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Ahasverus – E um encontro com Castro Alves

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Ahasverus – E um encontro com Castro Alves

O judeu errante, também conhecido como Aasvero, Asvero, Ahasverus, Ahsuerus, Ashver, é personagem da tradição oral cristã, muito conhecido na Espanha, Portugal, Pérsia e tantos outros lugares, como o judeu que cruzou o caminho de Jesus ao Calvário e que ao contrário de Simão Cirineu, não o ajudou, nem tampouco se compadeceu do sofrimento e agonia no caminho do Golgóta. Esta tradição oral, que teve início possivelmente, no Século VI nas celebrações da Quinta-feira santa ou da Sexta-feira da paixão. A lenda do judeu errante é contada e interpretada junto com a de Verônica, que no seu encontro com Jesus na via sacra, teria se compadecido e aliviado os sofrimentos do mestre. Verônica cujo nome vem do contração das palavras do latim Veron (Verdadeiro) e Icon (Imagem), se utiliza de um tecido branco onde enxuga o suor e sangue do rosto do martirizado, fixando nele a imagem sofredora de Jesus.

Segundo a lenda, Ahasverus, o sapateiro que tinha sua oficina no caminho da Via Crucis, teria ofendido, negado refrigério e até mesmo empurrado Jesus para que saísse de sua presença. Isto lhe rendeu uma eterna penitência de vaguear pelo mundo e nunca morrer.

No século XIX, Antonio Frederico de Castro Alves, conhecido como o poeta dos escravos e poeta republicano, elaborou uma das peças mais lindas sobre este tema, entre tantas outras famosas.

Castro Alves compara a figura melancólica de Ahasverus com os feitos de um gênio, que carrega a solidão de suas façanhas.

 

Ahasverus e o gênio

ao poeta e amigo J. Felizardo Júnior

Sabes quem foi Ahasverus?…— o precito,
O mísero Judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo atroz!
Eterno viajor de eterna senda…
Espantado a fugir de tenda em tenda,
Fugindo embalde à vingadora voz!

Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
E no mundo tão grande… o forasteiro
Não teve onde… pousar.
Com a mão vazia —viu a terra cheia.
O deserto negou-lhe —o grão de areia,
A gota d’água —rejeitou-lhe o mar.

D’Ásia as florestas —lhe negaram sombra
A savana sem fim —negou-lhe alfombra.
O chão negou-lhe o pó!…
Tabas, serralhos, tendas e solares…
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares
E o triste seguiu só.

Viu povos de mil climas, viu mil raças,
E não pôde entre tantas populaças
Beijar uma só mão…
Desde a virgem do Norte à de Sevilhas,
Desde a inglesa à crioula das Antilhas
Não teve um coração!…

E caminhou!… E as tribos se afastavam
E as mulheres tremendo murmuravam
Com respeito e pavor.
Ai! Fazia tremer do vale à serra…
Ele que só pedia sobre a terra
—Silêncio, paz e amor! —

No entanto à noite, se o Hebreu passava,
Um murmúrio de inveja se elevava,
Desde a flor da campina ao colibri.
“Ele não morre”, a multidão dizia…
E o precito consigo respondia:
—”Ai! mas nunca vivi!”

O Gênio é como Ahasverus… solitário
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir.
Invejado! a invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos álamos frondosos…
E sempre a caminhar… sempre a seguir…

Pede uma mão de amigo —dão-lhe palmas:
Pede um beijo de amor —e as outras almas
Fogem pasmas de si.
E o mísero de glória em glória corre…
Mas quando a terra diz: —”Ele não morre”
Responde o desgraçado: —”Eu não vivi!…”—

Castro Alves – Obra Completa, páginas 86 e 87 Editora Nova Aguilar São Paulo 1986.

Rememorando Doutor Francisco Quirino dos Santos

Imagemjornal-300x136 Rememorando Doutor Francisco Quirino dos Santos Imagemquirino Rememorando Doutor Francisco Quirino dos Santos
Jornal Diário de Campinas – Folha Popular de 07 maio 1886 Fotografia de Henrique Rosén

 

Nestes dias do mês de Maio de 2021, esperei, li e reli os jornais campineiros e paulistas, e pouco vi, ou diria, que quase nada vi, rememorando o dia da morte de um dos maiores nomes de Campinas no mundo jornalístico e na imprensa brasileira.

