Arquivo da categoria Temas Políticos, Sociais e de Humanidades

O Monumento a Campos Salles e a espera pela Revolução de 1932.

O Passado não reconhece o seu lugar:
está sempre presente
Mario Quintana
1834-ou-acima--300x185 O Monumento a Campos Salles e a espera pela Revolução de 1932.
Praça Visconde de Indaiatuba

Largo do Rosário

Logo depois da morte do ilustre doutor Manuel Ferraz de Campos Salles, no seio da cidade de Campinas nasce um movimento liderado por políticos, pelos seguidores das ideias republicanas e amigos de Campos Salles com o propósito de marcar a cidade com uma homenagem ao campineiro e segundo presidente civil deste país.

Na gestão do prefeito, intendente nomeado, Orozimbo Maia e por iniciativa de projeto da Câmara Municipal de Campinas eram publicados na imprensa edital para a construção do monumento a Campos Salles. Edital, datado de 22 de fevereiro de 1930, assinado pelo secretário da Prefeitura, Amilar Alves.

Não podemos deixar de ressaltar a figura do secretário da prefeitura, Amilar Alves, homem do cinema, da cultura e que tão bem soube representar o Centro de Ciências, Letras e Artes, nas funções que ali exerceu.

Depois de vários adendos e modificações deste edital, se estabelece que os escultores concorrentes deveriam adotar um pseudônimo para sua maquete e enviar a documentação e suas propostas até as 14:00 horas do dia 20 de junho de 1930.

O julgamento para a escolha do escultor vencedor que iria realizar a construção deste monumento aconteceu no dia 10 de julho de 1930, conduzido por uma comissão composta dos vereadores Doutor Ernesto Kulmmann e Benedicto Cunha Campos e mais Perseu Leite de Barros, engenheiro civil que ingressara neste mesmo ano no serviço público como chefe de obras e viação. Completavam a comissão o arquiteto Alexandre de Albuquerque e os escultores Amadeu Zani e Marcelino Nellez.

A comissão reunida no “Salão do Fascio Italiano” localizado na Rua Barreto Leme, escolheu a maquete “Ephiteto”, do escultor Yolando Mallozi vencedora, obtendo assim o primeiro lugar e como segundo lugar a maquete “Semper Ut Quo-dam” do escultor Hugo Bertazzan do Rio de Janeiro, que recebeu o prêmio de 4.000$000 réis. As maquetes ficaram em exposição no “Salão do Fascio Italiano” para que todos pudessem apreciar a decisão apoiada e concorde do prefeito Orozimbo Maia, da comissão e todos os técnicos envolvidos no processo.

Três meses depois, deste concurso para a escolha do escultor do monumento, acontece a revolução de 1930, no dia 24 de outubro, que impõe a queda do governo de Washington Luís, exatamente vinte e um dias antes do término do período presidencial.

Júlio Prestes de Albuquerque, paulista de Itapetininga vencera as eleições de março de 1930 e aguardava para ser empossado, mas a deposição de Washington Luís e a instauração da junta governativa presidida pelo General Tasso Fragoso provocou uma espera na normalização do ambiente político.

A junta governativa exerceu a presidência até o dia 4 de novembro de 1930, data em que transferiu o governo para Getúlio Vargas, líder da revolução e do golpe. Júlio Prestes de Albuquerque foi impedido pelo governo de Getúlio Vargas de assumir a presidência, passando assim para a história como o único presidente eleito pelo voto popular que não foi empossado.

Apresentavam-se mais uma vez, as ideias de Campos Salles, vivas pela luta democrática e de libertação na qual o povo exerce o papel de senhor de todas as vontades, mas de forma geral acaba derrotado pelo despótico poder das armas e dos poderosos. O monumento esperava a homenagem do povo de Campinas.

Entre 1931 e 1932 os paulistas e principalmente os campineiros, esperavam de Getúlio Vargas a normalização do ambiente político, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a data para eleição presidencial.

No dia 23 de maio de 1932, em São Paulo, um ato cívico levou milhares de paulistas para a Praça do Patriarca, Rua Líbero Badaró, Praça da República, Ladeira de São João, Rua São Bento, Praça da Sé, Viaduto do Chá e rua Conselheiro Crispiniano para seguir em direção ao palácio do governo, onde se encontrava o novo interventor do governo paulista,  Pedro Manuel de Toledo.

O ato cívico reivindicava as eleições presidenciais e notícias da Constituinte. Na praça da República, esquina com Barão de Itapetininga estabelece-se um conflito entre o povo, a polícia e os membros da Legião Revolucionária. Neste conflito é metralhado o estudante Mario Martins de Almeida de 31 anos, Euclydes de Miragaia de 21 anos com um tiro no peito, Antonio Camargo Andrade por tiros disparado por populares e Dráuzio Marcondes de Sousa de 14 anos ferido por um tiro de Legionários. Os restos mortais destes mártires, estão hoje, sepultados no mausoléu do Obelisco do Ibirapuera.

Para quem passa nas imediações da Rua Guilherme de Almeida, no Cambuí, Campinas, pode notar uma rua curta, de uma quadra, denominada Rua MMDC. Este acrônimo construído pelas letras M de Mario, M de Miragaia, D de Drauzio e C de Camargo, se tornou sigla para a organização clandestina que iria conspirar e organizar a Revolução Constitucionalista que principiou em 9 de julho de 1932. Depois do conflito tornou-se uma sociedade sem fins lucrativos e de utilidade pública denominada “Sociedade Veteranos de 32 – MMDC”, hoje com sede no Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 32, conhecido como Obelisco do Ibirapuera desde 9 de dezembro de 2014.  O núcleo de Campinas funciona e atende na Rua General Osório, 490, nas antigas instalações dos escritórios da Mogiana.

Campinas se posicionou, daqui saíram soldados para combater tropas “getulistas” infiltradas e estacionadas nas cidades das linhas da Mogiana, da Paulista e no interior do estado de São Paulo. Eram desiguais as forças do governo de Getúlio e as tropas dos Paulistas dadas as desproporções do material bélico.

Campinas foi bombardeada pelos aviões vermelhos do governo, nos dias 18 e 24 de setembro de 1932.

O jornal o Estado de São Paulo que apoiava os soldados constitucionalistas, notícia o bombardeio do domingo, dia 18 de setembro:

“Prossegue com intensidade a luta no setor do Amparo. A situação das tropas constitucionalistas continua ser, naquele setor, muito boa. Um avião da ditadura voou hoje sobre a cidade de Campinas, jogando uma bomba, no pátio fronteiro da estação da Paulista, matando o menor Aldo Chiorato, de 9 anos de idade, filho de João Chiorato e ferindo gravemente o velho operário italiano Vicente Nome, cujo estado inspira cuidados, e um velho sírio. Também foi ferido, mas sem gravidade o funcionário da Mogiana, Isolino Monteiro. Passageiros de um bonde que na hora trafegava pelo local receberam também alguns ferimentos. Outra bomba foi lançada sobre a estação da Mogiana, sem causar danos e uma terceira caiu sobre uma residência particular da rua Campos Salles, destruindo parte do edifício. Os moradores estavam ausentes, as bombas eram grandes, de peso aproximado de 45 quilos.
À tarde, a aviação da ditadura voltou a bombardear Campinas, lançando contra aquela cidade cinco bombas. Duas caíram na Cadeia, ferindo vários presos, duas alcançaram o pátio da estação da Paulista, sem causar vítimas e a última estourou na Vila Industrial, que é habitada por operários, ferindo vários deles. Esse bombardeio desumano e sem nenhum objetivo militar, pois não visou lugares onde houvesse concentração de tropas ou fortificações, causou profunda indignação no povo campineiro.”
[1]

A repercussão da morte de Aldo Chioratto começou no dia 24 de setembro 1932, quando Raul Laranjeira, exímio violinista, premiado na Europa e que havia se incorporado ao “Batalhão Diocesano” sediado no Interior do Estado, se propõe a fazer assim que possível um concerto e reverter a renda para a família da criança de 9 anos.[2]

Nas comemorações de 23 de maio de 1966, “Dia da Juventude Constitucionalista” e quando das solenidades de transferência dos restos mortais de Aldo para o Obelisco do Ibirapuera, Guilherme de Almeida, de forma emocionado escreveu lindos versos no jornal Estado de São Paulo:

Vem de Campinas — a minha Campinas dos jequitibás — o herói criança – Aldo Chioratto – verde vergôntea da árvore velha que vergastada por vendaval manda a mensagem que eu adivinho e que em alguém por mim somente em épica língua é capaz de exprimir, o exprime assim:

Tu infante imolado, tenro caule,

de raríssima arvore cortado,

Muda plantada que ora aqui floresce.

