobato, que exercia o cargo de ajudante de ordens do governador eleito em 1º de fevereiro de 1925, doutor Dionísio Ausier Bentes, narrou um fato interessante que provavelmente seria um entrave para a vinda do piano para Campinas. Este fato já havia sido relatado pelos maestros Gama Malcher e Ettore Basio, em 1914 e 1917, respectivamente.

Assim descreve o insigne e brioso senhor Armando Nascimento as palavras trocadas entre ele e o doutor Manuel Lobato:

“Sua Excelência, o governador, poderia dar o piano para Campinas ou para o Museu, mas com a permissão do Congresso, pois que o piano é propriedade do Estado”.

A fala de Manuel Lobato deixou o Senhor Armando cismado a ponto de perguntar o motivo, a explicação para o piano ser propriedade do Estado. A resposta veio imediatamente:

“Sim, Carlos Gomes tinha caucionado o dito piano ao Estado, pela quantia de cinco contos de réis: que ele estando em certa ocasião em precárias condições e tendo recebido de seu filho ou filha, que adoecera, pedido de auxílio de certa importância e precisando socorrê-lo e tendo acanhamento de pedir à importância precisa a alguém, foi com o governador de então e ofereceu o piano, que se conservou em seu poder até sua morte, sendo somente retirado de sua casa logo após a sua morte”.

No mesmo mês de maio de 1926, duas revistas ilustradas do Rio de Janeiro publicaram matérias sobre o piano de Carlos Gomes, informando que seu destino seria o Museu Histórico Nacional. Uma delas foi a Revista Ilustrada Fon Fon, Ano XX, número 33, de 14 de agosto de 1926, e a outra foi a Revista Ilustrada Paratodos[4], de 8 de maio de 1926.

Quanto à revista ilustrada Fon Fon, o Secretário Geral não poupou palavras, elaborando um extenso texto que demonstrava que o articulista da revista e a Associação de Imprensa estavam trabalhando juntos com o objetivo único de enviar o piano para o Museu Histórico Nacional.

Fica claro pelas cartas trocadas entre o Senador Sodré e o Centro de Ciências que não havia nada de estranho, bairrista ou leviano entre o Senador e o Centro. Apenas um não sabia do interesse do outro, e Lauro Sodré sugeriu que o piano de Carlos Gomes fosse para o Museu Histórico Nacional, baseando-se na carta do Presidente da Associação de Imprensa do Pará, doutor Manuel Lobato.

O nobre Secretário Geral do Centro de Ciências, Celso Ferraz de Camargo, publicou na Revista do Centro de Ciências a carta de 1º de junho de 1926 do Presidente da Associação de Imprensa, doutor Manuel Lobato, ao Senador Sodré. Na carta ele informava que muitos sócios da Associação de Imprensa não concordavam com a saída do piano de Belém, mas que por concordância com o Governador e com Lauro Sodré, o piano seguiria para outra cidade. Aguardavam uma carta do diretor do Museu Histórico Nacional, insinuando que isso levaria tempo, o tempo suficiente para a reorganização da Associação de Imprensa.

Após receber o telegrama do Senhor Armando em maio de 1926, o Centro de Ciências emitiu um segundo ofício ao Governador do Pará, datado de 31 de maio de 1926, solicitando a guarda do piano de Carlos Gomes. No ofício o Centro nomeava e autorizava o Senhor Armando Nascimento, morador da Rua Senador Barata, 33-A, como procurador do presidente do Centro de Ciências, Carlos Francisco de Paula, para agir e tomar decisões referentes a este assunto junto ao governo do Pará.

Ao receber este segundo ofício do Centro de Ciências, o Governador doutor Dionísio Ausier Bentes mandou publicar em 17 de junho de 1926 nos jornais do Estado do Pará a seguinte mensagem governamental dirigida ao Congresso Paraense:

“Levo ao conhecimento do Congresso Legislativo do Estado, por intermédio do Senado, que o Centro de Ciências Letras e Artes da Cidade de Campinas, Estado de São Paulo, em longa e substanciosa exposição apela para que o Governo do Estado do Pará lhe conceda a guarda do piano que pertenceu ao grande e inolvidável maestro Antonio Carlos Gomes…
…Rogo, pois, ao Congresso Legislativo que se manifeste a respeito, votando, se achar acertado, uma autorização para ser dado àquele ou outro qualquer lugar condigno que mereça deter a preciosa relíquia.
Com os protestos de estima e apreço a Vossas Excelências
Saúde e Fraternidade.”

Em uma outra carta, agora de 20 de agosto de 1926, o Secretário Geral, senhor Celso Ferraz de Camargo, praticamente implora para que o Senador Sodré não apoie a ida do piano para o Rio de Janeiro.

“…rogo-lhe permissão para pedir, implorar mesmo, em nome do direito, da justiça, de Campinas, do Centro e no meu próprio nome: suspenda a vinda dessa relíquia para o Museu Histórico Nacional.”