Passou o dia 06 de maio e fiquei pasmo, nada. Como a memória se perde? Como pode os profissionais de imprensa, perderem-se entre as “Fakes News” e esquecerem completamente a figura do poeta, jornalista, político e valoroso construtor da identidade republicana e campineira?

No dia 15 de maio de 2021, surge na página A2 do jornal “Correio Popular” de Campinas, matéria do iminente Presidente da Academia Campineira de Letras e do Conselho Deliberativo do Centro de Ciências, Letras e Artes, Jorge Alves de Lima, historiador incansável das tradições campineiras. Entendo que as homenagens feitas foram poucas diante da grandeza desta figura campineira, que teve papel destacadíssimo em nossa sociedade do século 19.

Doutor Manuel Ferraz de Campos Salles, assim se manifestou, no ano de 1887, no prefácio de uma das biografias[1] deste nobre campineiro “Doutor Francisco Quirino dos Santos”:

“As paixões são mais enérgicas do que as reminiscências, as aspirações que as saudades”, disse-o Alexandre Herculano[2], o opulento escritor da predileção de Quirino dos Santos.

E’ por isso que tenho como um serviço de maior valia todo o esforço, como este, destinado a perpetuar na memória dos concidadãos as glórias da pátria e despertar-lhes os afetos “pelo que foi grande e nobre na história do país.”

Em 07 de maio de 1886, um dia após a morte de Quirino dos Santos, assim escrevia Alberto Sarmento na Edição 3127, página 1, no jornal de sua propriedade, “Diário de Campinas” – Folha Popular:

ADEUS!

Não sei o que deva lamentar primeiramente — se a perda de um exemplaríssimo chefe do família, se a perda de uma das glórias desta terra, de um conterrâneo ilustre!

Por um lado, a esposa extremosíssima e os filhos idolatrados que sobrevivem às dores profundíssimas de uma perda irreparável, fatal; por outro, a mão estremecida que vê desprender-se de seu seio, em um adeus eterno, o filho dileto!

As lágrimas angustiosas da família e a dor imensa que a tortura… não se descrevem; o último adeus a um amigo e cidadão emérito, desprende-se-nos dos lábios com profundíssima saudade e pesar…

Adeus!

Alberto Sarmento.

Hoje, 17 de maio, exatamente onze dias após o 06 de maio, me sinto no dever de relembrar este evento lamentando o desconhecimento que a sociedade campineira tem por esta figura ímpar, inteligente, gentil, causídica, literata e profissional de imprensa. Um apaixonado pela sua cidade, que causava em seus oponentes admiração pelo cavalheirismo e a forma que conduzia suas elegantes ações. Profissional que transbordava a ética de quem respeita o ser humano independente de suas ideias ou partidos.

Não devo falar muito de sua carreira neste artigo, pois trabalho com muita intensidade para deixar registrado um pouco mais de sua vida profissional e pessoal. Uma aventura que me lancei,nestes últimos tempos, na construção de uma literatura sobre a Campinas do século XIX, assim como tantos outros o fizeram no passado.

E para deixar quem sabe, uma inspiração, para aqueles que desejam se aventurar na busca do patrono literato da Academia Paulista de Letras, o campineiro e brasileiro notável, Francisco Quirino dos Santos, que em Alexandre Herculano, aproveito para completar as palavras iniciais e transcritas acima por Manuel Ferraz de Campos Salles:

“Gloria, lucro, respeito, bênçãos são para aquele que afaga com palavras mentidas as preocupações populares; para aquele que, sem discernimento, louva, adorna ou repete como eco as opiniões que ao redor dele, talvez por cima dele, esmagando a consciência. passam como torrente. Tumultua o gênero humano correndo ao longo dos séculos: o louvador, às vezes, o promotor do tumulto, se a natureza lhe concedeu imaginação e talento, vai adiante como capitão e guia da geração que corre ébria: incita-a, arrasta-a, deslumbra-a. As coroas, voam-lhe do meio da turba sobre a cabeça. Verdade é que ao cabo de tanto lidar, ele se precipitará com essa geração no abismo do passado; verdade é, que o abismo se fechará para ele com o selo da reprovação de cima, e que, porventura, não tardará que o futuro passe por aí a sorrir, ou se afaste com tédio do sepulcro tênue do erro ou da vilania. Mas isso que importa? O homem que vendeu ao século a consciência e o engenho, que Deus não lhe deu para mercadejar com ele, foi bem considerado e glorificado enquanto vivo; foi precursor do progresso, embora este seja avaliado algum dia como progresso fatal!”