Deixando lá, na cicatriz do cerne.

Promessa de altas florações futuras!”[3]

No dia 24 de setembro, o correspondente do Diário Nacional narra desta maneira o bombardeio em Campinas:

“Hoje, precisamente ás 12:25 horas, dois aviões da ditadura, voando por sobre Campinas, não demoraram a dar sinais de que em cumprimento nos seus monstruosos propósitos, vinham para hostilizar a cidade.
Para logo, entretanto, sumia das vistas do povo ansioso um dos sinistros mensageiros alados do crime e da irresponsabilidade, atocaiado como fera, numa das mais belas capitais do mundo…
Outro, porém, librando-se a uma altura, calculada, de 2.000 metros, aqui ficava a corvejar, ameaçadoramente.
Tivemos ocasião de observar, aos primeiros bufos dos aeroplanos, as precauções que à população toma a fim de se preservar, o mais possível, aos efeitos do bombardeio aéreo. Estamos na praça Bento Quirino. Ali está a estátua do Carlos Gomes, o gênio da harmonia brasileira, a afrontar impassível, simbólico, a fúria assassina dos “azes” ditatoriais. Mas, os transeuntes se recolhem à primeira porta que ainda encontram aberta. Todas as casas com as suas portas e janelas cerradas. Tudo, porém, sem correria, nem gritos, nem inúteis gestos desordenados. Opressos e indignados, os campineiros esperam estoicamente a vil agressão dos ícaros infernais.
Os céus, pejados de nuvens escuras, como que envolvem numa proteção tenebrosa a ronda dos malditos bombardeadores de mulheres, velhos, crianças e enfermos.
Do repente, o primeiro assovio e o primeiro estrondo: é o traiçoeiro delírio de matar, de destruir, de arrasar! Ao emergir do bojo negro de uma nuvem, lá despejara o aviador inimigo o seu cartão de visita, certamente decorado com os brasões do “Clube 3 de Outubro”…
E, as negaças! E as evoluções! E o ir o vir desse pássaro da morte, e seus arrabaldes: cinco dos quais em pleno perímetro urbano, em um raio de 500 metros, pouco mais ou menos, no derredor da estação da Paulista.
Os petardos atirados fora do perímetro urbano não causaram estragos nenhum. Dos que atingiram as imediações da gare ferroviária, três vieram explodir à travessa Monte-Mór, na Villa Industrial, duas das quais em meio da rua, razão pela qual não provocaram estragos nem vítimas. A terceira, porém, veio rebentar em cheio no prédio número 74 daquela travessa, aluindo-o quase totalmente.
Não fora a precaução de seus moradores, que são o senhor Antolin Fernandez, maquinista da Mogiana, e sua mulher, e teríamos a lamentar, sem dúvida, vítimas pessoais. Apesar de encontrar-se no próprio domicílio, o senhor Antolin escapou aos terríveis efeitos da bomba de modo verdadeiramente providencial: metera-se por debaixo de uma mesa, que resistiu a compressão do telhado e paredes desmoronados. Quanto à esposa do maquinista, esta se havia retirado para casa de uma família vizinha à aproximação dos aviões inimigos…
Duas outras bombas, explodindo em meio da rua 24 de Maio, também na Vila Industrial, não fizeram vítimas pessoais nem estragos materiais de monta.
Eis a obra dos outubristas, a quem o demônio emprestou suas asas!
Não deixemos de assinalar, ainda, o alcance de mais este fato, determinado pelo desumano bombardeio de Campinas: à hora em que ele se verificou, hoje, a estação da Paulista se achava repleta de famílias inteiras e civis de todas as qualificações sociais, à espera do trem que os conduziria para São Paulo.[4]

Oito dias depois deste evento em uma negociação na cidade de Cruzeiro, em 2 de outubro de 1932, aconteceu o final do conflito com o armistício assinado pelo General Pedro de Aurélio Góis Monteiro.

Foi então, designado um interventor para o estado de São Paulo, o general Valdomiro Castilho de Lima.

Em Campinas, no sábado, dia 18 de agosto de 1934, o prefeito nomeado Perseu Leite de Barros, se prepara para a grande inauguração do monumento a Campos Salles e o interventor nomeado por Getúlio Vargas, o engenheiro Armando de Sales Oliveira, resolve aproveitar-se deste evento para reconciliar mais uma vez a alma campineira e paulista com o governo central do Brasil.

Os jornais anunciaram com bastante antecedência a programação da vinda do interventor para Campinas. Mas o fato é que Campos Salles foi esquecido nesta inauguração, que teve diversos outros campineiros enaltecidos como Fernão Salles, Joaquim Bonifácio do Amaral, além de politicamente o interventor utilizar a inauguração para prestar contas de um ano do seu governo no Estado de São Paulo.

O Interventor Armando de Sales Oliveira anuncia previamente pelos jornais a agenda sua em Campinas:

  • Partida pela manhã da estação da Luz em trem especial.
  • Chegada a Jundiaí com salva de 21 tiros de morteiro e partida anunciada para Campinas com 1 tiro de morteiro.
  • Em Jundiaí esperarão o Interventor os senhores, Doutor Horácio Antonio da Costa, Doutor Theodureto de Camargo, Doutor Sylvino de Godoy, Claudio Celestino Soares, Aníbal de Freitas, professor José Villagelin Netto, membros do diretório local do Partido Constitucionalista.
  • O tenente coronel Tenório de Brito comandante do 8° Batalhão de Polícia de Campinas prestará ao Interventor as continências de estilo acompanhado do corpo discente das escolas, casas de ensino e associações.
  • Às 13:00 horas após a chegada, o Interventor e sua comitiva caminharão até o Largo do Rosário – Praça Visconde de Indaiatuba, passando pelas ruas 13 de maio, Francisco Glicério, Conceição e Barão de Jaguara.
  • No largo do Rosário, Armando de Salles Oliveira fará a entrega do monumento a Campos Salles, ocasião em que discursarão Carlos Francisco de Paula pela municipalidade, doutor José Pereira da Cunha pelo Centro de Ciências Letras e Artes e em nome da família de Campos Salles o doutor Luiz Pizza Sobrinho.
  • Três aviões “Corsário” do exército, um de passageiros da Vasp e um planador do Aeroclube de São Paulo voarão sobre a praça atirando flores.
  • No Centro de Ciências, Letras e Artes estarão expostas as relíquias de Campos Salles pertencentes ao Museu daquela agremiação.
  • Das 14:40 às 15:40 recepção na Prefeitura Municipal, onde o Interventor será homenageado pelo Presidente do Conselho Municipal, doutor Carlos Stevenson.
  • Visita a Escola Normal e Escola Profissionalizante Bento Quirino onde  farão uso das palavras os professores José Villagelin Netto e José Minervino. Na Escola Profissionalizante Bento Quirino serão inauguradas as oficinas de fundição.
  • Visita ao Centro de Ciências Letras e Artes onde discursará o professor Nelson Omegna.
  • Às 20:30 no Teatro Municipal acontecerá um banquete para 500 talheres oferecido pelo Partido Constitucionalista, que reservará ao Doutor Paulo de Castro Pupo Nogueira o discurso de saudação  ao Interventor e sua comitiva, assim como será reservado tempo para o discurso do representante do 6º Distrito Eleitoral Doutor Antenor Candra.
  • Após o banquete,  um grandioso baile será oferecido  pela Sociedade Campineira ao Interventor e sua comitiva.[5]

