Arquivo mensal 11/12/2025

O respeito à arte e ao artista

O  RESPEITO À ARTE E AO ARTISTA.

Oleiro-e-Poeta-peq-200x300 O respeito à arte e ao artista

Viver em uma sociedade onde o respeito tornou-se um valor desprezível — especialmente para grande parte da geração moderna — sempre me trouxe certa dificuldade para compreender o mundo atual.

Até que, de repente, reencontro um conto de minha juventude, criado pelo professor Júlio César de Mello e Souza, presente no pequeno livro de 206 páginas intitulado Malba Tahan – Os Melhores Contos, publicado pela Editora Record, contendo 28 histórias assinadas pelo pseudônimo “Malba Tahan”.

Para situar o leitor, faço um breve resumo das páginas 93 a 96 da obra mencionada, que, sem pretensão alguma, trouxe-me uma visão renovada e suavizou o ranço conservador que costuma habitar homens de idade como eu.

Vamos ao resumo da ópera:

Em certo lugar fictício do mundo árabe, numa rua de uma pequena vila, o oleiro Nagib e o poeta Fauzi discutem acaloradamente, chamando a atenção dos moradores. Diante da confusão, a autoridade local decide levá-los ao juiz para solucionar a desavença.

O oleiro explica que estava trabalhando, moldando seus vasos, alheio aos movimentos da rua, quando o poeta, que por ali passava, atirou uma pedra e quebrou uma de suas peças. Indignado, Nagib exigia reparação em forma de indenização.

O poeta, porém, apresenta outra versão. Ao passar pelo ateliê de Nagib, Fauzi escutava o oleiro recitar um de seus poemas de forma totalmente equivocada: mutilava os versos e descaracterizava completamente sua criação. Por três dias consecutivos, Fauzi o corrigiu pacientemente e com delicadeza. Quando estava presente, o oleiro declamava o poema de forma correta e agradável ao seu criador.

Naquele dia, porém, sentindo-se insultado pela declamação errada e vulgar que Nagib fazia de sua obra, o poeta decidiu atirar uma pedra e quebrar o vaso como uma “resposta simbólica”. Se o oleiro quebrava e mutilava sua poesia, ele, o poeta, quebraria a cerâmica de Nagib.

O juiz, com sabedoria e senso de justiça, determina que Nagib produza um vaso perfeito, com espaço suficiente para receber alguns versos do poema de Fauzi. Decide também que a peça seja vendida em leilão e que o valor arrecadado seja dividido igualmente entre o oleiro e o poeta. Em sua síntese, conclui: “O poeta é o oleiro da frase, e o oleiro é o poeta da cerâmica.”

Segundo o conto, a história rapidamente se espalha pelo vilarejo. O sucesso da solução proposta leva os dois a colaborarem na criação de novas peças, fortalecendo uma amizade sincera e despertando admiração mútua entre os dois artistas.

Vivemos em uma sociedade não muito diferente da narrada por Malba Tahan. São inúmeras as pessoas com as características de Nagib, o oleiro — dotadas de admiração pela arte, mas sem domínio da linguagem poética. Em geral, são apreciadores da pintura, da música, das letras; contudo, ofendem-nas inadvertidamente, distorcendo-as e, por vezes, travestindo-se de puerilidade, desenvolvendo atitudes grotescas na imitação ou cópia dos entornos culturais. Percebem pouco o valor das figuras artísticas do passado ou do presente, ainda que apreciem suas obras. Por conseguinte, são dotados de uma verve artística prática, quase sempre ligada à matéria, ao concreto.

Em contrapartida, encontramos constantemente os Fauzi — poetas, artistas sensíveis, vaidosos, perfeccionistas, guiados pelo emocional, profundamente irritados ao ver sua obra desfigurada ou mutilada, pois a consideram perfeita e sagrada. Com senso crítico mais exacerbado que o normal, podem transfigurar seu desagrado com críticas ou imperfeições na execução ou análise de suas obras em atos de violência simbólica, como forma de protesto. Vivem no campo das ideias e da sensibilidade, dotados da capacidade artística das letras e das artes, buscando incessantemente a manutenção da autoria e da fidelidade estética.

Hora ou outra, surgem conflitos entre esses dois tipos de artistas. Gênios da criação que nada recebem por sua produção, mas que invariavelmente enriquecem atravessadores e negociantes da arte. Artistas populares que dependem dos favores do governo, enquanto muitos outros, já famosos, disputam enormes fatias do orçamento público, retornando migalhas para a nação. E o entretenimento digital, por sua vez, vive da monetização que muitas vezes abocanha direitos reservados de seus criadores.

É lamentável nossa realidade, que não dispõe de um Cádi (juiz) como o descrito por Malba Tahan no pequeno vilarejo de sua narrativa.

No mundo dos sonhos criados pelo autor, o juiz é sábio, equilibrado, justo, ponderado, conciliador e humanista. Tem a capacidade de escutar os dois lados sem tomar partido precipitado e consegue enxergar, além do conflito material, a falta de respeito mútuo entre os artistas.

Que inveja desse lugar perfeito! É fácil imaginar ali uma solução criativa que transforma o conflito em harmonia social e cooperação. E fechar o julgamento com um digno chavão de ouro: “O poeta é o oleiro da frase, e o oleiro é o poeta da cerâmica.” Cada artista tem seu dom; nenhum é superior ao outro.

Mas nossa realidade não é assim. A sociedade moderna conta com um acesso irrestrito às letras e às artes, mas ainda não demonstra o devido respeito ao valioso acervo cultural — seja nos museus virtuais e presenciais, seja nos meios fluidos da música, das artes visuais, do cinema, da literatura e do design, cada vez mais impulsionados pela tecnologia digital.

Há uma desigualdade crescente nos meios literários, onde a criação veste neologismos e deforma a língua nacional, enquanto o pensamento crítico é desvalorizado em troca de entretenimento e jogos que desviam o compromisso com a realidade.

A leitura profunda e o engajamento crítico são prejudicados pela influência de conteúdos digitais rápidos, o que enfraquece a capacidade de reflexão e diminui o espaço para obras mais densas e complexas. Ao mesmo tempo, embora a arte se torne mais acessível e diversificada, muitos artistas enfrentam precarização, falta de apoio estrutural e competição desleal com algoritmos e plataformas que privilegiam o consumo massivo em detrimento da qualidade estética. Esses conflitos revelam tensões entre a popularização das letras e das artes e a superficialidade artística, entre a inovação cultural e a instabilidade social — o que aponta para a necessidade urgente de políticas culturais, educativas e tecnológicas que valorizem a criação crítica, o trabalho artístico e a formação de um público capaz de apreciar e sustentar produções mais profundas e transformadoras.

Ao final de minha reflexão, resta a pergunta:

“Como será que Júlio César de Mello e Souza, criador de Malba Tahan — professor, pedagogo, incentivador do estudo da matemática e grande escritor de romances infantojuvenis — veria este momento histórico digital de nossa sociedade moderna?”