“…O que havemos dito é crua verdade; mas é a verdade. Há nesta época dois caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem precipícios, mas que conduz à prostituição da inteligência; outro, vereda estreita, tortuosa, contrariada, mas que se dirige ao aplauso da própria consciências. Aqueles cujas esperanças não vão além dos umbrais do cemitério e que aí veem, não o termo de sua peregrinação na terra, mas o remate da existência, que sigam a fácil estrada.[3]

Revisitar Francisco Quirino dos Santos, não deveria ser apenas uma questão de pesquisa histórica ou de literatura romântica do século XIX, é uma questão de dignidade, ética, patriotismo e civismo com uma cidade, uma nação para despertar corações adormecidos na missão jornalística do profissional de imprensa.

 

[1] Homenagem póstumas a F. Quirino dos Santos: apontamentos biográficos / com prefacio do Dr. M. F. Campos Salles; editor J. Salles Pinto. – Campinas, SP: Tipografia. Correio de Campinas, 1887.
[2] Opúsculos – Tomo II Monumentos Pátrios – Lisboa, Portugal – Casa da Viúva Bertrand – Lisboa 1838 página 4
[3] Opúsculos – Tomo II Monumentos Pátrios – Lisboa, Portugal – Casa da Viúva Bertrand – Lisboa 1838 página 5-6

Uma Revisão Literária sobre Dante Alighieri pelo Visconde de Inhomirim.

Visconde_Dante-300x214 Uma Revisão Literária sobre Dante Alighieri pelo Visconde de Inhomirim.

O Visconde de Inhomirim e Dante Alighieri

 

Em comemoração aos 700 anos da morte de Dante Alighieri

Novamente o acaso, cruzando meu caminho. Durante minhas pesquisas na busca de subsídios para uma obra pessoal, encontro a figura do Visconde de Inhomirim, Francisco de Sales Torres Homem, carioca, escritor, político, formado em medicina e direito, diplomata do segundo império, opositor ferrenho da Regência Una do Padre Diogo Feijó, cujas críticas transbordavam nos jornais da imprensa do segundo império.

Discípulo de Evaristo da Veiga, Torres Homem, formado na Universidade de Paris, Sorbonne, França, dominava o francês, inglês, latim e português com maestria. Filho de um padre de vida desregrada, chamado Apolinário Torres Homem e de Maria Patrícia, mulher negra alforriada, que no Rio de Janeiro, Largo do Rosário, hoje Praça Antonio Prado, exercia a profissão de quitandeira. Nesta região, era conhecida como Maria “Você me mata”.

Francisco Sales Torres Homem, o primeiro negro a defender a causa abolicionista, ilumina o intelecto do leitor do jornal O Despertador: Diário Comercial, Político, Científico e Literário do Rio de Janeiro, por ele dirigido durante os anos de 1838 a 1841, com um estudo literário sobre Dante Alighieri. Esta publicação do dia 6 de dezembro de 1839, edição de número 500, páginas 1 e 2, é de uma extraordinária riqueza de detalhes que nos dias de hoje poderia facilmente ser tema para uma tese universitária.

Conta Torres Homem que, no século 14, a língua e a poesia italiana não existiam ainda e que foi fertilizada pelas obras de três grandes renascentistas: Dante Alighieri, Francesco Petrarca e Giovanni Bocaccio.

Para Torres Homem, Dante Alighieri é a estrela principal entre os três. Com base na crítica do seu professor do Curso de Literatura Francesa, (Cours de littérature Française), Abel-François Villemain, e por algumas ideias que teria retirado da Biblioteca Acadêmica da Universidade de Paris.