O monumento a Campos Salles, não ficaria no largo do Rosário, compartilhando a praça Visconde de Indaiatuba com o povo de Campinas por muito tempo. Com a publicação da Lei 1457 de abril de 1956, inicia-se o alargamento da Francisco Glicério, a demolição da Igreja do Rosário e sua reconstrução no bairro do Castelo e um concurso para fazer da praça Visconde de Indaiatuba um centro Cívico, um local oficial para manifestações de civismo aberto à comunidade campineira. Foi eleito o projeto do arquiteto campineiro Renato Righetto, que trazia uma nova e moderna concepção, onde não haveria espaço para o monumento.

O Monumento foi retirado da praça, mutilado, pois perdeu sua base de granito, o que valeu um rebaixo de mais de um metro de altura e acabou sendo transferido para um espaço menor do que o local onde estava assentado. Uma rotatória nas confluências da Rua Onze de Agosto, Avenida dos Expedicionários e Avenida Campos Salles.

A transferência gerou discussão na imprensa e na sociedade campineira e ocasionou até ação judicial em fevereiro de 1960 por parte do escultor Yolando Mallozi, que pediu reparação pela retirada da base do monumento. Processo em que o escultor do monumento teve ganho de causa e mesmo assim o monumento permaneceu no mesmo lugar, contrariando a decisão judicial. [6]

A revolução de 1932 terminou, Campinas teve o seu monumento, se aliou ao progresso desmedido das grandes metrópoles e a escultura do personagem Campos Salles sentado ao pé da estação, vai dia a dia sendo esquecida e o seu nome desconhecido em sua própria terra.

[1] Jornal O Estado de São Paulo Edição 19287 de 19 de setembro de 1932 página 1
[2] Jornal O Estado de São Paulo Edição 19292 de 24 de setembro de 1932 página 2
[3] Jornal o Estado de São Paulo Edição 27943 de 24 de maio de 1966 página 2
[4] Jornal Diário Nacional Edição 01579 de 25 de setembro de 1932 páginas 1 e 3
[5] Jornal Correio de São Paulo Edição 00676 de 17 de Agosto de 1934 página 2
[6] De Casaca ao Pé da Estação – História do Monumento a Campos Salles – Dissertação de Mestrado de apresentada por Ana Rita Uhle no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas.

Homenagem à João César Bueno Bierrenbach

 

Cesar01-250x300 Homenagem à João César Bueno Bierrenbach
Digitalização da pintura óleo sobre tela de  Agnelo Corrêa.

Hoje, 07 de abril de 2022, dia do sesquicentenário de nascimento do  campineiro João Cézar Bueno Bierrenbach, encontrei uma forma simples para homenagear a data de 7 de abril de 1872, data em que a família Bierrenbach recebia o seu novo integrante. Fundador do Centro de Ciências Letras e Artes que abriga o Museu “Carlos Gomes”, Biblioteca “Cézar Bierrenbach” e Memorial “Campos Salles”, neste artigo, o homenageado não terá nenhuma revisão biográfica, mas buscarei relembrar um evento que teve lugar no salão nobre e pátio das arcadas da Academia de Direito da cidade de São Paulo.

Em 15 de novembro de 1892, houve uma sessão literária organizada por João César Bueno Bierrenbach contando com outros ilustres estudantes da Academia, entre eles Carlos Magalhães de Azeredo, ocupante da cadeira de número 9 da Academia Brasileira de Letras.

Foi uma comemoração dedicada à três poetas acadêmicos: Álvares de Azevedo, Castro Alves e Fagundes Varela. Com muita solenidade em curso o evento virou notícia do jornal O Estado de São Paulo.[1]

No evento discursaram o senhor Joaquim Inácio Ramalho conhecido como Barão de Ramalho, diretor da Faculdade, o doutor Brasílio Machado, doutor Aureliano Coutinho e o acadêmico, amigo de João Cézar, Carlos Magalhães de Azeredo. Ao terminar a fala de cada orador, uma banda de música executava o hino acadêmico de Carlos Gomes e Francisco Leite Bittencourt.

O discurso final coube à João César Bueno Bierrenbach, “…que em brilhantes hipérboles saudou a memória dos três vultos acadêmicos, revelando grande e louvável entusiasmo pelo talento de Castro Alves”, assim declarado pelo periódico.

Após o discurso de João César a banda tocou o Hino Nacional para encerrar a sessão e seguir a comissão organizadora no ato de inauguração de três placas de mármores, que traziam gravados em baixo relevo, os nomes dos três poetas. O evento terminou com as três placas assentadas e inauguradas na fachada principal da faculdade deixando os nomes destes grandes vultos devidamente registrados no prédio e nos corações dos participantes do evento.

Em carta de 25 de novembro de 1892, o acadêmico Carlos Magalhães de Azeredo, comunicava ao seu mestre, amigo e incentivador Castro Alves o acontecimento, ao mesmo tempo que entregava os originais da sua produção literária “Procelárias” onde consta o poema “Desiludido”[2] juntamente com um conto do livro “Alma Primitiva” denominado “Um Caso da Boêmia”, publicado somente em 1895, ambos dedicados à César Bierrenbach.[3]

Reproduzir agora em minha página pessoal o poema “Desiludido”, que tem um quê de vaticínio relacionado a vida do meu homenageado, foi a maneira que encontrei para alargar um pouco mais a memória histórica deste grande vulto campineiro.

DESILUDIDO
(à César Bierrenbach)

Chegara o sábio da existência ao termo.
Sentindo o espesso gelo
Da morte, em suas veias circulando,
E os membros lassos do seu corpo enfermo
Pouco a pouco invadindo, convertendo o
Em cadáver inerte e miserando,

Com olhar tardo, e triste,
Caros objetos, que por toda a parte
O rodeiam, revê: são obras de arte,
Livros, painéis, lembranças de outras eras,
Em que o melhor do seu haver consiste.
Depois, travando a derradeira luta
Com a sua alma, em reflexões austeras
O passado perscruta.

Pensa: Lustraram amplo estádio, ansiosos,
Meus passos. Horizontes.
Imprevistos abri, no voo largo
De minha mente; não sonhados gozos
Provei… E o néctar dessas doces fontes
Pôs-me nos lábios um sabor amargo!

Eu penetrei a essência
Das coisas; tudo quis saber; diante
A dor mais negra, o abismo mais hiante
Não recuei. E quando o acerbo, duro,
Lento curso perfiz da experiência,
Ao invés do alquimista — pobre doido! —
Vi, entre minhas mãos, o ouro mais puro
Tornar-se pedra, e lodo…

Era jovem; amei. Consta que amado
Fui também algum dia.
Tempo dos deliciosos juramentos,
Como vais longe! É longe o teu reinado,
Quimera da vibrante fantasia,
Feita de ciúme e de ósculos sedentos!

Oh! esse amor supremo,
Imaculado encanto peregrino,
Celeste aspiração, sonho divino,
Bem vil o achei… Da poética beleza
Despido, era, por fim — dizendo-o tremo—
Um delírio carnal, bem cedo extinto,
De raiva atroz, eternamente acesa
Bruto e ferino instinto

Desesperado então, refugiei-me
Na ciência, calma e honesta,
Aqui não há — disse eu — traidora chama,
Que ao sentimento esquivo as asas queime.
Eis o almejado asilo que me resta;
Eis o nome da gloria que me chama!

