Arquivo mensal 23/09/2025

A escolha pelo fanatismo.

Discussao-300x200 A escolha pelo fanatismo.“O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado”
Jean-Jacques Rousseau  –  O Contrato Social

 Tenho observado, nas conversas entre amigos, nas reuniões familiares e na mídia, confrontos verbais profundamente preocupantes.

A violência física, amplamente divulgada pela mídia e que presencio em tempo real, provoca uma cegueira coletiva, acostumando o espectador a aceitar injustiças e posições imorais ou desumanas que não se justificam pelos valores sociais

A compaixão, o respeito pelo outro e a consideração pelo ser humano parecem estar em declínio. A guerra do “nós contra eles” transformou-se em um campo de batalha, cujo objetivo é a destruição do inimigo: ora por intimidação, ora por ameaças, e, em casos extremos, por agressões físicas. Justificam-se facadas, assassinatos frios e premeditados, planejados por snipers em telhados, e tantas outras estratégias maquiavélicas, com o intuito de eliminar o opositor, frequentemente reduzido à caricatura da maldade.

Podemos creditar aos políticos e à política uma nova dimensão do fanatismo, que se manifesta como instrumento de extremistas. A política tornou-se o lugar privilegiado onde o fanatismo se expressa. Não há grande diferença entre o fanático que tenta “eliminar” seu oponente político e aqueles que cometem atos de violência extrema, como a corja que ateia fogo a um pobre morador de rua.

O fanático se retrata como um herói, comprometido em livrar o mundo daqueles que considera parasitas. O fanático político que recorre à violência compartilha a mesma face do incendiário: ambos justificam atos cruéis em nome de uma suposta missão moral.

A palavra “cancelar” passou a carregar novos sentidos. Originalmente, referia-se a atos concretos, como anular um contrato, suspender um voo, riscar ou apagar algo previamente registrado. Hoje, o termo abrange desde a simples rejeição de uma marca ou ideia associada a um adversário até ações destinadas a calar, perseguir e, em casos extremos, agredir ou até matar.

Para compreender esse fenômeno, precisamos ultrapassar a visão binária que divide o mundo em preto e branco — cara ou coroa — como se a vida fosse um experimento de Bernoulli, em que a moeda tem 50% de chance de cair “cara” e 50% de cair “coroa”.

Esse olhar simplista alimenta o fanatismo que não admite as infinitas posições que possa existir entre dois polos. É como assumir que entre 1 e 2 não exista nenhum outro número: só há o certo e o errado, e o “nós” detém sempre a razão, legitimando à execração do “eles”.

Diante desse cenário, reservo-me o direito de não assumir posições que me coloquem entre o “nós” e o “eles”, em razão da minha rejeição ao fanatismo dos políticos atuais. Ao mesmo tempo, reconheço os cegos na condução de outros cegos, diante da evidente falta de liderança que enfrentamos hoje.

Não perco a esperança. Assim como Jean-Jacques Rousseau, defendo uma sociedade que valorize a inclusão e a participação direta dos cidadãos na construção democrática, respeitando o indivíduo independentemente de seu grau de instrução ou poder econômico. Acredito na igualdade perante a lei e na primazia do bem comum sobre interesses individuais. Para mim, a legitimidade política nasce do acordo coletivo e do compromisso com a vontade geral, onde a vontade do povo é soberana.

Sei que, pelo olhar do rotulador compulsivo ou da pessoa estereotipada, serei colocado na caixa dos “isentões”. No entanto, como disse acima, prefiro manter o equilíbrio e tentativa de justiça a abraçar um dos lados do fanatismo.

Afinal, quem abraça jacaré morre afogado. Mesmo que ele esteja travestido de honestidade, boas intenções ou falsamente do lado da vontade popular, prefiro deixá-lo tomando banho de sol, à espera da presa correta para sua sobrevivência predatória ou do extermínio pelas mãos de um caçador ambicioso.

Genaro Campoy Scriptore
22 de setembro de 2025