Torres Homem, compara Dante Alighieri a Homero, figuras que prestaram serviços significativos ao idioma de seus países. Dante teria encontrado a língua italiana nas mesmas condições que Homero encontrara o grego popular. Uma língua informe, falada em dialetos que variava de província a província, de vila a vila, o que descaracterizava o idioma pátrio. Para unifica-lo era preciso que aparecesse um escritor que tivesse a habilidade de sujeitá-lo ao seu talento, fazendo brilhar, como um meteoro, a sua poesia e sua escrita, criando um espetáculo literário que iluminasse o mundo todo, assim como fez Homero.

Segundo Torres Homem, Dante Alighieri foi para a Itália, o genial escritor e literato que em uma terra inculta, realizou o primeiro trabalho no qual o idioma se sujeita ao estilo poético, criativo e engenhoso do autor. Adaptou-o a assuntos vários, tornou-o flexível a todas as nuances de sentimentos, buscando nos diversos dialetos falados na península itálica as locuções mais felizes e as palavras mais significativas incorporando-as em sua obra, assim como a abelha que do pólen de várias flores cria o suco dulcíssimo do mel.

Esse poeta dedicou seus primeiros versos a uma bela jovem, chamada Beatriz que, em Florença, viu a morte chegar prematuramente, plantando na mente laboriosa do escritor, sentimentos de um amor ardente e permanente, cheios de sensibilidade doce e terna, carregados do perfume da mais suave melancolia.

Conta-nos o Visconde que certo dia, no ano 1304, visitou Florença o Cardeal bispo de Óstia-Velletrio, Niccollò Albertino, filho do conde de Prato, também chamado como Niccolò da Prato, ou Nikolaus von Prato. Durante esta visita divulgou-se, ao som de trombetas, que aqueles que desejassem receber notícias do outro mundo, do mundo invisível dos mortos, deveriam vir à ponte “Alle Carraia”, a segunda ponte construída sobre o Rio Arno, feita de pedra e madeira e que ligava Florença ao interior da Itália. Na Ponte foi levantado um teatro onde artistas usando máscaras demoníacas, representavam os suplícios do inferno, precipitando-se em chamas, interpretando condenados rangendo dentes e desferindo gritos horríveis sobre a plateia atônita. Em um determinado momento, a Ponte não suportou o peso da multidão e dos artistas e desmoronou. A curiosidade com as coisas do outro mundo, agora, se tornava realidade para as pobres vítimas do evento, vitimadas de forma mortal.

Torres Homem enfatiza que foram muitos os estudiosos de Dante Alighieri que referenciam este evento como a inspiração das primeiras ideias da “Divina Comédia”. O século 14, era um tempo em que a religião tudo influenciava – superstições, o pecado, o medo e até mesmo a submissão clerical devotada por fiéis católicos – o que abria, de certa forma, um caminho para a poesia e para a música, recheadas de curiosidade sobre a morte e a vida pós-morte. O povo julgava Dante Alighieri um viajante das regiões infernais, e dos meandros do purgatório, colecionador de mapas, itinerários e trilhas geográficas desses lugares desconhecidos.

Em certa ocasião, conta-nos o Visconde, que em uma rua de Verona uma mulher do povo mostrou-o à sua vizinha nestes termos: – “Vedes aquele homem, que vai ao inferno quando quer, e vem contar o que viu?”. Ao que outra respondeu que “não era difícil reconhecê-lo pela sua barba meio queimada, e pela tez enegrecida pelo fogo e o fumo”.

As disputas ocasionadas pelo clero e pelo Sacro Império Romano-Germânico geravam uma época de confusão e depressão e deram a Dante Alighieri uma rica fonte de inspiração, com episódios vários, até mesmo incluindo o próprio autor. Dante relata com paixão e maestria opiniões, costumes, conflitos de paixões e de acontecimentos.