Dias de faina rude,
Noites de febre, noites de vigília,
Num frio lar, sem culto e sem família!
Quantos problemas estudei, confiante
Do meu labor perene na virtude!
Que sei, em suma? Visionário louco!
Ante o universo, o teu saber tateante
É tão pouco! É tão pouco!

Tudo é nada. A esta fórmula sublime
Cheguei, Tanto o desejo,
Como a esperança, nada podem. Brade
Embora o mundo, que a mentira oprime,
Entre as verdades fúteis, que sem pejo
Ensinei, esta é a única Verdade!…

Carlos Magalhães de Azeredo – 1892

[1] O Estado de São Paulo Edição 5288 de 17 de setembro de 1892
[2] Azeredo, Carlos Magalhães de – Procellarias – Porto Typographia a vapor e Empreza Litteraria e Typographica, Porto – Portugal – 1898 páginas 168 – 170
[3] Assis, Machado de, 1839-1908. Correspondência de Machado de Assis : tomo III, 1890-1900 / coordenação e orientação Sergio Paulo Rouanet ; reunida, organizada e comentada por Irene Moutinho e Sílvia Eleutério. – Rio de Janeiro : ABL, 2011. 658 p. ; 21 cm. – (Coleção Afrânio Peixoto ; v. 98) – documento 287, página 19 ISBN 978-85-7440-229-1

Um Pouco de Futebol

Os Palmeirenses e os Italianos do Palestra

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Associação Atlética das Palmeiras

Palestra Itália – Palmeiras

Para os menos avisados com relação ao meu nome totalmente italiano, em razão de uma avó espanhola, grande parte dos meus primos foram iniciados desde pequeno a torcer pelo do São Paulo Futebol Clube. A atividade de pesquisador e o gosto de beber na fonte do passado me levam à agir como o motorista do auto que olha para a frente, para o que há de vir, e, mantendo os olhos nos retrovisores avaliam o cenário do que já passou, para se ter uma viagem tranquila e segura.

A grande verdade é que o Palmeiras de hoje trata-se do antigo Palestra Itália que em função da II Guerra Mundial, no ano de 1942,  foi obrigado a mudar de nome e passou a se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras.

Este nome foi dado para reverenciar um time preto e branco denominado Associação Atlética das Palmeiras que se instalava na Chácara da Floresta onde tinha sede o  Clube de Regatas São Paulo, que foi antecessor do Centro Esportivo Tietê, local bem próximo da Ponte das Bandeiras (antigamente Ponte Grande de Santana).

A Associação Atlética das Palmeiras em 1904 disputou com o Internacional de Santos uma única vaga de acesso e venceu por 4 x 0 e passando a fazer parte da Primeira Divisão do Paulista.

Associação Atlética das Palmeiras foi campeã da Primeira divisão Paulista nos anos de 1909, 1910 e 1915.

Em 1916, a Associação Atlética das Palmeiras, emprestando jogadores, técnico e dando até treinamentos, ajudou o recém fundado Palestra Itália ganhar uma vaga para disputar o Campeonato Paulista de Futebol pela primeira vez.

Em 1920 descobri esta raridade, no Correio Paulistano de 17/07/1920 com o título “Football”.

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Correio Paulistano, sábado 17/07/1920 pag. 4 Ed 20488

Nesta mesma época, forma-se dois blocos de times: um pela profissionalização de atletas, liderados pelo Corinthians e Palestra Itália e outro bloco formado por Clube Atlético Paulistano, Sport Club Germânia e a Associação Atlética das Palmeiras que defendiam o amadorismo e elitismo.

Nos anos de 1926, 1928, 1929 e 1930 o bloco dos profissionalizantes com estrutura diferente e melhor organizado conseguem acabar com a Liga dos Amadores de Futebol.

Em 1928 a Associação Atlética das Palmeiras amarga o último lugar no campeonato Paulista. No ano de 1929 tenta se adaptar ao profissionalismo, mas com muitas dívidas e sem recursos para disputar o campeonato de 1930, se retira da Associação Paulista de Esportes Atléticos, a nova liga de futebol Paulista.

Extingue-se o Sport Club Germânia. O Clube Atlético Paulistano fecha o seu departamento de futebol e alguns profissionais e diretores se juntaram com outros do Sport Clube Germânia, que cederam recursos e arrebanharam jogadores, fundando assim o São Paulo Futebol Clube. O Tricolor Paulista herdou as cores que simbolizam a fusão das duas agremiações.

No mês de março de 1942, os conselheiros do Palestra Itália, mudam o nome do clube para Sociedade Esportiva Palestra de São Paulo, porém, ainda tendo interferências de vários setores da sociedade,  em 14 de setembro de 1942  o nome é mudado para Sociedade Esportiva Palmeiras.

No dia 20 de setembro de 1942, agora com um novo nome, a Sociedade Esportiva Palmeiras sagra-se campeã Paulista em um jogo cheio de erros da arbitragem a seu favor e muita pancadaria dentro de campo. O adversário São Paulo Futebol Clube deixa o campo aos 19 minutos do segundo tempo  depois de uma enorme confusão entre os jogadores. O jogo trazia o placar de 2 a 1 para a Sociedade Esportiva Palmeiras, que juntamente com o juiz Jaime Rodriguez Janeiro,  aguardaram os 20 minutos restantes para sacramentar a vitória e o campeonato para a Sociedade Esportiva Palmeiras.

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Correio Paulistano 22/09/1942 Ed 26545 página 6

 

Genaro Campoy Scriptore – Campinas, Dezembro de 2021

Ahasverus – E um encontro com Castro Alves

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Ahasverus – E um encontro com Castro Alves

O judeu errante, também conhecido como Aasvero, Asvero, Ahasverus, Ahsuerus, Ashver, é personagem da tradição oral cristã, muito conhecido na Espanha, Portugal, Pérsia e tantos outros lugares, como o judeu que cruzou o caminho de Jesus ao Calvário e que ao contrário de Simão Cirineu, não o ajudou, nem tampouco se compadeceu do sofrimento e agonia no caminho do Golgóta. Esta tradição oral, que teve início possivelmente, no Século VI nas celebrações da Quinta-feira santa ou da Sexta-feira da paixão. A lenda do judeu errante é contada e interpretada junto com a de Verônica, que no seu encontro com Jesus na via sacra, teria se compadecido e aliviado os sofrimentos do mestre. Verônica cujo nome vem do contração das palavras do latim Veron (Verdadeiro) e Icon (Imagem), se utiliza de um tecido branco onde enxuga o suor e sangue do rosto do martirizado, fixando nele a imagem sofredora de Jesus.

Segundo a lenda, Ahasverus, o sapateiro que tinha sua oficina no caminho da Via Crucis, teria ofendido, negado refrigério e até mesmo empurrado Jesus para que saísse de sua presença. Isto lhe rendeu uma eterna penitência de vaguear pelo mundo e nunca morrer.

No século XIX, Antonio Frederico de Castro Alves, conhecido como o poeta dos escravos e poeta republicano, elaborou uma das peças mais lindas sobre este tema, entre tantas outras famosas.

Castro Alves compara a figura melancólica de Ahasverus com os feitos de um gênio, que carrega a solidão de suas façanhas.

 

Ahasverus e o gênio

ao poeta e amigo J. Felizardo Júnior

Sabes quem foi Ahasverus?…— o precito,
O mísero Judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo atroz!
Eterno viajor de eterna senda…
Espantado a fugir de tenda em tenda,
Fugindo embalde à vingadora voz!

Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
E no mundo tão grande… o forasteiro
Não teve onde… pousar.
Com a mão vazia —viu a terra cheia.
O deserto negou-lhe —o grão de areia,
A gota d’água —rejeitou-lhe o mar.

D’Ásia as florestas —lhe negaram sombra
A savana sem fim —negou-lhe alfombra.
O chão negou-lhe o pó!…
Tabas, serralhos, tendas e solares…
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares
E o triste seguiu só.

Viu povos de mil climas, viu mil raças,
E não pôde entre tantas populaças
Beijar uma só mão…
Desde a virgem do Norte à de Sevilhas,
Desde a inglesa à crioula das Antilhas
Não teve um coração!…

E caminhou!… E as tribos se afastavam
E as mulheres tremendo murmuravam
Com respeito e pavor.
Ai! Fazia tremer do vale à serra…
Ele que só pedia sobre a terra
—Silêncio, paz e amor! —

No entanto à noite, se o Hebreu passava,
Um murmúrio de inveja se elevava,
Desde a flor da campina ao colibri.
“Ele não morre”, a multidão dizia…
E o precito consigo respondia:
—”Ai! mas nunca vivi!”

O Gênio é como Ahasverus… solitário
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir.
Invejado! a invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos álamos frondosos…
E sempre a caminhar… sempre a seguir…

Pede uma mão de amigo —dão-lhe palmas:
Pede um beijo de amor —e as outras almas
Fogem pasmas de si.
E o mísero de glória em glória corre…
Mas quando a terra diz: —”Ele não morre”
Responde o desgraçado: —”Eu não vivi!…”—

Castro Alves – Obra Completa, páginas 86 e 87 Editora Nova Aguilar São Paulo 1986.

Rememorando Doutor Francisco Quirino dos Santos

Imagemjornal-300x136 Rememorando Doutor Francisco Quirino dos Santos Imagemquirino Rememorando Doutor Francisco Quirino dos Santos
Jornal Diário de Campinas – Folha Popular de 07 maio 1886 Fotografia de Henrique Rosén

 

Nestes dias do mês de Maio de 2021, esperei, li e reli os jornais campineiros e paulistas, e pouco vi, ou diria, que quase nada vi, rememorando o dia da morte de um dos maiores nomes de Campinas no mundo jornalístico e na imprensa brasileira.

Passou o dia 06 de maio e fiquei pasmo, nada. Como a memória se perde? Como pode os profissionais de imprensa, perderem-se entre as “Fakes News” e esquecerem completamente a figura do poeta, jornalista, político e valoroso construtor da identidade republicana e campineira?

No dia 15 de maio de 2021, surge na página A2 do jornal “Correio Popular” de Campinas, matéria do iminente Presidente da Academia Campineira de Letras e do Conselho Deliberativo do Centro de Ciências, Letras e Artes, Jorge Alves de Lima, historiador incansável das tradições campineiras. Entendo que as homenagens feitas foram poucas diante da grandeza desta figura campineira, que teve papel destacadíssimo em nossa sociedade do século 19.

Doutor Manuel Ferraz de Campos Salles, assim se manifestou, no ano de 1887, no prefácio de uma das biografias[1] deste nobre campineiro “Doutor Francisco Quirino dos Santos”:

“As paixões são mais enérgicas do que as reminiscências, as aspirações que as saudades”, disse-o Alexandre Herculano[2], o opulento escritor da predileção de Quirino dos Santos.

E’ por isso que tenho como um serviço de maior valia todo o esforço, como este, destinado a perpetuar na memória dos concidadãos as glórias da pátria e despertar-lhes os afetos “pelo que foi grande e nobre na história do país.”

Em 07 de maio de 1886, um dia após a morte de Quirino dos Santos, assim escrevia Alberto Sarmento na Edição 3127, página 1, no jornal de sua propriedade, “Diário de Campinas” – Folha Popular:

ADEUS!

Não sei o que deva lamentar primeiramente — se a perda de um exemplaríssimo chefe do família, se a perda de uma das glórias desta terra, de um conterrâneo ilustre!

Por um lado, a esposa extremosíssima e os filhos idolatrados que sobrevivem às dores profundíssimas de uma perda irreparável, fatal; por outro, a mão estremecida que vê desprender-se de seu seio, em um adeus eterno, o filho dileto!

As lágrimas angustiosas da família e a dor imensa que a tortura… não se descrevem; o último adeus a um amigo e cidadão emérito, desprende-se-nos dos lábios com profundíssima saudade e pesar…

Adeus!

Alberto Sarmento.

Hoje, 17 de maio, exatamente onze dias após o 06 de maio, me sinto no dever de relembrar este evento lamentando o desconhecimento que a sociedade campineira tem por esta figura ímpar, inteligente, gentil, causídica, literata e profissional de imprensa. Um apaixonado pela sua cidade, que causava em seus oponentes admiração pelo cavalheirismo e a forma que conduzia suas elegantes ações. Profissional que transbordava a ética de quem respeita o ser humano independente de suas ideias ou partidos.

Não devo falar muito de sua carreira neste artigo, pois trabalho com muita intensidade para deixar registrado um pouco mais de sua vida profissional e pessoal. Uma aventura que me lancei,nestes últimos tempos, na construção de uma literatura sobre a Campinas do século XIX, assim como tantos outros o fizeram no passado.

E para deixar quem sabe, uma inspiração, para aqueles que desejam se aventurar na busca do patrono literato da Academia Paulista de Letras, o campineiro e brasileiro notável, Francisco Quirino dos Santos, que em Alexandre Herculano, aproveito para completar as palavras iniciais e transcritas acima por Manuel Ferraz de Campos Salles:

“Gloria, lucro, respeito, bênçãos são para aquele que afaga com palavras mentidas as preocupações populares; para aquele que, sem discernimento, louva, adorna ou repete como eco as opiniões que ao redor dele, talvez por cima dele, esmagando a consciência. passam como torrente. Tumultua o gênero humano correndo ao longo dos séculos: o louvador, às vezes, o promotor do tumulto, se a natureza lhe concedeu imaginação e talento, vai adiante como capitão e guia da geração que corre ébria: incita-a, arrasta-a, deslumbra-a. As coroas, voam-lhe do meio da turba sobre a cabeça. Verdade é que ao cabo de tanto lidar, ele se precipitará com essa geração no abismo do passado; verdade é, que o abismo se fechará para ele com o selo da reprovação de cima, e que, porventura, não tardará que o futuro passe por aí a sorrir, ou se afaste com tédio do sepulcro tênue do erro ou da vilania. Mas isso que importa? O homem que vendeu ao século a consciência e o engenho, que Deus não lhe deu para mercadejar com ele, foi bem considerado e glorificado enquanto vivo; foi precursor do progresso, embora este seja avaliado algum dia como progresso fatal!”

“…O que havemos dito é crua verdade; mas é a verdade. Há nesta época dois caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem precipícios, mas que conduz à prostituição da inteligência; outro, vereda estreita, tortuosa, contrariada, mas que se dirige ao aplauso da própria consciências. Aqueles cujas esperanças não vão além dos umbrais do cemitério e que aí veem, não o termo de sua peregrinação na terra, mas o remate da existência, que sigam a fácil estrada.[3]

Revisitar Francisco Quirino dos Santos, não deveria ser apenas uma questão de pesquisa histórica ou de literatura romântica do século XIX, é uma questão de dignidade, ética, patriotismo e civismo com uma cidade, uma nação para despertar corações adormecidos na missão jornalística do profissional de imprensa.

