Arquivo mensal 08/01/2026

A Revista do Brasil

Capa-Media-202x300 A Revista do Brasil

Venho de um grato colóquio com as cousas do nosso passado.
Na retina se me estampam ainda a alvura das capelinhas
montanhesas, entre o anil do céu e o verde das frondes,
o porte simbólico dos cruzeiros, a pedra corrida dos velhos
chafarizes, os muros negros, as arvores anciãs. Por algum
tempo, curto em dias, mas longo em meditação e saudade,
conversei as sombras dos nossos mortos nas ruínas das nossas
paisagens. E se ouso agora tomar da pena, é porque deles,
dos nossos mortos amados, ouvi uma longa queixa sentida
contra o desamparo em que os deixam os brasileiros de hoje.
É a voz das mortas gerações que fala por minha voz; a voz
dos homens que primeiro desbravaram o terreno nacional,
a dos que primeiro assentaram a pedra angular da nossa pátria.
Acorrei, filhos ingratos desta Terra: vinde ouvir a lamentação
das ruínas!

Alceu de Amoroso Lima

Pelo Passado Nacional

Revista do Brasil Volume III Ano I Número 9 página 1
Publicação Mensal de Ciências Letras, Artes História e Atualidades
Redação e Administração de uma Sociedade Anônima – outubro de 1918

Alguns de meus amigos exercem um poder extraordinário, embora eles próprios o ignorem. É o poder de despertar meus neurônios para o ofício da escrita. Posso afirmar que muitos dos meus trabalhos nascem justamente dos questionamentos e das dúvidas que eles lançam sobre o meu intelecto, como sementes silenciosas.

Há alguns dias, ao discorrer sobre a longevidade da Revista da Biblioteca Mário de Andrade, originalmente conhecida como Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal de São Paulo, fui levado, quase sem perceber, a revisitar antigos manuscritos. Esse gesto me fez mergulhar em meu próprio universo histórico, especialmente aquele ligado à cidade de Campinas. Ali, entre papéis esquecidos e memórias adormecidas, repousava, discreta e silenciosa, a Revista do Brasil, aguardando o momento de novamente ser lida e lembrada.

O leitor talvez se pergunte o que a Revista do Brasil tem a ver com a cidade de Campinas, com a Revista da Biblioteca Mário de Andrade ou mesmo com esses amigos que atravessam silenciosamente estas linhas. Confesso que talvez não consiga responder a todos esses questionamentos de modo plenamente satisfatório. Ainda assim, apresento duas razões que servem como justificativa para o percurso que ora empreendo.

A primeira diz respeito à origem da Revista do Brasil, idealizada pelo jornalista, político, advogado e empresário Júlio César Ferreira de Mesquita. Campineiro de nascimento e, paradoxalmente, pouco reconhecido por sua própria cidade, Júlio de Mesquita foi amplamente cultuado no estado de São Paulo e no Brasil. Não raras vezes, contudo, seu nome e seus feitos foram confundidos ou atribuídos de forma equivocada ao de seu filho, Júlio de Mesquita Filho, como se a memória coletiva insistisse em deslocar o mérito de seu ponto inaugural.

Quando escrevi o livro Freguesia, Vila e Cidade de uma Campinas Velha, deparei-me com um enorme desafio para encontrar dados e referências relativos ao Coronel Joaquim Quirino dos Santos. Diante da grande escassez de fontes, só consegui escrever o capítulo 11 com o auxílio do magnífico artigo publicado na Revista do Centro de Ciências e Letras, número 54, de 30 de setembro de 1916, que reproduzira o texto de Júlio de Mesquita escrito em 16 de março de 1899.

Não hesitei, portanto, em intitular esse capítulo O Coronel Quirino dos Santos e Júlio de Mesquita, pois foi justamente nesse percurso de pesquisa que se revelou um aspecto até então pouco conhecido: a sólida relação de amizade que unia Júlio de Mesquita a Leopoldo Amaral, elo significativo para a compreensão das redes intelectuais e afetivas da Campinas daquele tempo.

A segunda razão repousa no tempo, elemento que, mais do que registrar datas, molda permanências e esquecimentos. A Revista do Brasil circulou inicialmente entre 1916 e 1918 como iniciativa de uma sociedade anônima. De maio de 1918 a 1925, passou a constituir-se como empresa adquirida por Monteiro Lobato, período em que acolheu colaborações de nomes centrais do modernismo brasileiro, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade.

Em setembro de 1925, a revista passou às mãos de Assis Chateaubriand, que transferiu sua publicação para o Rio de Janeiro, onde circulou até janeiro de 1927. Relançada em 1938, novamente sob a direção de Chateaubriand, manteve-se ativa até 1943. No ano seguinte, alguns poucos números ainda vieram à luz sob a direção de Frederico Chateaubriand, tendo Millôr Fernandes na secretaria, como um último sopro editorial.

Após um silêncio de quatro décadas, a Revista do Brasil ressurgiu por iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e da RIOARTE, que publicaram doze números entre 1984 e 1990, gesto tardio, mas significativo, de reafirmação de sua permanência na memória cultural brasileira.

A Revista do Brasil nasceu em 25 de janeiro de 1916, data emblemática por homenagear o aniversário da cidade de São Paulo, muito antes do surgimento do Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal de São Paulo, lançado em 1943, publicação que mais tarde se transformaria na Revista da Biblioteca Mário de Andrade. Este último periódico habita a biblioteca de um amigo querido, cuja bagagem cultural e influência na cidade de Campinas são tamanhas que, por respeito e afabilidade, prefiro não evocar diretamente seu nome neste artigo. Assim, ele permanece presente apenas como uma sombra benigna, dessas que acompanham a memória sem jamais se impor.