A obra de Dante Alighieri apresenta um itinerário poético de três mundos, marcado por viagens através do Inferno, Purgatório e Paraíso. O viajante desce pelos dez recintos do inferno como se fosse, figurativamente, um cone com sua base circular voltada para cima, cuja ponta coincide com o centro da terra, local onde repousa o corpo de Lúcifer. Depois de passar pelo centro da terra, segue em tropa pelo hemisfério austral, até uma ilha onde se acha o Purgatório, montanha feita em cone truncado, cone com ponta achatada em formato cônico, onde se situa o Paraíso. Esta referida montanha com sete diferentes alturas, ou planos, da base até o cume onde termina o Purgatório e começa o Paraíso. Dante, depois de saudar a morada de nossos primeiros pais, continua sua jornada elevando-se até a morada de Ptolomeu na décima esfera, onde a divindade reside. Dia após dia, Dante nos proporciona um relato fiel do que viu e ouviu no caminho de suas aventuras.

Continua Torres Homem relatando que, no começo do canto do Paraíso, com seus arroubos de entusiasmo e suas frequentes invocações, as musas são carregadas de ingenuidade encantadora. Apavorado com a enorme tarefa que o força a subir o cume dobrado de duas colinas, pede a Apolo que tome conta de sua alma. Que faça cair sobre ele e sua missão os sons provocados pela sua lira que venceu a flauta do fauno Marsias, causador de tão desgraçado desafio musical entre ele e Apolo. A derrota do fauno trouxe como consequência o castigo terrível de ser amarrado a um tronco de árvore e esfolado vivo. O estudo do Visconde menciona que no Poema do inferno são elevados ao mais alto tom o negro e o terrível. Já no Purgatório pode se respirar a melancolia piedosa da penitência resignada, com ar sombrio, como um doce crepúsculo em perspectiva. No canto do Paraíso, a calma, a serenidade, o êxtase, o sublime da religião. Chama a atenção Torres Homem que os críticos são unânimes em afirmar, que a inscrição na porta do Inferno pode ser traduzida como a transcendência do terror:

“Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!”

(Renunciai a toda esperança, vós que entrais) – Inferno Canto III

E ao passar por esta porta infernal, é impossível deixar de se escutar suspiros, soluços profundos, queixumes atrozes que retumbam nos dias e nas noites.

O patético e o terrível são extremamente aplicados no canto em que Dante narra a horrorosa história do conde Ugolino, que perece de fome com seus filhos na torre de Pisa. Com certeza este é um momento na obra que excede a qualquer obra produzida, impossível de ser lida sem o sentimento de piedade e terror, frisa Torres Homem.

E continua sua análise, com bastante propriedade:

“Que espetáculo oferecem esses meninos que, em seus sonhos, pedem pão com soluços e gritos dolorosos; e que, depois de acordados, imploram a compaixão de seu pai, também esfaimado, e passam dois dias a olhar uns para os outros com uma dor muda.” Inferno Canto XXXIII

O Visconde, em seu estudo, não perde um detalhe e traz em seus comentários que na passagem pelo Inferno Dante mostra seu espírito de sátira, de uma sátira violenta, atroz que, através das palavras enterra sua lâmina envenenada nos mais profundos recônditos da alma do leitor. Seria uma justificativa para tal espírito os infortúnios sofridos por Dante Alighieri? Seria este o gênio natural do poeta, que transitou entre Guelfos e Gibelinos? Guelfos, que se alinhavam ao clero, aos papas e à liberdade das cidades e os Gibelinos, que se alinhavam ao Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

Aqui inicia o Visconde uma análise pessoal de Dante Alighieri. Dante havia sido guelfo à frente da magistratura em Florença. Mas, uma divisão interna entre Guelfos Brancos e Guelfos Negros provocaram disputas e discórdias que não permitiram reconciliações. Depois de ter sido expulso de Florença, Donato Corsi, inimigo mortal de Dante Alighieri, retorna sob a proteção do papa Bonifácio VIII e de Carlos di Valois, filho de Felipe III, da França, este, para servir de pacificador entre Guelfos Brancos e Negros e reprimir as lutas entre as facções. Carlos di Valois, atendendo aos pedidos secretos do pontífice, reprime severamente o partido dos Brancos com uma longa série de exílios, assassinatos, confiscos e incêndios, favorecendo assim o triunfo dos Guelfos Negros. Tal violência acaba envolvendo também Dante Alighieri que, várias vezes, manifestou-se com muita dureza nos órgãos municipais contra a presença de Carlos de Valois em Florença.