 

[1] Homenagem póstumas a F. Quirino dos Santos: apontamentos biográficos / com prefacio do Dr. M. F. Campos Salles; editor J. Salles Pinto. – Campinas, SP: Tipografia. Correio de Campinas, 1887.
[2] Opúsculos – Tomo II Monumentos Pátrios – Lisboa, Portugal – Casa da Viúva Bertrand – Lisboa 1838 página 4
[3] Opúsculos – Tomo II Monumentos Pátrios – Lisboa, Portugal – Casa da Viúva Bertrand – Lisboa 1838 página 5-6

Uma Revisão Literária sobre Dante Alighieri pelo Visconde de Inhomirim.

Visconde_Dante-300x214 Uma Revisão Literária sobre Dante Alighieri pelo Visconde de Inhomirim.

O Visconde de Inhomirim e Dante Alighieri

 

Em comemoração aos 700 anos da morte de Dante Alighieri

Novamente o acaso, cruzando meu caminho. Durante minhas pesquisas na busca de subsídios para uma obra pessoal, encontro a figura do Visconde de Inhomirim, Francisco de Sales Torres Homem, carioca, escritor, político, formado em medicina e direito, diplomata do segundo império, opositor ferrenho da Regência Una do Padre Diogo Feijó, cujas críticas transbordavam nos jornais da imprensa do segundo império.

Discípulo de Evaristo da Veiga, Torres Homem, formado na Universidade de Paris, Sorbonne, França, dominava o francês, inglês, latim e português com maestria. Filho de um padre de vida desregrada, chamado Apolinário Torres Homem e de Maria Patrícia, mulher negra alforriada, que no Rio de Janeiro, Largo do Rosário, hoje Praça Antonio Prado, exercia a profissão de quitandeira. Nesta região, era conhecida como Maria “Você me mata”.

Francisco Sales Torres Homem, o primeiro negro a defender a causa abolicionista, ilumina o intelecto do leitor do jornal O Despertador: Diário Comercial, Político, Científico e Literário do Rio de Janeiro, por ele dirigido durante os anos de 1838 a 1841, com um estudo literário sobre Dante Alighieri. Esta publicação do dia 6 de dezembro de 1839, edição de número 500, páginas 1 e 2, é de uma extraordinária riqueza de detalhes que nos dias de hoje poderia facilmente ser tema para uma tese universitária.

Conta Torres Homem que, no século 14, a língua e a poesia italiana não existiam ainda e que foi fertilizada pelas obras de três grandes renascentistas: Dante Alighieri, Francesco Petrarca e Giovanni Bocaccio.

Para Torres Homem, Dante Alighieri é a estrela principal entre os três. Com base na crítica do seu professor do Curso de Literatura Francesa, (Cours de littérature Française), Abel-François Villemain, e por algumas ideias que teria retirado da Biblioteca Acadêmica da Universidade de Paris.

Torres Homem, compara Dante Alighieri a Homero, figuras que prestaram serviços significativos ao idioma de seus países. Dante teria encontrado a língua italiana nas mesmas condições que Homero encontrara o grego popular. Uma língua informe, falada em dialetos que variava de província a província, de vila a vila, o que descaracterizava o idioma pátrio. Para unifica-lo era preciso que aparecesse um escritor que tivesse a habilidade de sujeitá-lo ao seu talento, fazendo brilhar, como um meteoro, a sua poesia e sua escrita, criando um espetáculo literário que iluminasse o mundo todo, assim como fez Homero.

Segundo Torres Homem, Dante Alighieri foi para a Itália, o genial escritor e literato que em uma terra inculta, realizou o primeiro trabalho no qual o idioma se sujeita ao estilo poético, criativo e engenhoso do autor. Adaptou-o a assuntos vários, tornou-o flexível a todas as nuances de sentimentos, buscando nos diversos dialetos falados na península itálica as locuções mais felizes e as palavras mais significativas incorporando-as em sua obra, assim como a abelha que do pólen de várias flores cria o suco dulcíssimo do mel.

Esse poeta dedicou seus primeiros versos a uma bela jovem, chamada Beatriz que, em Florença, viu a morte chegar prematuramente, plantando na mente laboriosa do escritor, sentimentos de um amor ardente e permanente, cheios de sensibilidade doce e terna, carregados do perfume da mais suave melancolia.

Conta-nos o Visconde que certo dia, no ano 1304, visitou Florença o Cardeal bispo de Óstia-Velletrio, Niccollò Albertino, filho do conde de Prato, também chamado como Niccolò da Prato, ou Nikolaus von Prato. Durante esta visita divulgou-se, ao som de trombetas, que aqueles que desejassem receber notícias do outro mundo, do mundo invisível dos mortos, deveriam vir à ponte “Alle Carraia”, a segunda ponte construída sobre o Rio Arno, feita de pedra e madeira e que ligava Florença ao interior da Itália. Na Ponte foi levantado um teatro onde artistas usando máscaras demoníacas, representavam os suplícios do inferno, precipitando-se em chamas, interpretando condenados rangendo dentes e desferindo gritos horríveis sobre a plateia atônita. Em um determinado momento, a Ponte não suportou o peso da multidão e dos artistas e desmoronou. A curiosidade com as coisas do outro mundo, agora, se tornava realidade para as pobres vítimas do evento, vitimadas de forma mortal.

Torres Homem enfatiza que foram muitos os estudiosos de Dante Alighieri que referenciam este evento como a inspiração das primeiras ideias da “Divina Comédia”. O século 14, era um tempo em que a religião tudo influenciava – superstições, o pecado, o medo e até mesmo a submissão clerical devotada por fiéis católicos – o que abria, de certa forma, um caminho para a poesia e para a música, recheadas de curiosidade sobre a morte e a vida pós-morte. O povo julgava Dante Alighieri um viajante das regiões infernais, e dos meandros do purgatório, colecionador de mapas, itinerários e trilhas geográficas desses lugares desconhecidos.

Em certa ocasião, conta-nos o Visconde, que em uma rua de Verona uma mulher do povo mostrou-o à sua vizinha nestes termos: – “Vedes aquele homem, que vai ao inferno quando quer, e vem contar o que viu?”. Ao que outra respondeu que “não era difícil reconhecê-lo pela sua barba meio queimada, e pela tez enegrecida pelo fogo e o fumo”.

As disputas ocasionadas pelo clero e pelo Sacro Império Romano-Germânico geravam uma época de confusão e depressão e deram a Dante Alighieri uma rica fonte de inspiração, com episódios vários, até mesmo incluindo o próprio autor. Dante relata com paixão e maestria opiniões, costumes, conflitos de paixões e de acontecimentos.

A obra de Dante Alighieri apresenta um itinerário poético de três mundos, marcado por viagens através do Inferno, Purgatório e Paraíso. O viajante desce pelos dez recintos do inferno como se fosse, figurativamente, um cone com sua base circular voltada para cima, cuja ponta coincide com o centro da terra, local onde repousa o corpo de Lúcifer. Depois de passar pelo centro da terra, segue em tropa pelo hemisfério austral, até uma ilha onde se acha o Purgatório, montanha feita em cone truncado, cone com ponta achatada em formato cônico, onde se situa o Paraíso. Esta referida montanha com sete diferentes alturas, ou planos, da base até o cume onde termina o Purgatório e começa o Paraíso. Dante, depois de saudar a morada de nossos primeiros pais, continua sua jornada elevando-se até a morada de Ptolomeu na décima esfera, onde a divindade reside. Dia após dia, Dante nos proporciona um relato fiel do que viu e ouviu no caminho de suas aventuras.