O Senado Federal enviou para discussão o Projeto Nº 12 de 1926 em 15 de outubro de 1926, o qual não gerou muitas discussões, exceto por algumas observações de dois senadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico do Pará e à Associação de Imprensa do Pará: os senhores Luiz Barreiros e Abelardo Candurú, respectivamente. Ambos expressaram a opinião de que o piano não deveria deixar o Pará. Candurú inclusive solicitou que seu voto contra o projeto fosse registrado em ata, argumentando que o piano deveria permanecer no Instituto Histórico e Geográfico.

O projeto foi aprovado na Sala das Comissões do Senado do Estado do Pará em primeira discussão.

Em 19 de outubro ao ser anunciada a segunda discussão do projeto o senador Abel Chermont apresenta uma  emenda ao projeto:

“Artigo Único: onde se lê: ao Centro de Ciências, Letras e Artes da cidade de Campinas, Estado de São Paulo, diga-se: Instituto Histórico e Geográfico do Pará”.

A emenda não foi aprovada e o projeto passou pela terceira discussão no Senado em 20 de outubro com aprovação da maioria.

Na Câmara o projeto recebe parecer favorável em segunda e terceira discussões e foi aprovado unanimemente, no dia 30 de outubro de 1926.

Em 12 de novembro de 1926, foi aprovada a Lei 2.556, autorizando o Governo do Estado do Pará a tomar providências, concedendo ao Centro de Ciências, Letras e Artes a guarda do piano que pertenceu a Carlos Gomes.

O Decreto Nº 4.308, datado de 3 de dezembro de 1926, foi expedido e assinado pelo Governador Dionísio Ausier Bentes e pelo Secretário Geral do Pará, Deodoro de Mendonça.

O Centro de Ciências recebeu um ofício informando a aprovação da Lei e do Decreto através de seu sócio Armando Nascimento, que, por procuração, assinou o recibo de entrega do piano de Carlos Gomes pela Associação de Imprensa do Pará em 8 de dezembro de 1926.

O doutor José Lobo, Secretário do Interior do Estado de São Paulo, recebeu um telegrama do Governador do Pará comunicando que atendera ao pedido do Centro de Ciências, concedendo-lhe a guarda do piano de Carlos Gomes.

Imediatamente, o doutor José Lobo avisou o presidente da Câmara, doutor Antônio Lobo, para dar início aos procedimentos necessários junto ao Centro de Ciências, que já estava em contato com o Presidente do Estado de São Paulo, doutor Carlos de Campos, solicitando ajuda para o traslado do piano para Campinas.[5]

Entre 12 e 17 de novembro de 1927, Armando Nascimento informou à presidência do Centro de Ciências e ao Secretário Geral que o piano foi embarcado no navio “Itaquatiá”.[6]

Em 11 de março de 1928, o piano já se encontrava no Centro de Ciências, Letras e Artes, onde foi utilizado durante uma sessão cívica em homenagem ao Estado do Pará e ao seu governador.[7]

Acertou o maestro Ettore Basio ao se despedir do piano de Carlos Gomes com uma cronica de lamento e de ternura  publicado no Jornal “Folha do Norte” de 8 de dezembro de 1926, que pedimos licença por publicar apenas uma parte:

“Adeus meu velho amigo!”

Ettore Basio.

“Um decreto Governamental te destina e entrega ao Centro de Ciências Letras e Artes, terra natal de seu senhor.

Que lá a tua ossada, seja venerada e respeitada como merece….

…Foste, depois, segregado a uma fria e úmida sepultura no Teatro da Paz, em um compartimento sem luz, sem ar, habitado por cruéis roedores e nocivos insetos.
De lá foste salvo pela misericórdia e pelo coração generoso de Lauro Sodré… que te entregou a Associação de Imprensa do Pará.

Embora sem cordas, sem marfins e sem vida sonora, mudo, como é mudo o oceano em dia de calmaria, eras ainda o precioso piano de Carlos Gomes!

…que o que resta de ti, inspirem os teus novos e ilustres possuidores, o carinho, o amor, o respeito, sentidamente intensos que o Brasil te deve, porque traduziste as fulgurações do maior Genio da América do Sul – “Carlos Gomes”

Adeus meu velho amigo! Adeus! Parte em Paz!”

[1] Jornal Pequeno – PE Edição 0059 de 14 de março de 1914 páginas 1 e 2
[2] Jornal Pequeno – PE Edição 0241 de 17 de outubro de 1917 página 2
[3] Revista do Centro de Ciências Letras e Artes, Ano XXI 54 e 55 de janeiro de 1927, páginas 25 a 41
[4] Revista Ilustrada Para Todos… Ano I de 8 de maio de 1926, impressa nas Oficinas de “O Malho”, Rio de Janeiro, página 38.
[5] Jornal Correio Paulistano Edição 22784 de 26 de dezembro de 1926 página 2
[6] Jornal Correio Paulistano Edição 23091 de 18 de novembro de 1927 página 8
[7] Jornal Correio Paulistano Edição 23187 de 28 de março de 1928 página 3