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Meninos no Balanço
Cândido Portinari
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Meninos no Balanço
Releitura de Mateus Scriptore Braz
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Há alguns anos, durante um fim de semana, visitei, em Brodowski, a casa de Cândido Portinari, lugar onde o artista viveu momentos preciosos ao lado de sua família. Um ambiente que faz sentir de perto as raízes que inspiraram uma das mais importantes trajetórias da arte moderna brasileira.
Minha companhia naquela ocasião foi minha irmã e minha querida mãe, que já se encontrava em estágio bastante avançado de um câncer de bexiga.
Após o almoço dominical na cidade de Ribeirão Preto, fomos passear em Brodowski, cidade onde Portinari viveu sua infância e juventude.
Eu tinha dois anjos que eram a minha maior preocupação e a de meus familiares. Minhas duas pequenas, naquela época, não nos acompanharam.
Mas foi no pequeno oratório de dona Pellegrina que a visita me alcançou por inteiro. A avó de Portinari já não podia caminhar até a igreja. Então o neto lhe trouxe a fé para dentro de casa. Nas paredes, santos com rostos de parentes e amigos pareciam guardar aquele silêncio antigo, compartilhado comigo, minha mãe e minha irmã.
Saber que, em 1941, ele se dispôs a criar aquele espaço com tanta abnegação demonstra o apreço e o afeto que tinha por sua família.
Pois bem, hoje fui pego de surpresa quando meu neto Mateus, filho do anjo mais velho que não me acompanhou na visita a Brodowski, pediu minha ajuda para fazer uma releitura sobre Cândido Portinari. Ele havia escolhido a pintura Meninos no Balanço. Sua releitura foi expressa por meio de sua aptidão gráfica, que está manifestada na imagem que acompanha este texto.
Mas o que ele não sabia — e fiz questão de lhe contar — é que a obra nos traz a interpretação de que, em Meninos no Balanço, as crianças parecem flutuar no espaço, como anjos no céu, transmitindo liberdade, alegria e o encanto da infância.
Então lhe deixei uma pergunta:
— Onde está apoiado o balanço?
Sem saber o que responder, olhando para a tela de Portinari, ele me respondeu:
— Está apoiado no céu, vovô.
E eu apenas completei:
— Isso mesmo, nas mãos do Criador.
Esse grande brasileiro, modernista, que nasceu em 1903 e morreu em 1962, vítima da intoxicação causada pelos metais pesados presentes nas tintas que utilizava em suas pinturas, dedicou grande parte de sua obra à infância, especialmente entre 1955 e 1960. Desse período destacam-se obras como Meninos com Carneiro, Meninos na Gangorra, Meninos no Balanço, Meninos Soltando Pipas e Meninos Brincando.
Não bastasse toda a emoção despertada por aquela releitura, ela me conduziu a uma reflexão inesperada. Ao olhar para Mateus diante da obra de Portinari, revi minha mãe, minha irmã e a mim mesmo, anos atrás, caminhando pelos cômodos daquela casa em Brodowski. Compreendi que o tempo, silenciosamente, havia transformado minhas duas pequenas figuras angelicais em mulheres bondosas e generosas, das quais me orgulho profundamente.
Hoje, são elas que sustentam muitos dos afetos que ajudamos a construir. E, como se a vida gostasse de redesenhar seus mais belos quadros, vieram depois Mateus, Luiza, Laura e Laís. Quatro novos anjos que iluminam o tempo que me resta, como crianças em um balanço suspenso pelas mãos invisíveis do amor, da memória e da graça de Deus.
Já não acompanho com a mesma destreza as brincadeiras da infância, mas ainda me deixo conduzir por elas. Em um abraço, em um carinho ou em um sorriso inesperado, encontro a beleza dos dias e a serenidade das horas derradeiras que ainda tenho o privilégio de viver.