Continua Torres Homem relatando que, no começo do canto do Paraíso, com seus arroubos de entusiasmo e suas frequentes invocações, as musas são carregadas de ingenuidade encantadora. Apavorado com a enorme tarefa que o força a subir o cume dobrado de duas colinas, pede a Apolo que tome conta de sua alma. Que faça cair sobre ele e sua missão os sons provocados pela sua lira que venceu a flauta do fauno Marsias, causador de tão desgraçado desafio musical entre ele e Apolo. A derrota do fauno trouxe como consequência o castigo terrível de ser amarrado a um tronco de árvore e esfolado vivo. O estudo do Visconde menciona que no Poema do inferno são elevados ao mais alto tom o negro e o terrível. Já no Purgatório pode se respirar a melancolia piedosa da penitência resignada, com ar sombrio, como um doce crepúsculo em perspectiva. No canto do Paraíso, a calma, a serenidade, o êxtase, o sublime da religião. Chama a atenção Torres Homem que os críticos são unânimes em afirmar, que a inscrição na porta do Inferno pode ser traduzida como a transcendência do terror:

“Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!”

(Renunciai a toda esperança, vós que entrais) – Inferno Canto III

E ao passar por esta porta infernal, é impossível deixar de se escutar suspiros, soluços profundos, queixumes atrozes que retumbam nos dias e nas noites.

O patético e o terrível são extremamente aplicados no canto em que Dante narra a horrorosa história do conde Ugolino, que perece de fome com seus filhos na torre de Pisa. Com certeza este é um momento na obra que excede a qualquer obra produzida, impossível de ser lida sem o sentimento de piedade e terror, frisa Torres Homem.

E continua sua análise, com bastante propriedade:

“Que espetáculo oferecem esses meninos que, em seus sonhos, pedem pão com soluços e gritos dolorosos; e que, depois de acordados, imploram a compaixão de seu pai, também esfaimado, e passam dois dias a olhar uns para os outros com uma dor muda.” Inferno Canto XXXIII

O Visconde, em seu estudo, não perde um detalhe e traz em seus comentários que na passagem pelo Inferno Dante mostra seu espírito de sátira, de uma sátira violenta, atroz que, através das palavras enterra sua lâmina envenenada nos mais profundos recônditos da alma do leitor. Seria uma justificativa para tal espírito os infortúnios sofridos por Dante Alighieri? Seria este o gênio natural do poeta, que transitou entre Guelfos e Gibelinos? Guelfos, que se alinhavam ao clero, aos papas e à liberdade das cidades e os Gibelinos, que se alinhavam ao Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

Aqui inicia o Visconde uma análise pessoal de Dante Alighieri. Dante havia sido guelfo à frente da magistratura em Florença. Mas, uma divisão interna entre Guelfos Brancos e Guelfos Negros provocaram disputas e discórdias que não permitiram reconciliações. Depois de ter sido expulso de Florença, Donato Corsi, inimigo mortal de Dante Alighieri, retorna sob a proteção do papa Bonifácio VIII e de Carlos di Valois, filho de Felipe III, da França, este, para servir de pacificador entre Guelfos Brancos e Negros e reprimir as lutas entre as facções. Carlos di Valois, atendendo aos pedidos secretos do pontífice, reprime severamente o partido dos Brancos com uma longa série de exílios, assassinatos, confiscos e incêndios, favorecendo assim o triunfo dos Guelfos Negros. Tal violência acaba envolvendo também Dante Alighieri que, várias vezes, manifestou-se com muita dureza nos órgãos municipais contra a presença de Carlos de Valois em Florença.

Dante Alighieri, da mesma forma, seria expulso de Florença e passaria o resto de sua vida exilado de sua cidade, mas o seu rancor com o clero papal acaba por transforma-lo em um Gibelino, inimigo figadal dos papas.

O Visconde traz à lembrança que, “as feridas no coração do poeta Dante Alighieri gotejavam dor e sangue” e ao escrever sua obra prima durante os doze primeiros anos do seu banimento de Florença, elas se abriam a todo instante. E questiona veementemente, o Visconde, analista literário: “Devemo-nos, pois, admirar de ver o seu ressentimento em versos cheios de força e furor?”

Continua com bastante ênfase, que o tema escolhido por Dante Alighieri o deixava bastante à vontade para saciar a sua própria vingança. Seus inimigos o exilaram de sua pátria, ele também os exilará da pátria celeste e os mergulhará em lagos de fogo no inferno. O alvo se volta sem piedade para coroas reais, mitra episcopal, chapéu de cardeal, tiara sagrada de sumo pontífice. Para Dante, toda a Itália não é aos seus olhos “senão uma morada de dor, um navio sem piloto”, não é mais a rainha do mundo, “mas sim uma vil escrava, um lugar de crápulas e prostituição”:

Ahi, serva Italia, di dolore ostello,

(Ai, serva Itália, da dor albergue)

Nave senza nocchiero in gran tempesta,

(Navio sem timoneiro, na grande tempestade)

Non Donna di province, ma bordello.

(Não mulher da província, mas de bordel)

Purgatório Canto VI

O Visconde de Inhomirim afirma que a audácia de Dante Alighieri cresce à medida que se expõe a maiores perigos, e sobe ao cúmulo quando chega às ordens religiosas, aos papas e seus ministros. Amontoando no inferno papa sobre papa, fez de todos uma coleção perpendicular com a cabeça para baixo e os pés para cima.

Dante Alighieri reserva ao seu perseguidor, o papa Bonifácio VIII, todos os raios possíveis da vingança, descrevendo-o com as tintas mais negras retiradas do fel da amargura encravada nos recônditos da alma.

No inferno de Dante podem-se encontrar as mais variadas punições. Os preguiçosos e indolentes que, nem bem, nem mal fizeram, são condenados a correr incessantemente. Os heréticos estão estendidos em sepulcros ardentes de um vasto cemitério. Os suicidas, encerrados dentro de vegetais, são os hamadríadas; as ninfas dos bosques que na mitologia nasciam encerradas dentro de uma árvore, não reassumirão seus corpos no dia da ressureição, por que não seria justo que lhe restituíssem o que voluntariamente renegaram. (Inferno Canto XIII)

Assim narra, o Visconde:

“Os blasfemadores estão deitados em supinação sob as chamas que os envolvem! Os fogos de Sodoma caem em chuva sobre seus habitantes, e sobre os que lhes imitaram os costumes perversos. Os sedutores de mulheres são fustigados e cozidos em um lago de fogo, onde os demônios os viram, à semelhança de um cozinheiro experimentado que revolve à carne.” (Inferno Canto XXI)

Serpentes dilaceram os salteadores e assassinos, e os fazem passar pelas mais singulares metamorfoses. Enfim, um rio gelado é destinado aos traidores da pátria, seus parentes e benfeitores. (Inferno Canto XXXII)

Torres Homem chama a atenção para este canto XXXII, onde Dante, que conhecia como ninguém o som das palavras, busca versos roucos, duros, e receando que a língua italiana não lhe forneça os sons que deseja recorre ao expediente de endurecer o estilo, emprestando do alemão sons como: (1) Danoia in Ostericchi (rio Danúbio na Áustria), (2) Tambernicchi (nome antigo do Monte Tambura, na Toscana), (3) Pietrapana (nome antigo do monte Pania de la Croce, na província de Luca, na Toscana), (4) borda cricchi (Se essas montanhas, tivessem caído no lago de gelo, não teriam craquelado as camadas da borda).

“Non fece al corso suo sì grosso velo

(Não fez seu curso tão espesso véu)

Di verno la Danoia in Ostericchi (1)

(No inverno o Danúbio na Áustria)

Nè ’l Tanai tà sotto ’l freddo cielo,

(Nem o Tanai sob o céu frio)

Com’ era quivi: che se Tambernicchi (2)

(Como lá estava: que o Monte Tambura

Vi fosse su caduto, o Pietrapana (3)

Lhe tivesse caído sobre o Pietrapana

Non avria pur dall’orlo fatto cricchi (4)”.

(Não teria as bordas feito rachar)

Conclui Francisco de Sales Torres Homem, o Visconde Inhomirim, dizendo que a grande arte de Dante Alighieri está na maneira como ele combina sons, palavras e imagens. Talento poético que proporciona imagens encantadoras e singelas.