Dante Alighieri, da mesma forma, seria expulso de Florença e passaria o resto de sua vida exilado de sua cidade, mas o seu rancor com o clero papal acaba por transforma-lo em um Gibelino, inimigo figadal dos papas.

O Visconde traz à lembrança que, “as feridas no coração do poeta Dante Alighieri gotejavam dor e sangue” e ao escrever sua obra prima durante os doze primeiros anos do seu banimento de Florença, elas se abriam a todo instante. E questiona veementemente, o Visconde, analista literário: “Devemo-nos, pois, admirar de ver o seu ressentimento em versos cheios de força e furor?”

Continua com bastante ênfase, que o tema escolhido por Dante Alighieri o deixava bastante à vontade para saciar a sua própria vingança. Seus inimigos o exilaram de sua pátria, ele também os exilará da pátria celeste e os mergulhará em lagos de fogo no inferno. O alvo se volta sem piedade para coroas reais, mitra episcopal, chapéu de cardeal, tiara sagrada de sumo pontífice. Para Dante, toda a Itália não é aos seus olhos “senão uma morada de dor, um navio sem piloto”, não é mais a rainha do mundo, “mas sim uma vil escrava, um lugar de crápulas e prostituição”:

Ahi, serva Italia, di dolore ostello,

(Ai, serva Itália, da dor albergue)

Nave senza nocchiero in gran tempesta,

(Navio sem timoneiro, na grande tempestade)

Non Donna di province, ma bordello.

(Não mulher da província, mas de bordel)

Purgatório Canto VI

O Visconde de Inhomirim afirma que a audácia de Dante Alighieri cresce à medida que se expõe a maiores perigos, e sobe ao cúmulo quando chega às ordens religiosas, aos papas e seus ministros. Amontoando no inferno papa sobre papa, fez de todos uma coleção perpendicular com a cabeça para baixo e os pés para cima.

Dante Alighieri reserva ao seu perseguidor, o papa Bonifácio VIII, todos os raios possíveis da vingança, descrevendo-o com as tintas mais negras retiradas do fel da amargura encravada nos recônditos da alma.

No inferno de Dante podem-se encontrar as mais variadas punições. Os preguiçosos e indolentes que, nem bem, nem mal fizeram, são condenados a correr incessantemente. Os heréticos estão estendidos em sepulcros ardentes de um vasto cemitério. Os suicidas, encerrados dentro de vegetais, são os hamadríadas; as ninfas dos bosques que na mitologia nasciam encerradas dentro de uma árvore, não reassumirão seus corpos no dia da ressureição, por que não seria justo que lhe restituíssem o que voluntariamente renegaram. (Inferno Canto XIII)

Assim narra, o Visconde:

“Os blasfemadores estão deitados em supinação sob as chamas que os envolvem! Os fogos de Sodoma caem em chuva sobre seus habitantes, e sobre os que lhes imitaram os costumes perversos. Os sedutores de mulheres são fustigados e cozidos em um lago de fogo, onde os demônios os viram, à semelhança de um cozinheiro experimentado que revolve à carne.” (Inferno Canto XXI)

Serpentes dilaceram os salteadores e assassinos, e os fazem passar pelas mais singulares metamorfoses. Enfim, um rio gelado é destinado aos traidores da pátria, seus parentes e benfeitores. (Inferno Canto XXXII)

Torres Homem chama a atenção para este canto XXXII, onde Dante, que conhecia como ninguém o som das palavras, busca versos roucos, duros, e receando que a língua italiana não lhe forneça os sons que deseja recorre ao expediente de endurecer o estilo, emprestando do alemão sons como: (1) Danoia in Ostericchi (rio Danúbio na Áustria), (2) Tambernicchi (nome antigo do Monte Tambura, na Toscana), (3) Pietrapana (nome antigo do monte Pania de la Croce, na província de Luca, na Toscana), (4) borda cricchi (Se essas montanhas, tivessem caído no lago de gelo, não teriam craquelado as camadas da borda).

“Non fece al corso suo sì grosso velo

(Não fez seu curso tão espesso véu)

Di verno la Danoia in Ostericchi (1)

(No inverno o Danúbio na Áustria)

Nè ’l Tanai tà sotto ’l freddo cielo,

(Nem o Tanai sob o céu frio)

Com’ era quivi: che se Tambernicchi (2)

(Como lá estava: que o Monte Tambura

Vi fosse su caduto, o Pietrapana (3)

Lhe tivesse caído sobre o Pietrapana

Non avria pur dall’orlo fatto cricchi (4)”.