São inúmeros os trabalhos que se dedicam à história da cultura brasileira e, inevitavelmente, ao papel cultural e literário da Revista do Brasil, publicação que traz em seu bojo um conteúdo excepcional, atravessado por reflexões sobre política, filosofia, história, religião e direito. Trata-se de um periódico mensal que, em sua fase inicial, procurou retratar o panorama de um Brasil imerso em um clima pré-moderno, tal como se apresentava à sociedade de então.

Em meados de 1915, quando o mundo já se encontrava imerso na Primeira Guerra Mundial, Júlio de Mesquita, vereador em Campinas no ano de 1887, deputado federal por São Paulo em 1892, deputado estadual nos anos de 1891, 1894, 1898, 1907 e 1910, e senador por São Paulo em 1912, passa a organizar um novo periódico, inicialmente concebido para se intitular Cultura.

Aos 54 anos, Júlio de Mesquita já havia experimentado não poucos dissabores com a chamada Velha República, regime que ajudara a construir ao lado de figuras como Campos Salles, Bento Quirino dos Santos, Francisco Glicério, Rangel Pestana, entre tantos outros. Ainda assim, não perdera a fleuma nem o espírito de liberal constitucional, profundamente comprometido com a liberdade de imprensa. É nesse contexto que decide convocar, em seu escritório no jornal O Estado de São Paulo, dois colaboradores de confiança, aos quais atribui a missão de fundar a revista: Luís Pereira Barreto, seu advogado, e José Martins Pinheiro Júnior, secretário, advogado e jornalista.

Coube a Luís Pereira Barreto a tarefa de recrutar os colaboradores do novo periódico, tarefa que resultou na reunião de algumas das mentes mais expressivas da intelectualidade brasileira daquele momento. Entre elas figuravam Olavo Bilac, Graça Aranha, Alcides Maya, Alfredo Valadão, João Kopke, Félix Pacheco, José Veríssimo, Nestor Victor, Roquette-Pinto, Oliveira Vianna, João Ribeiro, Assis Brasil, Oliveira Lima, Sílvio de Almeida, Basílio de Magalhães, Valdomiro Silveira, Medeiros e Albuquerque, Alceu Amoroso Lima, entre muitos outros que a memória talvez não consiga aqui abarcar por completo.

A José Martins Pinheiro Júnior coube a árdua missão de angariar acionistas para a revista. Uma tarefa especialmente difícil diante do cenário econômico adverso e do clima de instabilidade imposto pela guerra que assolava o mundo. Quando, finalmente, a primeira edição veio a público, em 25 de janeiro de 1916, nela foram nomeados os acionistas: médicos, engenheiros, professores, advogados, políticos e até jornalistas.

Entre eles figurava o filho de Júlio de Mesquita, então estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que, no futuro, emprestaria seu nome a uma das maiores universidades públicas do Brasil: a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, hoje amplamente conhecida como Unesp.

Imprescindível dizer que a Primeira Guerra Mundial acendeu o estopim nacionalista de defesa da Pátria e que, já em 1915, o poeta Olavo Bilac desencadeara uma acirrada campanha em favor do serviço militar obrigatório, concebido não apenas como instrumento de proteção nacional, mas, sobretudo, como escola de civismo e formação moral da juventude brasileira.

Diante desse contexto e, provavelmente, sob o contágio da atmosfera nacionalista, decidiu-se abandonar o primitivo nome Cultura e adotar o título Revista do Brasil.

No primeiro número da revista, seus objetivos são delineados de forma clara:

O que há por traz do título desta Revista e dos nomes que a patrocinam é uma coisa simples e imensa: o desejo, a deliberação, a vontade firme de constituir um núcleo de propaganda nacionalista. Ainda não somos uma nação que se conheça, que se estime, que se baste, ou, com mais acerto, somos uma nação que ainda não teve o ânimo de romper sozinha para a frente numa projeção vigorosa e fulgurante da sua personalidade. Vivemos desde que existimos como nação, quer no Império quer na República, sob a tutela direta ou indireta, senão política ao menos moral do estrangeiro. Pensamos pela cabeça do estrangeiro, vestimo-nos pelo alfaiate estrangeiro, comemos pela cozinha estrangeira e, para coroar essa obra de servilismo coletivo, calamos, em nossa, pátria, muitas vezes, dentro dos nossos lares, a língua materna para falar a língua do estrangeiro.

Revista do Brasil Volume I Ano I Número 1 página 2
Publicação de Mensal Ciências Letras, Artes História e Atualidades
Redação e Administração de uma Sociedade Anônima – janeiro de 1916

O grupo fundador da revista, composto por mais de cinquenta sócios, foi relacionado no primeiro número da publicação e manteve-se assim até maio de 1918, quando a sociedade se desfez diante de uma proposta de compra apresentada por Monteiro Lobato, que então se tornou o proprietário único da revista.

Hoje, ao presenciar as inúmeras discussões em torno de temas ainda tão polêmicos, como a escola cívico-militar, o serviço militar obrigatório, os direitos e as ameaças ao exercício da soberania nacional, o direito ao voto, a moralização da política, a língua e a cultura próprias, torna-se de importância quase obrigatória conhecer um pouco do que fomos culturalmente e do que desejamos ser, no futuro, enquanto nação.

Deixo, assim, um convite aos amigos que, no século XXI, navegam com senso crítico apurado pelo universo cultural e literário: que se aventurem pelas dezenas de volumes da Revista do Brasil, compostos por quatro ou cinco números, com média de noventa e cinco páginas cada, para reencontrar uma época que ajudou a construir, no plano intelectual, a identidade de um país e de uma nação hoje quase esquecidos pelas novas gerações.