Como exemplo o Visconde toma os versos do Canto XXIII do Paraíso, que descreve a imagem do pássaro vigilante que, durante a escuridão da noite, repousa com seus filhos em um ninho oculto na espessura das folhagens, cuidando das suas crias implumes à espera de um novo dia.

Este canto é uma das imagens de Dante Alighieri mais citadas pelos críticos, no sentido de definir a pureza do amor divino, caridoso, esperançoso e triunfante nos cuidados pelos seus filhos.

Impossível não se enternecer com os versos deste canto:

Come l’augello intra l’amate fronde

(Com o pássaro entre amados ramos)

Posato al nido de’ suoi dolci nati,

(Pousado no ninho com seus doces rebentos)

La notte, che le cose ci nasconde,

(A noite, que as coisas nos escondem)

Che per veder gli aspetti desiati.

(Que ao ver os aspectos desejados).

E per trovar lo cibo onde li pasca.

(E encontrar comida para alimentá-los)

In che gravi labori li son grati,

(Em sérios trabalhos lhe são gratos),

Previene ’l tempo in su l’aperta frasca,

(Calcula o tempo em seu ramo saltitante),

E con ardente affetto il Sole aspetta,

(E, com ardente afeto, o sol espera),

Fiso guardando pur che l’alba nasca;

(Vigiando constantemente o nascer da alvorada).

Economia Compartilhada uma modalidade econômica futurística

Economia Compartilhada uma modalidade econômica futurística

Art082017_0-300x169 Economia Compartilhada uma modalidade econômica futurística

No último mês de 2017, em um de seus artigos, April Rinne, autoridade Global, especialista em economia compartilhada e consultora focada em cidades inteligentes, políticas, turismo sustentável, investimentos de impacto e desenvolvimento global escreveu um artigo muito interessante. What exactly is the sharing economy? Em português poderíamos dizer: “O que é exatamente a Economia Compartilhada”, escrito especialmente para o Fórum Econômico Mundial.

O artigo nas primeiras linhas relembra a sua participação no Fórum Econômico de Davos em 2013, quando, pessoalmente, fez uma pesquisa a cada participante questionando se já haviam ouvido termo “sharing economy” (economia compartilhada). O resultado foi de que noventa por cento (90%) disseram que não, cinco por cento (5%) presumia que se tratava de uma economia com base em trocas e os cinco por cento (5%) restantes configuravam uma afirmação de que as novas tecnologias reconhecidas e as redes peer-to-peer (ponto a ponto) estavam permitindo modelos de negócios emergentes.

Já em 2017 quando escreveu o artigo ela constatou que a realidade havia se transformado totalmente, que tal modalidade econômica é pauta de notícias diárias e gera uma lista enorme e incompreensível de termos relacionados como, Gig Economia, Economia Solidária, Economia Colaborativa, Economia de Pares, Economia Uberizada e etc…

Art082017-300x198 Economia Compartilhada uma modalidade econômica futurística

Órgãos como o Harvard Business e o Financial Times questionam o termo “economia compartilhada” quando se tem uma empresa mediando a oferta e a demanda. Em geral os consumidores transferem valor lucrativo para o mediador já não é compartilhamento, mas a busca do lucro e da negociação ganha – ganha.

Por ter crescido, a Economia de Compartilhamento, passou a ser vítima de seu sucesso e sua definição acabou recebendo uma variedade de significados, muitas vezes usada para descrever uma transação digital on-line na aquisição de bens e serviços. A premissa comum é que quando se tem em tempo real o compartilhamento de informação através de um mercado on-line de valores, quantidades e disponibilidade de bens e serviços o valor destes tendem a aumentar para o negócio, o indivíduo, para a comunidade e até mesmo para a sociedade em geral.

Compartilhamento, o verdadeiro espírito em que ativos subutilizados possam ter papel de reaproveitamento em diversas comunidades e grupos sociais é o que defendem os grupos e pessoas que desejam realizar e efetivar conceitos de cooperação e compartilhamentos na sociedade, e são muitos que tem este objetivo.

Apesar de exemplos como UBER, AirbnB, Booking, TripAdvisor e muitos outras formas de negócios criados ultimamente, são faces desta economia e acabamos por nos certificar que existe inúmeros outros espíritos que ainda não foram definidos claramente como vários modelos desta “nova economia”.

Podemos exemplificar vários tipos destas novas economias.

Economia Compartilhada: foco na partilha de ativos subutilizados, monetizados ou não, de forma a melhorar a eficiência, a sustentabilidade e a comunidade.

Economia Colaborativa: foco em formas colaborativas de consumo, produção, finanças e aprendizagem (o “consumo colaborativo” é mais próximo da definição de economia compartilhada ortodoxa).

Economia sob demanda: foco na provisão sob demanda (“on-demand”) isto é, imediata e baseada em acesso de bens e serviços.

Gig economia: foco na participação da força de trabalho e geração de renda através de uma força de trabalho independente, com um novo modelo de contratação, projetos únicos ou tarefas para as quais um trabalhador é contratado. Em geral têm se uma sobreposição limitada com compartilhamento de habilidades.

Economia freelance: foco na participação da força de trabalho e na geração de renda por freelancers, também conhecidos como trabalhadores independentes e trabalhadores por conta própria. Também em geral apresenta uma sobreposição limitada com compartilhamento de habilidades, os compromissos do freelance são geralmente maiores e mais profundos do que os mencionados na Gig Economia.

Economia de pares: foco em redes peer-to-peer (P2P) (ou ponto a ponto, par a par) na criação de produtos, entrega de serviços, financiamento e tantos outros tipos focados em associações das mais diversas.

Acesso à economia: foco no “acesso sobre a propriedade” (sobrepõe-se ao compartilhamento, e claramente não é compartilhamento de forma alguma.). É um modelo de negócios onde bens e serviços são negociados com base em acesso, em vez de propriedade: refere-se ao aluguel de coisas temporariamente em vez de vendê-las permanentemente. O termo surgiu como uma correção para o termo economia compartilhada, porque os principais atores na economia compartilhada, em geral, são empresas comerciais cujas empresas não se envolvem em qualquer compartilhamento.

Economia da multidão: foco em modelos econômicos alimentado por um número incontável de atores “a multidão”, incluindo, entre outros, crowdsourcing (fontes de multidões, uma pratica para a obtenção de informações ou insumos em uma tarefa ou projeto, alistando os serviços de um sem número de pessoas, pagas ou não pagas) e crowdfunding (levantamento de fundos, ou seja, por participação financeira como uma popular vaquinha, modelo conhecido para juntar fundos).

Economia digital: foco em qualquer coisa alimentada por tecnologias digitais.

Economia de plataforma: foco em qualquer coisa alimentada por plataformas de tecnologia centrada, onde lideres industriais desencadeiam o poder da tecnologia para desenvolver novos modelos de negócios baseados em plataformas e estratégias que impulsionam uma mudança macroeconômica global nunca visto desde a revolução industrial.

O que vemos é uma intersecção muito grande entre estes modelos e fica fácil de encontrar uma plataforma com múltiplas definições. TaskRabbit é uma plataforma indiscutivelmente com um pé na economia sob demanda, Gig, colaborativa e de compartilhamento (assumindo que as habilidades do Tasker estavam anteriormente subutilizadas).

Um outro exemplo é o inventário de compartilhamento de casas no Airbnb que faz claramente parte da economia de compartilhamento, enquanto as alocações corporativas de curto prazo em tempo integral não são necessariamente assim, e mais provável estão na economia de acesso.

Estar atualizado com estes modelos é o grande desafio do profissional do futuro para enfrentar mudanças que deverão quebrar muitos paradigmas econômicos que gestarão com certeza uma nova ordem social e política no nosso planeta.

Genaro Campoy Scriptore