(Não teria as bordas feito rachar)

Conclui Francisco de Sales Torres Homem, o Visconde Inhomirim, dizendo que a grande arte de Dante Alighieri está na maneira como ele combina sons, palavras e imagens. Talento poético que proporciona imagens encantadoras e singelas.

Como exemplo o Visconde toma os versos do Canto XXIII do Paraíso, que descreve a imagem do pássaro vigilante que, durante a escuridão da noite, repousa com seus filhos em um ninho oculto na espessura das folhagens, cuidando das suas crias implumes à espera de um novo dia.

Este canto é uma das imagens de Dante Alighieri mais citadas pelos críticos, no sentido de definir a pureza do amor divino, caridoso, esperançoso e triunfante nos cuidados pelos seus filhos.

Impossível não se enternecer com os versos deste canto:

Come l’augello intra l’amate fronde

(Com o pássaro entre amados ramos)

Posato al nido de’ suoi dolci nati,

(Pousado no ninho com seus doces rebentos)

La notte, che le cose ci nasconde,

(A noite, que as coisas nos escondem)

Che per veder gli aspetti desiati.

(Que ao ver os aspectos desejados).

E per trovar lo cibo onde li pasca.

(E encontrar comida para alimentá-los)

In che gravi labori li son grati,

(Em sérios trabalhos lhe são gratos),

Previene ’l tempo in su l’aperta frasca,

(Calcula o tempo em seu ramo saltitante),

E con ardente affetto il Sole aspetta,

(E, com ardente afeto, o sol espera),

Fiso guardando pur che l’alba nasca;

(Vigiando constantemente o nascer da alvorada).

Economia Compartilhada uma modalidade econômica futurística

Economia Compartilhada uma modalidade econômica futurística

Art082017_0-300x169 Economia Compartilhada uma modalidade econômica futurística

No último mês de 2017, em um de seus artigos, April Rinne, autoridade Global, especialista em economia compartilhada e consultora focada em cidades inteligentes, políticas, turismo sustentável, investimentos de impacto e desenvolvimento global escreveu um artigo muito interessante. What exactly is the sharing economy? Em português poderíamos dizer: “O que é exatamente a Economia Compartilhada”, escrito especialmente para o Fórum Econômico Mundial.

O artigo nas primeiras linhas relembra a sua participação no Fórum Econômico de Davos em 2013, quando, pessoalmente, fez uma pesquisa a cada participante questionando se já haviam ouvido termo “sharing economy” (economia compartilhada). O resultado foi de que noventa por cento (90%) disseram que não, cinco por cento (5%) presumia que se tratava de uma economia com base em trocas e os cinco por cento (5%) restantes configuravam uma afirmação de que as novas tecnologias reconhecidas e as redes peer-to-peer (ponto a ponto) estavam permitindo modelos de negócios emergentes.

Já em 2017 quando escreveu o artigo ela constatou que a realidade havia se transformado totalmente, que tal modalidade econômica é pauta de notícias diárias e gera uma lista enorme e incompreensível de termos relacionados como, Gig Economia, Economia Solidária, Economia Colaborativa, Economia de Pares, Economia Uberizada e etc…

Art082017-300x198 Economia Compartilhada uma modalidade econômica futurística

Órgãos como o Harvard Business e o Financial Times questionam o termo “economia compartilhada” quando se tem uma empresa mediando a oferta e a demanda. Em geral os consumidores transferem valor lucrativo para o mediador já não é compartilhamento, mas a busca do lucro e da negociação ganha – ganha.

Por ter crescido, a Economia de Compartilhamento, passou a ser vítima de seu sucesso e sua definição acabou recebendo uma variedade de significados, muitas vezes usada para descrever uma transação digital on-line na aquisição de bens e serviços. A premissa comum é que quando se tem em tempo real o compartilhamento de informação através de um mercado on-line de valores, quantidades e disponibilidade de bens e serviços o valor destes tendem a aumentar para o negócio, o indivíduo, para a comunidade e até mesmo para a sociedade em geral.

Compartilhamento, o verdadeiro espírito em que ativos subutilizados possam ter papel de reaproveitamento em diversas comunidades e grupos sociais é o que defendem os grupos e pessoas que desejam realizar e efetivar conceitos de cooperação e compartilhamentos na sociedade, e são muitos que tem este objetivo.

Apesar de exemplos como UBER, AirbnB, Booking, TripAdvisor e muitos outras formas de negócios criados ultimamente, são faces desta economia e acabamos por nos certificar que existe inúmeros outros espíritos que ainda não foram definidos claramente como vários modelos desta “nova economia”.

Podemos exemplificar vários tipos destas novas economias.

Economia Compartilhada: foco na partilha de ativos subutilizados, monetizados ou não, de forma a melhorar a eficiência, a sustentabilidade e a comunidade.

Economia Colaborativa: foco em formas colaborativas de consumo, produção, finanças e aprendizagem (o “consumo colaborativo” é mais próximo da definição de economia compartilhada ortodoxa).

Economia sob demanda: foco na provisão sob demanda (“on-demand”) isto é, imediata e baseada em acesso de bens e serviços.

Gig economia: foco na participação da força de trabalho e geração de renda através de uma força de trabalho independente, com um novo modelo de contratação, projetos únicos ou tarefas para as quais um trabalhador é contratado. Em geral têm se uma sobreposição limitada com compartilhamento de habilidades.

Economia freelance: foco na participação da força de trabalho e na geração de renda por freelancers, também conhecidos como trabalhadores independentes e trabalhadores por conta própria. Também em geral apresenta uma sobreposição limitada com compartilhamento de habilidades, os compromissos do freelance são geralmente maiores e mais profundos do que os mencionados na Gig Economia.

Economia de pares: foco em redes peer-to-peer (P2P) (ou ponto a ponto, par a par) na criação de produtos, entrega de serviços, financiamento e tantos outros tipos focados em associações das mais diversas.

Acesso à economia: foco no “acesso sobre a propriedade” (sobrepõe-se ao compartilhamento, e claramente não é compartilhamento de forma alguma.). É um modelo de negócios onde bens e serviços são negociados com base em acesso, em vez de propriedade: refere-se ao aluguel de coisas temporariamente em vez de vendê-las permanentemente. O termo surgiu como uma correção para o termo economia compartilhada, porque os principais atores na economia compartilhada, em geral, são empresas comerciais cujas empresas não se envolvem em qualquer compartilhamento.

Economia da multidão: foco em modelos econômicos alimentado por um número incontável de atores “a multidão”, incluindo, entre outros, crowdsourcing (fontes de multidões, uma pratica para a obtenção de informações ou insumos em uma tarefa ou projeto, alistando os serviços de um sem número de pessoas, pagas ou não pagas) e crowdfunding (levantamento de fundos, ou seja, por participação financeira como uma popular vaquinha, modelo conhecido para juntar fundos).

Economia digital: foco em qualquer coisa alimentada por tecnologias digitais.

Economia de plataforma: foco em qualquer coisa alimentada por plataformas de tecnologia centrada, onde lideres industriais desencadeiam o poder da tecnologia para desenvolver novos modelos de negócios baseados em plataformas e estratégias que impulsionam uma mudança macroeconômica global nunca visto desde a revolução industrial.

O que vemos é uma intersecção muito grande entre estes modelos e fica fácil de encontrar uma plataforma com múltiplas definições. TaskRabbit é uma plataforma indiscutivelmente com um pé na economia sob demanda, Gig, colaborativa e de compartilhamento (assumindo que as habilidades do Tasker estavam anteriormente subutilizadas).

Um outro exemplo é o inventário de compartilhamento de casas no Airbnb que faz claramente parte da economia de compartilhamento, enquanto as alocações corporativas de curto prazo em tempo integral não são necessariamente assim, e mais provável estão na economia de acesso.

Estar atualizado com estes modelos é o grande desafio do profissional do futuro para enfrentar mudanças que deverão quebrar muitos paradigmas econômicos que gestarão com certeza uma nova ordem social e política no nosso planeta.

Genaro Campoy Scriptore